Direto ao Ponto

Desconfiança no futebol e na política travam encantamento com a Copa em Porto Alegre

Capital gaúcha estava inerte ao evento no dia da abertura oficial

Manifestação de apoio à Seleção ainda é discreta em Porto Alegre
Manifestação de apoio à Seleção ainda é discreta em Porto Alegre Foto : Raphaela Suzin / Especial CP
Enquanto a Copa do Mundo oficialmente começava na Rússia, Porto Alegre parecia inerte ao maior evento de futebol. Sem bandeiras do Brasil e sem decoração verde-amarela pelas ruas e prédios, a cidade aguarda a estreia da Seleção para começar, de fato, a se empolgar com a Copa. O motivo é a desconfiança: com o futebol e com a política.

Apesar do bom desempenho da Seleção nos últimos amistosos, é difícil esquecer o fatídico 7 a 1 contra a Alemanha dentro de casa. “Dá medo que aconteça lá o que aconteceu na Copa do Brasil”, confessa o estudante Alisson dos Santos Pereira, de 16 anos. Mesmo assim, ele diz acreditar no trabalho que está sendo desenvolvido pelo técnico Tite e espera que o Brasil realize uma boa estreia contra a Suíça, no domingo, a partir das 15h.

A Copa de 2014 não deixou o torcedor desiludido apenas dentro de campo. Os escândalos de desvio de dinheiro durante a organização do evento e também as inúmeras obras prometidas e inacabadas contribuem para a descrença. “As pessoas estão desiludidas porque elas viram em 2014 como funciona a organização desses eventos, com exploração e corrupção”, argumentou um estudante de mestrado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) que não quis se identificar.

Ele andava, na manhã desta quinta-feira, por um dos pontos que se tornou símbolo da Copa do Mundo de 2014 em Porto Alegre: a avenida Borges de Medeiros, onde foi realizado o “Caminho do Gol”. O local – que há quatro anos era tomado por cores e bandeiras de diversos países – hoje não exibia se quer um sinal de Copa do Mundo, assim como a maioria das ruas por onde a reportagem circulou nesta manhã.

A maioria das lojas do Centro de Porto Alegre e também restaurantes da Cidade Baixa e Padre Chagas, por exemplo, não adotaram a decoração verde-amarela para atrair clientes.

A falta de clima para o grande evento do futebol é por que “a situação atual do País não está propícia para a Copa”, explica o chefe de cozinha Joni Viscardi, de 47 anos. Ele se refere as dificuldades econômicas e políticas que o País enfrenta.

Local onde foi o Caminho do Gol em 2014 estava sem uma bandeira sequer hoje Foto: Raphaela Suzin / Especial CP

E a camiseta amarela?

O autônomo Giovani Santos, de 47 anos, começou a vender artigos do Brasil apenas hoje - dia da abertura oficial da Copa, sendo que, em 2014, as vendas inciaram 20 dias antes do evento. “É que agora tem pouca procura. O movimento é muito baixo se comparado à Copa passada”, conta. Ele expõe os produtos na avenida Getúlio Vargas, no bairro Menino Deus. E em quatro horas, vendeu apenas uma camiseta do Brasil. “Não dá nem para comprar uma cafezinho”, desabafa.

Como a camiseta da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) foi muito utilizada durante os protestos que pediram a saída da presidente Dilma Rousseff, muitos torcedores optaram por não utilizá-las agora. “Posso até torcer, mas sem a camiseta amarela que virou símbolo de luta contra o PT”, disse o estudante da Ufrgs.

A posição se reflete no comércio. Assim como Santos, o ambulante Júlio César Martins, de 32 anos, também não está vendendo muitas camisetas da Seleção. “Estou aqui há uma semana, para tentar vender. Mas está difícil”, conta. A expectativa é que com a estreia do Brasil, as vendas aumentem. “Espero que na véspera do jogo, já tenha mais procura. Vamos ficar aqui e insistir pelas vendas e para que o Brasil vença”, disse.

Foto: Raphaela Suzin / Especial CP

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