Juliano Spagnolo, 49, abriu o Gracejo 411, restaurante especializado em parrillas, na rua Álvaro Chaves, 4º Distrito, há um ano e oito meses. Para montar o estabelecimento, decorado com mobiliário de madeira em estilo rústico, ele gastou cerca de R$ 500 mil reais. Quase todo o investimento foi perdido com a enchente que alagou as ruas e os prédios do 4º Distrito desde o início deste mês.
A água baixou no trecho onde fica o restaurante, mas a marca da destruição causada pela água, que subiu até a altura do joelho, ainda está em todo o canto. “Sendo muito otimista, dá para dizer que vou conseguir recuperar 20% de tudo que tinha aqui dentro”, disse o proprietário.
Spagnolo e dois vizinhos do restaurante estão trabalhando há mais de três dias na limpeza do imóvel. Uma fritadeira e um galão de óleo destinado para descarte foram derrubados pela água dentro do restaurante, deixando uma camada de gordura em toda a cozinha, o que dificulta o trabalho.
Após a enchente do lago Guaíba ter superado suas expectativas e danificado o restaurante, Spagnolo pensa em fechar o estabelecimento, que fica em um imóvel alugado. “Não sei se volto para cá. Não vou pagar para botar uma grana fora, né? E aí vem uma outra enchente e acontece tudo de novo. Para ficar aqui eu tenho que ter uma reunião com o proprietário do imóvel, se ele me der um ano de isenção eu até posso pensar em ficar porque eu não vou pagar para ver de novo e perder tudo que eu botei aqui dentro”, afirmou.
Empresário desde os 19, antes de investir no 4º Distrito, Spagnolo já tinha um restaurante bem estabelecido, com o mesmo nome, na Av. Venâncio Aires. Foi o que permitiu ao comerciante uma medida de proteção em meio à crise. Parte dos funcionários tiveram os empregos mantidos e estão trabalhando na unidade da região central, que passou a abrir também durante o dia, servindo almoço, além de janta.
“O 4º Distrito estava ficando muito bom, mas agora com tudo isso fica difícil apostar de novo”, refletiu Spagnolo.
Comerciantes do Quarto Distrito seguem fazendo a limpeza de seus estabelecimentos
Outros empresários repensam a estadia no 4º Distrito
Passando a rua Santos Dummont, em direção à Av. Castelo Branco, tudo segue alagado no 4º Distrito. Na quadra que já secou, junto à Av. Farrapos, outros comerciantes trabalham na limpeza dos imóveis e avaliam prejuízos. Ricardo Toshio Hirahata, 57, é proprietário da Panasul Eletrônica, loja de venda e conserto de eletrônicos localizada há 27 anos na rua Álvaro Chaves, próximo à Av. Farrapos, em um imóvel alugado.
Brasileiro descendente de imigrantes japoneses, Hirahata perdeu quase tudo com a enchente. Ele conta que ainda não conseguiu contabilizar o total de prejuízos, mas perdeu praticamente todos os móveis, produtos e equipamentos de clientes.
Com um lava-jato, três voluntários ligados à Associação da Cultura Japonesa de Porto Alegre (ACJ) ajudavam Hirahata a tirar a lama de móveis e eletrônicos danificados na tarde deste domingo, 26. A energia elétrica na loja voltou apenas na sexta-feira, 24. Antes, o proprietário estava usando um gerador para limpar o local.
“O que mais estou sendo pressionado é para mudar a loja para outro lugar. Mas ainda não decidi o que vou fazer”, lamentou o empresário. Ele conta que dispensou os funcionários na sexta-feira, dia 3, mas não imaginava que a água ia subir tanto. Quando viu a notícia de que o nível do lago estava subindo, ele foi até a loja com água pelo joelho e colocou objetos e equipamentos eletrônicos em cima das prateleiras mais altas. Mas com a flutuação muitos produtos caíram das prateleiras, ficando embaixo d’água.
Gelson da Silva Cabral é dono de uma Óptica que fica no segundo piso de um prédio, na Rua do Parque, 339. A loja não foi afetada diretamente pela água, mas segue fechada desde o dia 3 de maio, sem previsão de reabertura, uma vez que a rua segue alagada e o bairro está sem movimento, com riscos de assalto.
Morador de Gravataí, Gelson e a esposa, Simone Ortiz Rodrigues, contribuíram no início das enchentes, como voluntários, na cidade deles, cedendo a própria casa para distribuição de marmitas aos afetados pelas chuvas, mas agora, com as vendas paradas, não há mais dinheiro para ajudar. Gelson estava retirando produtos da loja para tentar seguir com as vendas de casa.
Malu Verardo, proprietária do Lumi Music Bar, inaugurou a casa de shows há pouco mais de dois meses, na esquina da Av. Farrapos com a Álvaro Chaves. Apesar de ter tido poucos prejuízos, uma vez que a casa de festas fica no segundo piso, não houve tempo de desenvolver a clientela e Malu não sabe quando vai reabrir, porque “não tem clima para festa”.
Agora, a empresária pensa em apresentar uma proposta à associação de moradores para ceder o espaço térreo do prédio a outros empresários do 4º Distrito, para que possam faturar de alguma forma. Verardo diz que este é um gesto de solidariedade e um convite aos comerciantes locais para que se unam nesse momento de reerguer os negócios.