“Quantas repetidas tu tens aí?”
“43”.
“Legal! Tenho 32. Tenho dois Neuer (goleiro da Alemanha). Tem algum Messi (craque argentino)?”
“Sim, bota o teu ‘bolinho’ ali na mesa!”
E os dois, retirando dos seus bolsos uma pilha de cromos amarrada com elásticos, se colocam em frente a uma banca de revistas como se fosse um encontro de negócios. A cena aconteceu no Centro de Porto Alegre, mas se repete em todo o país desde o lançamento do álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 2022 pela editora Panini. Este ano, a competição acontece no Catar, entre os dias 20 de novembro e 18 de dezembro. De quatro em quatro anos, a prática de colecionar figuras coláveis dos jogadores que deverão disputar o torneio atrai pessoas de todas as faixas etárias, desde os apreciadores contumazes até aqueles que começaram ocasionalmente.
O álbum conta com 670 figurinhas, onde 50 são consideradas especiais, como símbolos da competição, escudos brilhantes dos países e até mesmo uma linha do tempo com os times vencedores de competições passadas. A grande novidade deste ano são as figurinhas raras. Chamadas de Legends, elas podem ser encontradas na versão bordô, bronze, prata ou ouro, esta última o mais alto grau de raridade. Há quem venda exemplares com o brasileiro Neymar no e-commerce por “módicos” R$ 8,5 mil. No comércio em geral, os pacotes vêm com cinco figurinhas e custam R$ 4. Quanto aos álbuns, os normais (brochura) podem ser comprados pelo valor padrão de R$ 12,00 e os de capa dura, R$ 44,90.
Vinícius Machado foi além. Com uma mesa estendida em plena Praça da Alfândega, ele troca e vende cromos além de comercializar versões raras dos álbuns, nas cores prateadas e douradas por R$ 200,00. Na Internet, é possível encontrar o produto por mais de R$ 1 mil. O ambulante diz que cada dia uma figura é mais procurada, não há um jogador mais cobiçado. “É aleatório. Em uma hora, estamos atrás de uma, outra, temos dez repetidas. Varia muito. Hoje, tenho muitas do time da Austrália”, exemplifica. Coleções fazem parte da sua vida desde os anos 80, quando as imagens dos atletas surgiam ao abrir de embalagens de chicletes. “Nunca completei, mas tinha álbuns, só de Copas do Mundo”, conclui, garantindo que só faltam duas figuras para preencher.
O funcionário dos Correios Paulo Zomer aproveita as trocas no centro de Porto Alegre para encontrar figurinhas para o sobrinho. Foto: Ricardo Giusti
O horário em que os colecionadores mais se reúnem em frente as bancas de revistas é entre 12h e 14h. É neste momento, em que muitos trabalhadores estão no almoço, que o funcionário dos Correios Paulo Zomer aproveita para encontrar o que o sobrinho Francisco, de seis anos, ainda não tem. “Ele é autista e mora em Santana do Livramento, na Fronteira. Consegui trocar quatro hoje”, vibra. Assim que conseguir as cerca de 150 figurinhas que faltam, Zomer vai pegar a estrada para levar o álbum até o pequeno Francisco.
Mateus Pereira carrega na carteira o “bolinho” das figurinhas repetidas “para negócio”. Foto: Ricardo Giusti
Aficionado por colecionáveis, Mateus Pereira carrega na carteira o “bolinho” das figurinhas repetidas “para negócio”. Aos 25 anos, o estudante de Engenharia lembra os tempos de criança, quando, além de futebol, possuía álbuns de personagens de TV. “Tinha até do Kung Fu Panda. Como eu morava no município de Glorinha (região metropolitana), conhecia pouca gente para trocas. Agora, em Porto Alegre, resolvi colecionar. Vi os últimos amistosos do Brasil e o time ‘passou o carro’ nos adversários. Aí me empolguei ainda mais”, revela. Prestes a completar o álbum, para conseguir os 40 cromos restantes, Pereira adotou uma técnica. “Não compro mais, só troco. Tenho umas 700 figurinhas. Passo todo dia em uma banca até completar”, disse, otimista.
Júlia dos Santos, 17 anos, mostra que o passatempo também é para meninas. Foto: Ricardo Giusti
Para quem acha que álbum da Copa é coisa de menino, Júlia dos Santos, 17 anos, mostra que este pensamento é mais antigo que o Mundial de 1970. Fã do passatempo, colecionou o álbum do Brasileirão de 2013 e o da Copa do Mundo do ano seguinte. “Depois, meus pais não deixaram mais porque é muito gasto”, gargalha. Como ganha mesada, a adolescente atualmente gerencia o seu próprio dinheiro – e aplica metade dele no álbum. “Estou com dificuldades nos times menos tradicionais, como Irã e Gana, por exemplo”, revela a estudante do Colégio La Salle Dores. A aposta de Júlia é comprar pacotes de figurinhas em bancas de regiões diferentes, para diversificar a possibilidade de encontrar figuras igualmente distintas. “A expectativa é preencher o quanto o dinheiro der. Faltam umas 200”, sorri.
Trabalhando em uma banca de revistas na Praça da Alfândega desde 2011, Rafael Maiser vê o lucro crescer com a proximidade da Copa. Além dos álbuns e dos pacotes, vende as figuras avulsas a R$ 1,50 e criou uma espécie de mural com “bolsinhos”, cada um referente a uma seleção. “A editora não está dando conta, estamos com uma escassez de figurinhas. Por isso, nem comecei a minha coleção ainda”, garante. Isso que Maiser compra cerca de 2 mil pacotes por dia. “As crianças ficam enlouquecidas é com as figurinhas do Brasil.”
Joel Gonçalves, 44 anos, de Canoas, coleciona figurinhas desde o ano de 1987. De lá para cá, não parou mais. “Meu primeiro álbum foi o da Copa União, eu tinha apenas nove anos e fiquei encantado. Não perco a oportunidade, apesar de que está bem caro o pacotinho”, conta o engenheiro mecânico que passou a mania para o filho. Yuri, 11, está atrás das figurinhas especiais, novidade deste ano. “Estou pensando até em levar uma balança de precisão para tentar encontrar as premiadas”, brinca o menino diante do “truque” que aprendeu com influenciadores digitais no YouTube.
Inspirados pelo espírito esportivo e competitivo da Copa do Mundo, os 23 alunos de uma turma do 3º ano do ensino fundamental da escola La Salle, em Esteio, se organizaram e decidiram em sala de aula que mobilizariam pais e familiares não só pela compra do álbum, mas também pela corrida de completar o caderno de figurinhas com todos os atletas que disputarão os jogos a partir do mês que vem. A mãe da Antônia, de 9 anos, Renata Bassôa, 31, comprou o álbum e deu a largada com 200 figurinhas. “Nossa sorte é que veio apenas três repetidas. A combinação deles é fazer a troca durante o recreio. Eles se divertem. Agora estamos na campanha junto com amigos e familiares para completar o álbum antes da Copa iniciar, mas ainda falta mais da metade. É saudável fomentar valores ligados ao esporte junto com as crianças”, disse Renata.
Técnico Tite também entrou na brincadeira
Tite conferiu o álbum da copa junto de seus netos. Foto: Reprodução / CP
Em vídeo postado no início de outubro pela nora de Tite, treinador do Brasil, e influenciadora digital Fernanda Bacchi no Instagram, o responsável por convocar a Seleção para a Copa aparece ao lado de seus netos, Lucca e Leonardo, que mostram ao avô a página referente ao seu time completo no álbum. “Já completou? Nossa, nem sei quem que eles (Panini) convocaram”, diz o técnico gaúcho no vídeo. “Vamos ver se está certo.”
Seguindo a ordem das figurinhas no álbum, Tite começa a falar o nome de cada um dos jogadores. Antes do fim do vídeo, o treinador “confirma” três convocações da lista final: Alisson, Ederson e Alex Sandro. Os três estiveram presentes em grande parte do elenco durante o ciclo pré-Copa, com os dois primeiros tendo disputado a última Copa do Mundo na Rússia. A “confirmação” de Alex Sandro na convocação para a Copa do Mundo seria a mais surpreendente das três, ainda que não seja nenhuma novidade. Preterido na Rússia por Marcelo e Filipe Luís, o lateral-esquerdo da Juventus não esteve nos últimos amistosos, contra Gana e Tunísia, por conta de uma lesão muscular.
“A lista só sai em novembro”, brinca Fernanda no vídeo. A confirmação de que os três jogadores citados estarão mesmo no Catar só sairá somente nesta segunda-feira, dia 7 de novembro. Neste ano, serão 26 vagas para os jogadores brasileiros no Mundial.
O álbum de Rolante
A exemplo do álbum da Copa, neste ano a Escola Desportiva Rolante Sports, time da cidade de Rolante, no Vale do Paranhana, lançou o próprio álbum de figurinhas com a foto dos atletas locais, de 6 até 20 anos. O álbum é composto por 316 figurinhas, com os atletas de todas as categorias: do Sub 7 ao Sub 20, das modalidades vôlei, campo e futsal. O colecionável também possui figurinhas, dos professores, do mascote e a figurinha da equipe campeã gaúcha de futsal na Categoria Sub 15, que conquistou o título em Carlos Barbosa, em 2021.
Os pacotes contêm cinco figurinhas e são comercializados ao valor de R$ 2,50. Os primeiros a completarem o álbum ganham premiação. A ideia está tendo excelente repercussão na região. A iniciativa, de acordo com a prefeitura, vai servir como uma recordação para os atletas e, principalmente, para as famílias.
História das figurinhas
Álbum de figurinhas da Copa de 1970. Foto: Reprodução / CP
A febre da coleção de figurinhas começou com a indústria dos cigarros, nos Estados Unidos, durante o final do século 19. A empresa American Tobacco passou a incluir pequenos cartões ilustrados com fotografias nos maços das marcas que comercializava. Os personagens e os temas dos cigarette cards eram diversos e expressavam a cultura de massa de seu tempo. A mania se estendeu a outros países, como a Alemanha que, inclusive, estimulou o aparecimento de coleções de figurinhas de cigarros com temas voltados ao nazismo.
O primeiro álbum lançado no Brasil data de 1900. Ele foi publicado pela tabacaria Estrela de Nazareth, sendo composto por 60 cromos sobre as bandeiras dos países – era chamado de “60 Bandeirinhas”. O primeiro álbum de figurinhas da Copa do Mundo foi desenvolvido em 1950 pela Fábrica de Balas A Americana, sobre a Copa do Mundo daquele ano, que foi sediada no Brasil. O álbum trazia as seleções que participaram do Mundial e existiam figurinhas fabricadas em menor quantidade e, portanto, mais difíceis. As figurinhas vinham como brinde das “Balas Futebol”, que foi vendida pela empresa entre 1938 e 1960. No entanto, diversos consumidores compravam as balas apenas pelas figurinhas, descartando os doces.
Os irmãos italianos Giuseppe e Bruno Panini fundaram a empresa homônima na cidade de Modena, em 1958. Os dois já gerenciavam uma banca e uma agência de distribuição de jornais, então, decidiram produzir figurinhas dos jogadores de futebol da primeira divisão do Campeonato Italiano. Na década de 1970, as figurinhas ganharam o autoadesivo, facilitando sua colocação dentro dos álbuns (foto). E foram introduzidas figurinhas dos treinadores, fotos de grupo dos times, panorâmicas dos estádios e até uma seção dedicada aos juízes de futebol.
Espaços exclusivos
Além das bancas de revistas, vários shopping centers criaram espaços para unir famílias e amigos, pessoas de todas as idades. No Shopping Total, em Porto Alegre, o local de troca de figurinhas tem 60 metros quadrados e capacidade para reunir mais de 30 pessoas em mesas. Conforme Delamor Dávila Filho, proprietário de uma livraria no shopping, a loja criou 4 kits para colecionadores: há peças com capa dura, dourada, numerados e latinhas especiais para guardar os “tesouros”. “O público que compra e troca figurinhas cresceu e mudou muito, antigamente era mais infantil e juvenil, mas hoje há pessoas de todas as idades”, diz. Outros conglomerados terão espaços similares até dezembro, como o BarraShoppingSul e a rede Bourbon Shopping (Wallig, Country, Assis Brasil e Ipiranga).