Especial

11 de setembro de 2001: data também marca 25 anos do novo terminal do aeroporto Salgado Filho

Começo do período de testes do principal terminal de passageiros do RS coincidiu com os atentados terroristas que mudaram o mundo no início do milênio

Terminal 1 do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, já passou por ampliações e reformas depois de inaugurado em 2001
Terminal 1 do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, já passou por ampliações e reformas depois de inaugurado em 2001 Foto : Mauro Schaefer

A manhã do dia 11 de setembro de 2001 se tornou um dos marcos da história contemporânea, com reflexos diretos na segurança pública, na forma como os governos lidam com política externa e terrerorismo e, principalmente, na aviação civil. Para os gaúchos, a data não marca apenas o início de medidas que redefiniram a segurança aeroportuária, mas o início da operação da principal estrutura que conecta o Rio Grande do Sul com o resto do Brasil e com o mundo.

Há exatos 25 anos, o Aeroporto Internacional Salgado Filho começava o período de testes do novo terminal de passageiros, o atual Terminal 1, na avenida Severo Dullius, na zona Norte de Porto Alegre. Neste dia, a companhia Viação Aérea Rio-Grandense (Varig) e suas subsidiárias regionais passaram a operar no novo terminal. O primeiro voo que partiu dali foi da Rio Sul, que pertencia à Varig, com destino a Santo Ângelo, no interior do RS.

Uma das principais novidades do terminal 1 era a instalação de pontes de embarque, os chamados fingers, que conectam o prédio até o avião. Curiosamente, entretanto, eles não foram utilizados no primeiro voo do novo terminal. Os passageiros do voo da Rio Sul foram conduzidos de ônibus até a aeronave, no pátio do aeroporto. No primeiro dia de operação em fase de testes, cerca de 65% dos embarques e desembarques foram realizados já no novo terminal.

O período de testes iniciado naquele dia seguiu por pouco mais de um mês, com a migração gradual das demais companhias áreas para o novo espaço, que foi inaugurado oficialmente no dia 19 de outubro de 2001, com a presença do então presidente Fernando Henrique Cardoso. O principal aeroporto gaúcho era administrado, na época, pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero).

O investimento total para o novo terminal do Salgado Filho foi, na época, de cerca de R$ 160 milhões, sendo 75% custeado pela Infraero, que construiu o prédio, outros 20% pelo governo do Estado, que construiu o viaduto sobre a BR 116, e os 5% restantes pela prefeitura de Porto Alegre, que realizou as obras para acesso ao aeroporto.

Quando inaugurado, o Terminal 1 do Aeroporto Salgado Filho era considerado um dos mais modernos do país, com capacidade de atender até 4 milhões de passageiros por ano, além de operar até 28 aeronaves de grande porte de forma simultânea. Além disso, o terminal disponibilizava serviços considerados inéditos no Brasil, como o check-in integrado e o Aeroshopping, com lojas, prestadoras de serviço, cinemas e praça de alimentação com funcionamento 24 horas por dia.

Outra coincidência envolvendo a data e o RS é o lançamento do site oficial do Grêmio, também em 11 de setembro de 2001. A página substituiu outro endereço virtual do clube que havia sido retirado da internet após o fim da parceria com a ISL. O endereço lançado naquela noite em Porto Alegre, o gremio.net, é o mesmo utilizado pelo clube até hoje.

Ampliação e reforma pós-cheia

Em 2017, a administração do complexo aeroportuário foi concedida para a Fraport Brasil. Desde então, o Terminal 1 tem passado por ampliações e até reconstruções, como o ocorrido após a enchente que atingiu o RS em 2024. Na ocasião, o funcionamento de todo o complexo foi afetado, tendo em vista que a pista e demais estruturas ficaram embaixo d’água.

A empresa afirma que, desde que assumiu a concessão, o investimento feito no Aeroporto Internacional Salgado Filho foi de cerca de R$ 2 bilhões. “O terminal passou por uma série de investimentos em infraestrutura, tecnologia e sistemas operacionais, com foco na eficiência, na segurança da aviação civil e na melhoria da experiência dos passageiros”, apontou a Fraport Brasil, em nota.

No terminal de passageiros, as pontes de embarque - fingers - subiram de 8 para 14, e os portões de embarque passaram de 14 para 24. Também foram criadas áreas de check-in doméstico e internacional separadas, novos canais de inspeção, salas de embarque e áreas de desembarque doméstico e internacional, entre outras melhorias.

Além do terminal, outras áreas do complexo receberam investimentos. A pista de pousos e decolagens também foi ampliada, passando de 2.280 metros para 3.200 metros de extensão total. A segurança aeroportuária, um dos principais temas de discussão após o 11 de setembro de 2001, também foi intensificada no Salgado Filho, de acordo com a concessionária.

“Os investimentos contemplam desde a capacitação e o treinamento das equipes até a aquisição e implementação de equipamentos e tecnologias de alta performance, contribuindo para o fortalecimento dos procedimentos de segurança e para a eficiência das operações”, salientou a Fraport Brasil.

Novo terminal do Aeroporto Internacional Salgado Filho iniciou período de testes na manhã do dia 11 de setembro de 2001 | Foto: Mauro Schaefer

Estados Unidos sob ataque

“Terror ataca. Os Estados Unidos sofrem o pior atentado terrorista da história. World Trade Center, maior símbolo do capitalismo, não mais existe. Pentágono, sede do poderio militar norte-americano, é atingido. Numa espantosa ação coordenada e tendo como armas grandes jatos comerciais sequestrados, terroristas lançaram ontem um devastador ataque contra os EUA”. A capa do Correio do Povo do dia 12 de setembro de 2001 resumia, direto ao ponto, aquelas cenas que chocaram o mundo no dia anterior.

Após tomarem o controle de quatro aviões comerciais, os terroristas da Al-Qaeda mudaram as rotas dos voos para atingirem alvos civis e governamentais, como as duas torres do World Trade Center, em Nova Iorque, e o Pentágono, em Washington. Uma das aeronaves ainda caiu em uma área rural depois que os passageiros reagiram ao ataque dos sequestradores.

Ao todo, o governo estadunidense contabilizou 2.996 mortes, incluindo os 19 terroristas. Entre vítimas fatais diretas dos atentados estão 2.606 em Nova Iorque, 125 no Pentágono e 246 nos quatro aviões sequestrados utilizados para os ataques. Oficialmente, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil contabilizou a morte de três brasileiros nos atentados, todos nos ataques aos prédios do World Trade Center.

O economista e ex-dirigente do Internacional, Larry Pinto de Faria Júnior, foi um dos sobreviventes do atentado em Nova Iorque. Ele trabalhava no 25º andar da Torre Norte do complexo. Na ocasião, ele concedeu entrevista ao Correio do Povo e relatou ter sentido um barulho muito forte, ainda sem saber o que havia ocorrido. “O prédio todo sacudiu, pensei que iria desabar, mas, quando ele se equilibrou de novo, desci correndo os 25 andares pelas escadas”, contou. Minutos após ter evacuado pelas escadas, o prédio desabou.

Enquanto o mundo assistia os estragos do primeiro atentado, outro avião sequestrado por terroristas atingiou a segunda torre do World Trade Center | Foto: Seth Mcallister / AFP

Mudanças na aviação comercial

Ao utilizarem aviões comerciais de grande porte como “armas” para o atentado terrorista, os sequestradores expuseram ao mundo as principais falhas de segurança aeroportuária, imperceptíveis até então. Pontos de vulnerabilidade no controle de passageiros, como a permissão de embarque com facas pequenas e facilidade de acesso à cabine dos comandantes do voo, encabeçam uma série de mudanças feitas na aviação comercial.

De acordo com o ex-controlador de voo da Aeronáutica e ex-diretor da Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUCRS, Elones Fernando Ribeiro, o atentado causou impactos significativos para a aviação, refletindo inclusive em crises no setor. Isso ocorreu por conta de uma momentânea redução no número de passageiros, além de uma necessidade cada vez maior de investimento em procedimentos de segurança.

“Na época, eu já era professor de Ciências Aeronáuticas e lembro que a repercussão foi muito grande. Muitos alunos também ficaram preocupados pois o mercado dava sinais de que estava saturado. O 11 de setembro foi um golpe na aviação comercial que levou algumas companhias, que já viviam com algumas dificuldades, a encerrarem suas operações”, recordou.

Entre as mudanças na segurança aeroportuária, Ribeiro também destaca os procedimentos adotados dentro dos aeroportos, como a revista dos passageiros por meios eletrônicos, como scanners detectores de metais. Dentro das aeronaves, o atentado também levou a uma mudança drástica na relação do piloto com o restante da tripulação e com os passageiros do voo.

“Antes, a porta da cabine de comando era fechada com um trinco comum. Era comum que pilotos deixassem até a porta aberta durante o voo. Isso mudou. Hoje as portas são de aço e ninguém entra na cabine. As companhias proíbem que passageiros façam visitas ao cockpit durante o voo. Todas essas medidas foram estratégicas para uma mudança de paradigma em relação à segurança de voo”, completou.

Mesmo que indiretamente, o atentado também fomentou, mesmo que de forma indireta, um incremento cada vez maior de tecnologia na operação do voo e nas dinâmicas de controle do espaço aéreo. Ribeiro explica que o Brasil, por exemplo, possuía falhas de comunicação no espaço aéreo antes do atentado, algo que foi aprimorado após os ataques, mesmo que eles tenham ocorrido em outro país.

“Hoje, a partir dessa mudança de estrutura nos sistemas via satélite, o tráfego aéreo se estruturou muito. Temos uma cobertura total do território. A aviação teve um boom, um avanço muito grande nessa parte tecnológica. Praticamente toda a aviação é automatizada e não mais analógica. Atualmente, o piloto é gerente de voo. O controlador é um gerenciador de tráfego. Depois do 11 de setembro, a aviação estava lá em baixa. Agora temos uma demanda muito grande de mercado”, considerou.

Manhã de 11 de setembro de 2001

  • 9h46min - O voo 11 da American Airlines, que saiu de Boston com destino à Los Angeles, atinge a Torre Norte do World Trade Center (8h46min horário local de Nova Iorque);
  • 10h03min - Já com transmissão ao vivo por conta do primeiro atentado, o voo 175 da United Airlines, que também saiu de Boston com destino à Los Angeles, atinge a Torre Sul do World Trade Center (9h03min horário local);
  • 10h37min - O voo 77 da American Airlines, que saiu de Washington também com destino à Los Angeles, atinge o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA, nos arredores da capital estadunidense (9h37 local);
  • 10h59min - A Torre Sul do World Trade Center, o então terceiro prédio mais alto do mundo, desaba pouco mais de 1 hora após ser atingida pelo primeiro avião (9h59 local);
  • 11h02min - O voo 93 da American Airlines, que saiu de Nova Iorque com destino à São Francisco, caiu em uma área rural em Shanksville, na Pensilvânia, após os passageiros reagirem contra os terroristas que haviam tomado o controle do avião, que teria como alvo o Capitólio, a sede do congresso dos EUA;
  • 11h28min - A Torre Norte do World Trade Center, então segundo prédio mais alto do mundo, com dois metros a mais que a Torre Sul, desaba em Nova Iorque, colocando fim a um dos símbolos da cultura e da economia dos EUA (10h28 local).
Capa do Correio do Povo do dia 12 de setembro de 2001, noticiando os fatos que marcaram o dia anterior | Foto: Reprodução

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