Ao longo dos 130 anos de história, o Correio do Povo foi fonte confiável de informação para os gaúchos. O que aconteceu de relevante para o Rio Grande do Sul esteve presente nestas páginas. Guerras, tragédias, façanhas e glórias. Em diversos momentos, o jornal não apenas se limitou a relatar a realidade dos fatos, como foi também parte ativa dos acontecimentos que, de alguma forma, moldaram o que é ser gaúcho hoje. A seguir, algumas das coberturas essenciais para se compreender o presente.
LEGALIDADE
Com alarde e espanto, a edição de 26 de agosto de 1961 estampava a manchete: “Abalado o país com a surpreendente renúncia de Jânio Quadros à presidência da república”. A mensagem do político provocara reações imediatas. Na página 4, o editorial traz um apelo pela ordem constitucional. Isto é, que assuma o vice-presidente da República, João Goulart, como determinava a Constituição.
Outro texto relata “inquietação das Forças Armadas”. A contracapa avisa que “uma emenda constitucional impedindo a posse de Goulart possibilitaria a eleição indireta” e que “Jango seria preso”. Um golpe militar passou a ser gestado imediatamente após a renúncia, enquanto o presidente cumpria agenda oficial na China. Enquanto isso, na capital gaúcha, sindicalistas e estudantes passaram a protestar em frente ao Palácio Piratini e à Assembleia Legislativa e o então governador, Leonel Brizola, publicou nestas páginas uma carta em favor da legalidade constitucional.
As edições seguintes descrevem uma resistência armada liderada pelo Rio Grande do Sul. Por dias seguidos, noticia-se que a opinião pública gaúcha defende a ordem constitucional. Políticos e cidadãos se postaram lado a lado em trincheiras organizadas no Palácio Piratini. Jango volta ao Brasil para encontrar Brizola em Porto Alegre. À meia-noite de 3 de setembro, o presidente comunica a jornalistas que partiria de imediato à capital federal para assumir a presidência, após acordo com o Congresso Nacional.
FUGA EM 1994
Enquanto os brasileiros acompanhavam a Seleção na busca pelo tetra, Porto Alegre era palco de uma fuga cinematográfica frustrada. “Nove presos armados com pistolas calibre 380 e revólveres 38 iniciaram um motim, às 15h03min de ontem, no Hospital Penitenciário do Presídio Central e tomaram reféns 25 funcionários”, relatava a capa de 8 de julho de 1994. A edição do dia seguinte conta melhor a fuga dos amotinados, incluindo um tiroteio com mortes no bairro Petrópolis e o roubo de um táxi Passat, que serviu como veículo para invadir o hall do hotel Plaza São Rafael, uma cena impensável. Aquela publicação histórica, cujo fechamento ocorreu perto da 1h30min da madrugada, não pôde contar o desfecho que ocorreria apenas na edição de 10 de julho, com um dos principais líderes dos criminosos, Dilonei Melara, de volta à prisão.
O caso reverberaria nas edições dos dias seguintes e ficaria para sempre na história do Estado. A partir do motim, o Presídio Central foi assumido pela Brigada Militar. A nova gestão dividiu a cadeia em galerias, cada uma sendo comandada por diferentes facções.
Ao defender medidas sanitárias, a censura
“Estamos acostumados a essas verrinas, nós e o público, e nem por isso deixaremos de cumprir a nossa missão de jornalistas do povo. Custe o que custar, sejam quais forem os ataques, nesta hora dolorosa para toda a família rio-grandense, o Correio do Povo saberá colocar-se acima de todas essas politiquices, diante da epidemia reinante, para continuar a exigir, em nome dos habitantes desta cidade, os cuidados e socorros a que eles têm direito, como seres humanos e como contribuintes.” Nestas linhas de 26 de outubro de 1918, o CP levantava-se contra o poder vigente para defender os leitores da capital do Estado.
Aquele ano mudaria a ciência da saúde para sempre. Enquanto a I Guerra persistia, mas encaminhava-se para o fim, milhares morriam na Europa também pela Gripe Espanhola. Em 10 de outubro de 1918, a “influenza hespanhola” é estampada na capa do jornal pela primeira vez. Na ocasião, demonstrava-se preocupação com um navio que desembarcara no dia anterior em Rio Grande e que tinha Porto Alegre como destino, com 30 tripulantes infectados pela doença. A data pode ser considerada o marco inaugural da epidemia no Rio Grande do Sul.
Conforme a epidemia escalava, o Correio do Povo passou a exigir medidas sanitárias do poder público. As fortes críticas estampadas na capa diariamente não agradaram o governo do então presidente do Estado, Borges de Medeiros. “É verdadeiramente doloroso para o espírito da humanidade e para a cultura da população de Porto Alegre, que reúne todas as suas energias morais e todos os recursos de que dispõe para se defender, nesta hora amarga de desolação, de tristeza e de ameaças diante de uma epidemia que a flagela, que o governo do Estado se compraza em vir, pelas colunas do órgão oficial, decompor jornalistas e provocar discussões irritantes e inúteis”, escreve o CP em 1° de novembro.
Em 2 de novembro, o governo gaúcho impôs censura prévia contra o Correio do Povo. A partir desta data, durante um mês e meio, as colunas dedicadas à cobertura da epidemia são publicadas parcialmente em branco. O jornal faz o que pode. Amordaçado, incapaz de criticar o poder público, passa a fazer recomendações à população: “Evite aglomerações; Não fazer visitas; Tomar cuidados higiênicos”, entre outros.
A epidemia passou a arrefecer em dezembro e, somente no dia 15, foi abolida a censura contra o Correio do Povo.
Presente nos momentos mais doloridos do Estado
DESESPERO. Assim mesmo, em letras maiúsculas. Uma palavra, uma foto das chamas e linha curta: “231 mortes e mais de cem feridos em boate em Santa Maria”. Desta forma era noticiada, em 28 de janeiro de 2013, uma das maiores tragédia da história do Rio Grande do Sul, que acabou por vitimar 242 jovens. “Horror e desolação” foi o título da reportagem principal que descreveu o impacto do incêndio da Boate Kiss na população de Santa Maria, que comoveu o país inteiro.
Dentre as vítimas, houve destaque para os gêmeos que comemoravam juntos o aniversário de 19 anos. De imediato, investigava-se o início do incêndio, que já naquele momento demonstrava ter começado “logo após o acionamento de um dispositivo pirotécnico durante show da banda Gurizada Fandangueira”. Relatou-se ainda a dor no velório coletivo de parte das vítimas. Uma cobertura sempre dura de ser feita, mas sempre necessária.
O mês de setembro já abre com uma resolução. “Espuma foi causa das mortes em Santa Maria” era a manchete da edição do dia 1° daquele mês. A rápida conclusão de que o sistema de isolamento acústico no teto da boate liberou uma fumaça tóxica ao entrar em combustão destoa do posterior julgamento dos culpados, que o Correio do Povo cobre por mais de década. Houve inclusive recente decisão, em agosto de 2025, para redução das penas dos condenados.
A TRAGÉDIA DE 2007
“Avião sai de Porto Alegre e explode com 176 a bordo”. A manchete de 18 de julho de 2007 ecoaria por anos no imaginário gaúcho. O fato em si ocorreu em solo paulista, mas por levar dezenas de passageiros do Rio Grande do Sul teve repercussões imediatas por aqui. O acidente do voo JJ 3054 em um Airbus A-320 da TAM provocou choque, desespero e dúvidas. Até 1h30min da madrugada, apenas 40 vítimas haviam sido confirmadas, devido ao calor das chamas provocadas pela explosão da aeronave após o choque com um depósito de cargas.
Em meio às incertezas, houve grande tensão dos familiares dos passageiros no Aeroporto Salgados Filho. “Desespero, choro, gritos, tentativas de agressão e ausência total de informações marcaram o ambiente do terminal”, relata reportagem. A relação oficial do voo foi publicada no jornal.
A capa do dia seguinte enunciava uma “tragédia sem explicação”, com “poucas pistas para esclarecer o que aconteceu no pouso do voo que acabou deixando mais de 200 vítimas”. Àquela altura, o número total de mortos permanecia uma incógnita. As páginas desta edição e das seguintes dedicaram-se à tentativa de elucidar os fatos, à difícil busca pelo reconhecimento dos corpos, à procura de causas e culpados e, principalmente, para homenagear os que repentinamente partiram.
O jornal publicou uma descrição de cada uma das vítimas identificadas pelo Instituto Médico Legal. Relembrou os últimos discursos do então deputado federal Júlio Redecker, a luta pelo pagamento de precatórios de tricoteiras aposentadas, a dor com a perda do presidente do Sintergs, o luto pela morte de dois professores da PUCRS, o choro de colegas de duas meninas da escola São José, de São Leopoldo, o abalo na comunidade caxiense, pelotense, santa-mariense e de Ijuí. Paulo Rogério Amoretty, ex-presidente do Inter, também estava presente no avião.
As atualizações sobre número final de vítimas e o reconhecimento destas, assim como o luto de suas famílias e comunidades, seguiu por dias. Conforme passava o tempo, aumentava a indignação, com protestos em Porto Alegre. O acidente também provocou um caos aéreo, com o fechamento temporário do aeroporto de Congonhas, e um pacote de medidas para o setor.