Quando entramos na dimensão da comemoração de 130 anos do Correio do Povo, que se dará em 1º de outubro de 2025, podemos dizer que o periódico desde o seu rebento inicial em 1895 nascia com uma vocação para a literatura em suas páginas.
Na edição nº 1, de 1º de outubro, o rodapé da quarta página continha a publicação do primeiro folhetim “Os Farrapos”, de Oliveira Bello, que alcançou o ano de 1896, com mais de 100 capítulos. O texto foi extraído de um livro publicado em 1877, pela editora Reforma, do Rio de Janeiro.
O primeiro capítulo era “O Monarca da Coxilha”, que continha dizeres sobre a contenda Farroupilha, tais como “o gaúcho é soberano, assim como o condor, nas regiões da campanha”. Naquelas duas primeiras décadas, o jornal ainda possuía seções menores para poesias e textos curtos, como Garatujas, Rabiscos, Cangiquinha, Filigranas, que eram ocupadas por nomes de destaque como Paulino Azurenha, Mario Totta, Mucio Teixeira, Souza Lobo, Raymundo Correia, Ribeiro Tacques, Marcello Gama, Achyles Porto Alegre, Zeferino Brasil, Mansueto Bernardi, entre outros.
Os folhetins eram presença constante e normalmente lançados no primeiro dia de outubro de cada ano, com romances de Henrique Sienkiewicz, M. du Camperanc e Xavier de Montepiz.
Nos anos 1910, houve a sessão Bibliographia e nos anos 20, a Livros e Autores imperou, bem como a 2ª Secção que aflorou nos anos 1930 e teve na edição de 1º de outubro de 1935 a sua mais robusta publicação com 24 páginas para o centenário da data Farroupilha, com textos de Zeferino Brasil, Augusto Frederico Schmidt, Pedro Wayne, Herrera Filho e outros.
Antes disso, em 1929, havia sido publicado o primeiro conto de Erico Verissimo, ainda um jovem de Cruz Alta que enviava seus textos pelos Correios para o jornal e foi acolhido por De Sousa Júnior. Assim, “Lâmpada Mágica” seria o primeiro conto de Erico no CP. Detalhe é que os editores assinavam o seu nome como Erico Virissimo nas primeiras publicações, fato que foi corrigido quando ele começou a ser um escritor reconhecido.
Erico conta em texto de 1975 para os 80 anos do CP, que era um sonho dele publicar no mesmo jornal que acolhia textos de Reynaldo Moura, Augusto Meyer, Theo Tostes e De Sousa Júnior. “E se hoje decidi rabiscar este artigo, interrompendo o livro que estou escrevendo é porque como o Correio do Povo completou oitenta anos de idade e eu estou já na reta final para os setenta (Que remédio, se o preço de continuar vivo é envelhecer?) achei que estando ambos já na idade chamada provecta, talvez fosse esta uma boa oportunidade para, através de algumas reminiscências, dizer de público o quanto esse jornal me ajudou na minha carreira literária”.
Assim como Erico, todas as gerações de escritores gaúchos do Século XX tiveram guarida na publicação. Nos anos 1950, Carlos Reverbel passou a comandar o Suplemento Literário que era semanal e durou até a segunda metade dos anos 60. Nestas páginas, Mario Quintana começou o seu Caderno H em 1953 e publicaram textos nomes como Otto Maria Carpeaux, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Jorge Appel, Paulo Rónai, Flávio Loureiro Chaves, entre outros.
Em 30 de setembro de 1967, P. F. Gastal e Oswaldo Goidanich fundaram o Caderno de Sábado que teve quase 700 edições até 1981 e retornou em 2014, seguindo até os dias de hoje.
Por este suplemento passaram Sergio Faraco, Guilhermino César, Cyro Martins, Moysés Vellinho, Clarice Lispector, Armindo Trevisan, Jefferson Barros, Tarso Genro, Antonio Hohlfeldt e mais recentemente Edgar Morin, Michel Maffesoli, Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant’Anna, Jeferson Tenório e tantos outros autores.