“Líderes do Governo negam que ministro da Justiça queria censurar a Imprensa”. Esta matéria impressa na página 8 fez a censura da ditadura militar confiscar a edição de 20 de setembro de 1972 do Correio do Povo.
No auge dos Anos de Chumbo, enquanto vigorava o Ato Institucional n° 5 (AI-5), o CP publicaria uma reportagem sobre um telegrama enviado por Ruy Mesquita, então diretor dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, ao então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid. A edição nunca chegou a ir às bancas.
Na carta, Mesquita descreve-se “cheio de vergonha” e “humilhado”. “O senhor, sr. ministro, deixará de sê-lo um dia. Todos os que estão hoje no poder, dele baixarão um dia e, então, sr. ministro, como aconteceu na Alemanha, na Itália ou na Rússia, o Brasil ficará sabendo a verdadeira história deste período, em que abandonaram os rumos traçados pelo seu maior líder, marechal Castelo Branco, para enveredar pelos rumos de um caudilhismo militar que já está fora de moda, inclusive nas repúblicas hispano-americanas”, criticava o ofício.
As duras palavras não chegaram a encontrar os olhos dos leitores. Em uma ação coordenada pela “polícia política”, como era conhecida a Polícia Federal, os soldados do Exército confiscaram e destruíram quase todas as cópias daquela edição. Quase.
A coragem, ousadia e senso de justiça de Francisca Espinosa, a Dona Chica, responsável pelo setor de Arquivo do CP, salvaram alguns exemplares que atualmente estão preservados no acervo histórico do jornal.
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Justamente em um 20 de setembro, o dia raiou no Rio Grande do Sul sem o CP nas bancas. Os leitores não puderam ler sobre os acordos de abertura econômica entre Brasil e França, manchete daquela edição, tampouco sobre a dona de bordel que “negociava com tóxicos e ocultava foragidos”, do vereador que previa a derrota do próprio partido (Arena) nas eleições de Porto Alegre ou da preparação para o Gre-Nal que ocorreria naquele dia.
O confisco da edição n° 294 do ano 77 é o retrato de um Brasil amordaçado. A ditadura militar estabeleceu censura prévia aos jornais brasileiros e impediu que a imprensa exercesse seu importante papel de informar a verdade aos cidadãos. Apesar de não ter sido publicada à época, a edição é uma sobrevivente de tempos obscuros.