Uma língua é um conjunto organizado de elementos (sonoros, gráficos ou gestuais) que possibilitam a comunicação. Os estudiosos do tema a definem como um sistema vivo e dinâmico por conta da capacidade de se modificar ao longo do tempo.
Nestes 129 anos, o Correio do Povo é testemunha das transformações da Língua Portuguesa e da sociedade gaúcha. Mais que isso, é parte ativa das mudanças, uma vez que incorpora novas linguagens conforme os costumes e tecnologias de cada época.
A evolução da imprensa gaúcha se confunde à do CP. O jornal fundado por Caldas Júnior inovou ao implantar um quadro profissional de jornalistas, o que não ocorria em outros periódicos do século 19. Ato contínuo, transformou o jeito de comunicar ao inaugurar a era do jornalismo noticioso e apartidário no Estado.
As primeiras matérias foram escritas pelos redatores à mão. Muito antes das canetas esferográficas, comercializadas a partir de 1945, texto a texto nascia nos bicos de pena de aço inglês, molhados em tinteiros, que arranhavam estreitas laudas de papel. Neste período, a impressão era feita em um prelo marca Alauzet, cheia de engrenagens, rodas dentadas, correias e rolos, movida a querosene.
O crescimento do jornal exigiu que se modernizasse para suprir a demanda por mais páginas. Em 1897, foi comprada uma Marinoni plana, de origem francesa, com capacidade para quatro páginas ao mesmo tempo. Em 1908 veio outra Marinoni plana, para oito páginas de cada vez.
Em 1910, o Correio trouxe a primeira impressora rotativa para o Rio Grande do Sul. A máquina pioneira utilizava bobinas de papel e permitiu um salto na produção e no alcance da publicação. Dezesseis páginas e tiragem de até 20 mil exemplares passaram a ser possíveis diariamente em uma Porto Alegre com aproximadamente 63 mil habitantes.
Revolução da Linguagem
Nas décadas seguintes, ferramentas de comunicação interligaram o mundo e ofereceram mais agilidade às notícias. Máquinas de escrever mecânicas, câmeras fotográficas e outras revoluções proporcionaram salto na qualidade de texto e da informação. Novas identidades gráficas foram assumindo lugar e o emprego de fotos com cada vez mais qualidade resultou em paginações mais leves, com melhor distribuição das matérias.
Em 1925, chegou uma nova Marinoni, capaz de imprimir 25 mil jornais por hora de até 48 páginas. Esta, à época, era a mais moderna rotativa para jornais de longa tiragem e capaz de imprimir até em cores.
Em 1936, a Caldas Júnior, com o jornal Folha da Tarde, traz o formato tabloide para o convívio dos gaúchos, predominante até os dias atuais. Com páginas menores, notícias mais objetivas e mais imagens que os diários tradicionais, caiu no gosto dos leitores. Tendência que seria adotada pelo CP a partir de 1987.
Na década de 1950, foram adquiridas cinco impressoras HOE. Em 1979, mais oito unidades e duas dobradoras.
Já no fim do século 20, a chegada dos computadores, a comunicação via satélite e a Internet abriram caminho a revoluções também no comportamento. Redação e sociedade abriam portas para uma fase ainda mais globalizada.
Em 1995, outro momento de marcante inovação: a impressão do CP foi descentralizada, ocorrendo de forma simultânea em três parques gráficos – em São Sepé, Carazinho e Porto Alegre. Com isso, a capacidade instalada chegou a 200 mil exemplares por hora.
Esta foi a primeira iniciativa do gênero realizada por um jornal brasileiro e, para executá-la com sucesso, foi preciso adquirir um canal via satélite para realizar a transmissão digital das páginas, algo também inédito à época.
Para seguir próximo dos leitores e comunicando com a credibilidade que o norteia desde sua fundação, reinventar o jeito de fazer jornal é preocupação constante do CP. De tal modo, em 1997, o Correio do Povo entrou na internet com o site CP.Net, que replicava todo o conteúdo do impresso para os assinantes.
Em outubro de 2009, já sob o controle do Grupo Record, estreou o novo site do Correio substituindo o antigo e com ele passou a ter a atualização do noticiário em tempo real e a edição digital com acesso livre e gratuito a todos os internautas.
A língua de Camões
A Língua Portuguesa sofreu profundas transformações nos últimos 129 anos. Além de reformas ortográficas e normas escritas, as páginas do Correio do Povo registram a evolução do pensamento coletivo ao longo das últimas décadas.
O poeta gaúcho Mário Quintana (1906 –1994), entre as décadas de 1950 e 1990, assinou no CP o Caderno H. Perspicaz, por diversas vezes observou e registrou em seus textos as mudanças na “Língua de Luís Vaz de Camões”, poeta português considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas ocidentais.
Diz Quintana, em um dos trechos: “Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estilística dos provérbios? Este, por exemplo: ‘Quem cospe para o céu, na cara lhe cai.’ Tal desarranjo sintático faria a antiga análise lógica perder de súbito a razão. Mas que movimento, que vida, que economia de músculos: a gente chega a acompanhar com a cabeça a trajetória da frase! Espero que a análise lógica do meu tempo tenha sido substituída por uma análise psicológica. Ah! Aquela preocupação dos velhos lentes, de nos mandarem pôr os Lusíadas na ordem direta... Vai-se ver, eles inconfessavelmente deviam estar tentando corrigir o Velho Bruxo!”
Intitulada Lógica & Linguagem, a publicação cheia de espírito de Quintana lamenta a ênfase do provérbio popular no narrador (sujeito) e não no fato (narrado), tal como as obras de Camões.
São muitos os registros das mudanças coletivas nas páginas do CP. Hoje é até difícil lembrar de um tempo em que as pessoas fumavam em espaços coletivos como aviões e restaurantes. Ou em que se podia dirigir um carro sem usar cinto de segurança e não temer nem pela vida nem pela multa. As roupas mais formais e os sapatos feitos sob medida deixaram as ruas. Novos caminhos surgiram, outros se foram. Tudo está registrado nas páginas do CP.
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