130 Anos de Jornalismo

Presidentes, tragédias e 8 de janeiro: Correio do Povo é testemunha nos momentos emblemáticos do Brasil

As páginas do Correio do Povo registraram as passagens de todos os presidentes civis do país, de Prudente de Morais até Lula

Por décadas, o jornal acompanhou a trajetória de Getúlio Vargas, desde a Revolução de 1930, passando pelo Estado Novo, até a morte do presidente, em 1954
Por décadas, o jornal acompanhou a trajetória de Getúlio Vargas, desde a Revolução de 1930, passando pelo Estado Novo, até a morte do presidente, em 1954 Foto : CP Memória

Um país em ebulição, tentando encontrar caminhos que dialoguem com a pluralidade da sua gente. Eis a essência da cobertura do dia a dia do noticiário nacional feita pelo Correio do Povo. Mais que registros históricos, cada fato publicado narra um pedaço da biografia desta Nação em busca de sua identidade.

PRESIDENTES

De Prudente de Morais, primeiro presidente civil, a Lula, todos os mandatários do período republicano e seus atos de governo foram acompanhados pelo CP. Eleições indiretas, diretas, posses, renúncias, deposições e turbulências políticas traçam a linha do tempo do poder na maior federação do Hemisfério Sul.

GETÚLIO VARGAS

“Festa e entusiasmo.” Assim o CP reportou a chamada Revolução de 1930. Comandado pelo gaúcho Getúlio Vargas, o movimento depôs o então presidente Washington Luís e impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes. A edição do dia 1° informa bastidores dos rebeldes que viriam a tomar o poder: “A revolução vai realizar a obra da paz nacional que os chefes da política de reação não lograram obter.” Já a edição de 25 de agosto de 1954 marca a triste morte de Getúlio Vargas, um dia antes, no Rio de Janeiro. “Comove o Brasil a morte trágica de Getúlio Vargas”, foi a manchete do jornal.

A NOVA CAPITAL

Os brasileiros acompanhavam a façanha da construção de Brasília, a partir do projeto de Juscelino Kubitschek, eleito em 1956. Em 21 de abril, a nova Capital do Brasil era inaugurada. Na data festiva, o CP destacou na página 16: “Encravada no Coração do país, surge hoje para a história a nova capital do Brasil”.

CHUMBO

Em 25 de agosto de 1961, após apenas sete meses de governo, Jânio Quadros renunciou à Presidência, assumindo o vice, João Goulart, que acabou deposto em 31 de março de 1964. Àquela altura, a primeira edição de abril do CP já estava pronta e estampava a proclamação do senador Moura Andrade: “Por mais grave que seja a situação, o Congresso não sairá de Brasília”.

Exemplares do Correio do Povo foram apreendidos pela ditadura militar, que censurou o veículo | Foto: Assis Hoffman / CP Memória

Na página seguinte, uma matéria afirmava que “generais reuniram-se sigilosamente”. Teve início um período de 21 anos de ditadura militar: “Ato Institucional, editado pelos chefes da revolução já está em vigor no País”, anunciou a capa de 10 de abril de 1964.

100 MIL NA RUA

A Passeata dos 100 Mil contra a ditadura, em 26 de junho de 1968, culminou no período mais violento da repressão militar: em 13 de dezembro de 1968, foi decretado o Ato Institucional número 5 (AI-5). A reportagem de 27 de junho destacou “a massa humana que se concentrava na Cinelândia” e que “cerca de 100 mil pessoas ouviram atentamente todos os oradores”, em ato sem violência.

CHAMAS & TRAGÉDIA

O incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, também marcou a cobertura jornalística do século 20. Em 1° de fevereiro de 1974, um curto-circuito em um sistema de ar-condicionado no 12° andar do prédio resultou na morte de 187 pessoas e deixou mais de 300 feridos. “Tragédia do Joelma abala o país”, trouxe a reportagem do dia 2 de fevereiro.

Testemunha nos momentos emblemáticos

Desde o processo de redemocratização do país até os dois impeachment de presidentes da República, passando por desafios como a Covid-19, o Correio do Povo testemunhou o Brasil mudar ao longo de 130 anos.

DIRETAS JÁ

Um dos maiores e mais simbólicos atos contra a ditadura ocorreu em 23 de janeiro de 1984 – o Comício das Diretas em São Paulo reuniu 1,5 milhão de pessoas. “Campanha por diretas consagrada pelo povo” – diz trecho da edição que ainda repercutia a fala do governador de SP, Franco Montoro.

A NOVA CONSTITUIÇÃO

A promulgação da Constituição Federal de 1988 foi vista como o renascimento da democracia. Na data da sua promulgação, em 5 de outubro de 1988, o Correio do Povo celebrou: “Constituição da esperança”, projetando tempos de paz e unidade. Trinta e cinco anos depois, em 2023, o jornal publicou um material especial analisando, sob o ponto de vista de diferentes áreas, o quanto o texto que tanto havia sido comemorado décadas antes de fato trouxe mudanças para a população.

A VOLTA DO VOTO

A primeira eleição presidencial direta após o golpe militar foi realizada em 1989. “Collor vence a eleição”, estampou a capa de 18 de dezembro daquele ano. O presidente, no entanto, não terminou o seu mandato. Renunciou em 29 de dezembro de 1992, em meio a um processo de impeachment. Em seu lugar, assumiu Itamar Franco.

A NOVA MOEDA

Em 1° de julho de 1994, o Correio do Povo noticiou a mudança de moeda como “A moeda é real”. O trocadilho veio acompanhado da linha de apoio: “País abandona sem surpresas o desacreditado cruzeiro real”. Depois de inúmeras trocas em pouco tempo, o real de fato se estabeleceu e até hoje é a moeda corrente no país.

MARIANA E BRUMADINHO

Em 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, na cidade mineira de Mariana, provocou um gigantesco deslizamento de lama com resíduos tóxicos. Morreram 19 pessoas. Poucos anos depois, em 26 de janeiro de 2019, a barragem da Vale em Brumadinho rompeu, causando 272 mortes e reflexos ambientais sentidos até os dias atuais. “Cenas que se repetem”, foi a manchete de lamento, no dia 27 de janeiro.

IMPEACHMENT - PARTE II

Em 31 de agosto de 2016, o Senado aprovou o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Quase dois anos após ser reeleita com 54,5 milhões de votos, ela se tornou a segunda presidente do Brasil a sofrer impeachment. Em seu lugar, assumiu o vice-presidente Michel Temer, à época já ligado a movimentos de oposição. A manchete destacou: “Dilma Cassada, Temer Presidente”, em 1° de setembro.

CHAPECOENSE

Na madrugada de 29 de novembro de 2016, o avião da empresa LaMia levava a delegação da Chapecoense para a Colômbia, onde o clube disputaria a final da Copa Sul-Americana. No entanto, a aeronave caiu, matando 71 pessoas, entre jogadores, funcionários do clube, jornalistas e tripulação. Foram apenas seis sobreviventes. “#ForçaChape” e o escudo do clube refletiram na capa especial de 30 de novembro a comoção e a corrente de solidariedade que uniu o mundo.

PANDEMIA

Em 26 de fevereiro de 2020, foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 no país e, em 12 de março, a primeira morte. “Está surgindo um período de esperança depois de 9 meses de pandemia e milhões de infectados mundo afora”, trazia o texto de apoio da manchete de 20 de dezembro de 2020.

A pandemia de Covid-19 mudou a história do país e do mundo | Foto: Fabiano do Amaral / CP Memória

A pandemia estava longe de acabar, consolidando-se como o maior trauma de toda uma geração. Somente no Brasil, foram mais de 700 mil óbitos. A primeira vacina, aplicada no país somente em 17 de janeiro de 2021, foi registrada com pompa na capa do dia seguinte pelo jornal, fato que se repetiria poucos dias depois, quando as primeiras pessoas foram imunizadas no Estado.

DEMOCRACIA SOB ATAQUE

Em 8 de janeiro de 2023, milhares de manifestantes descontentes com o resultado das eleições presidenciais invadiram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, vandalizando prédios, salas, obras de arte. O fato, tratado pelo Correio do Povo como “atentado”, e suas consequências receberam ampla cobertura desde então.