A história ecoa através do tempo. O Correio do Povo surge na Rua dos Andradas da capital de um Rio Grande do Sul ainda em polvorosa pelos resquícios da Revolução Federalista, iniciada em 1893 e encerrada no ano de fundação do periódico, em 1895. Mais do que isso: O CP é um fruto, uma consequência de sua época. Do contrário do jornalismo praticado até então – partidário, que tinha ‘lado’ e se propunha a defender visões – o Correio surge visando informar, objetiva e imparcialmente, os fatos que no futuro se tornariam história.
No final do século XIX, o Estado acabava de passar por um dos episódios mais sangrentos de sua história. A Revolução Federalista foi uma revolta organizada por um grupo descontente com o sistema presidencialista, que queria a formação de um governo parlamentarista, com mais autonomia dos Estados Nacionais.
Este foi um dos conflitos mais violentos ocorridos no sul do país. A guerra ficou conhecida pelo ato da degola, que era utilizado por ambos os lados, em que se cortava a garganta dos prisioneiros de guerra com o objetivo de vingar-se e de aterrorizar o inimigo. Estima-se que cerca de mil homens, dos dez mil mortos do conflito, morreram dessa forma.
É neste contexto que é fundado o Correio do Povo. Durante seu primeiro mês de existência, este jornal deu ampla cobertura ao projeto que tramitava no Congresso Nacional para conceder anistia aos que participaram de revoltas até o final do século. As idas e vindas do texto entre Câmara dos Deputados e Senado Federal foram diariamente documentadas através do “Serviço Telegráfico” do CP até sua aprovação. A edição de 22 de outubro de 1895 noticiou: “Rio, 21. Acaba de ser sancionado pelo dr. Prudente de Moraes (presidente da República à época) o decreto de amnistia.”
Até este momento, o CP empenhava uma campanha pela paz. “A anistia ampla, vinda do Senado, e que devia ser a bandeira misericordiosa cobrindo os comprometidos nas dissensões recém acalmadas, foi rejeitada pela Câmara dos Deputados, e, em seu lugar, proposta a anistia restrita, que não pode servir senão de causa promotora de constantes atritos”, escrevera em 3 de outubro de 1895, durante o vaivém no Congresso.
Após o decreto, desarmaram-se as forças nacionais e os rebeldes ainda restantes. “O general Galvão publicou, a propósito da sanção do projeto de anistia, uma ordem do dia em que termina dando parabéns ao exército pela definitiva consumação da paz”, noticiou em 23 de outubro.
O Decreto nº 310, de 21 de outubro de 1895, “anistia todas as pessoas que direta ou indiretamente se tenham envolvido nos movimentos revolucionários ocorridos no território da República até 23 de agosto do corrente ano”. Este foi o caminho para a paz, ao menos por ora. A Revolução Federalista faz parte de uma tríade, iniciada com a Revolução Farroupilha (1835-1845) e finalizada na Revolução de 1923.
Rio Grande festeja Vargas
Festa e entusiasmo. Assim foi noticiada a Revolução de 1930, que depôs o então presidente Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e levou ao poder o gaúcho Getúlio Vargas, que governava o RS. Assim, pôs-se fim à República Velha para começar a Era Vargas no país.
Os primeiros exemplares do CP de outubro de 1930 exibiam o país em uma situação financeira complicada, ainda lutando contra os efeitos do crash da bolsa de Nova York, em 1929, que abalou a economia mundial. A edição do dia 1º informa bastidores dos rebeldes que viriam a tomar o poder: “REUNIÃO DE REVOLUCIONÁRIOS: Com grande insistência circulou ontem, a notícia de que a polícia havia, num subúrbio longínquo, apanhado em reunião vários revolucionários, entre os quais dois oficiais do Exército (...). Chegou mesmo a circular o boato da prisão de um oficial superior, porém, a polícia afirmou cabalmente ser tudo completamente inverídico.”
Às vésperas da revolução, eram publicadas palavras de Vargas “sobre a finalidade da Revolução Nacional”: “A revolução vai realizar a obra da paz nacional que os chefes da política de reação não lograram obter.”
Em 25 de outubro de 1930, dia seguinte à deposição de Washington Luís, era a manchete do Correio: “Pátria! Pátria! Desde ontem estás redimida a tirania que te humilhava!”. Na linha de apoio, “Acelerou a hora redentora, o movimento militar que às primeiras horas de ontem explodiu na capital da República e de que resultou a queda do governo do sr. Washington Luís”. Ainda na capa do jornal, um detalhamento das forças que tomaram o poder. Na parte interna, destacava-se a repercussão dos fatos na “Assembléa dos Representantes”, a atual Assembleia Legislativa do RS. Na capital gaúcha, celebração: “Porto Alegre, sob o delírio da impressionante vitória da causa nacional”, estampava o título da página 6.
A edição de 26 de outubro estampava um grande retrato desenhado de Vargas envolto com a bandeira do Brasil. Acima, a frase: “O ELEITO DO POVO”. A manchete sentenciou: “A pátria redimida está vibrando de entusiasmo em todos os seus mais longínquos recantos”.
As páginas internas deste exemplar e dos seguintes eram dedicados ao escrutinamento de como se deu a revolução, a destaques da participação de batalhões gaúchos nas batalhas e às festas da vitória, com títulos como “O Brasil em peso continua a manifestar a sua solidariedade ao movimento redentor da Pátria” e “O Rio Grande inteiro delira pela implantação da Nova República no Brasil”.
Da celebração ao choro
Quase 25 anos depois, as páginas deste centenário periódico exibiam um cenário diferente. Os dias que antecederam o suícidio de Getúlio Vargas eram de efervescência nacional. A edição de 22 de agosto de 1954, dois dias antes da morte do presidente, estampavam-se manchetes como “Declara o ministro da Aeronáutica: Os políticos têm meios legais para impelir o presidente da deixar o poder”; “Manifesta-se o governador de Pernambuco pela renúncia espontânea de Vargas”; “As forças armadas não poderão agir como órgão deliberante em assuntos que escapam à sua alçada”; e “Discurso do Sr. Raul Pilla: Saiba a Camara cumpriu seu dever, declarando o Sr. Getúlio Vargas suspenso de suas funções”.
Em que pese “A Folha da Tarde”, jornal vespertino que pertencia ao grupo Caldas Júnior, tenha feito ampla cobertura da morte de Vargas no dia do acontecimento, publicou-se em 25 de agosto de 1954 no Correio: “Comove o Brasil a Morte Trágica de Getúlio Vargas”. A repercussão em Porto Alegre foi grande. A sede da União Democrática Nacional (UDN), partido de oposição a Vargas, fora queimada e os registros fotográficos cobriram uma página inteira do Correio: “Desolador o aspecto da cidade”. As edições posteriores se dedicaram a lamentar a partida do presidente.
O regime militar
O golpe militar foi levado a cabo durante a madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964. Àquela altura, a primeira edição de abril do Correio já estava pronta e estampava a proclamação do senador Moura Andrade: “Por mais grave que seja a situação, o Congresso não sairá de Brasília”. Abaixo na capa, um compilado dos jornais do centro do país era intitulado como “O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual. Agora, basta!”. Ao lado, texto de Arlindo Pasqualini denunciava “a campanha desencadeada contra a Constituição”. Na página seguinte, matéria afirma que “generais reuniram-se sigilosamente”. Na contracapa, o começo do golpe: “Inicia-se em Minas Gerais rebelião militar contra o governo federal”.
O dia 2 de abril já amanhecia com as páginas do Correio declarando que o então presidente João Goulart abandonara Brasília “enquanto se anuncia vitória do movimento rebelde”. O Rio Grande do Sul resistia, como demonstra a página 16: “Governo do Estado transfere sua sede para Passo Fundo, onde organiza resistência”.
A bravura gaúcha não surtiu efeitos. A ditadura militar acabou por vigorar durante 21 anos no país. Seu fim, lento e gradual, ocorreu em 1985 com apoio massivo dos brasileiros pela realização de eleições durante a campanha “Diretas Já”. O país pôde virar a página três anos mais tarde, com a promulgação da atual Constituição Federal em 5 de outubro de 1988. Neste dia, a edição do CP mancheteava em letras garrafais: “Constituição da esperança”. Nascia, assim, a jovem democracia brasileira, que, assim como os gaúchos de 1964, hoje resiste.