130 Anos de Jornalismo

Um jornal com 130 anos em estado de arte

Correio do Povo teve cobertura contínua das artes visuais, mais aprofundada a partir dos anos 1920 com ‘Notas de Arte’

1º Salão de Outono
1º Salão de Outono Foto : CP Memória

Por Carolina Santos e Luiz Gonzaga Lopes

Houve uma época em que o Correio do Povo era no formato standard nas páginas rosas os conteúdos se amontoavam em um estilo editorial bem diferente do atual. Na década de 1920, quando o assunto era cultura, as seções “Theatro e Artistas” e “Notas de Arte” informaram aos leitores o que havia de atrações culturais em Porto Alegre: balé, teatro, ópera e concertos eram os favoritos dos redatores.

Logo, o 1º Salão de Outono chama a atenção por ganhar grande destaque nas edições de 1925. O evento contou com mais de 300 trabalhos, de 68 artistas gaúchos, dispostos no Salão Nobre da Intendência Municipal. Considerada a primeira grande exposição do Estado, já era algo que os colunistas do jornal analisavam como necessário para a Capital gaúcha. Quando foi anunciado, o feito foi comemorado nas páginas dos jornais.

“Ansiosamente esperado, inaugura-se hoje o Salão de Outono nesta capital. Como era de desejar da cultura artística de Porto Alegre, inúmeras foram as telas apresentadas, firmadas por nomes de real acatamento nos meios artísticos, salientando-se as tendências mais variadas, dado o temperamento de cada um dos expositores. Surgem verdadeiras revelações em meio. O belo certame representa uma emulação admirável, atestando o esforço dos entusiastas desta terra por mostrar em quanto é capaz o engenho dos rio-grandenses em se tratando de questões de arte. Na verdade, são dignos de atento estudo os quadros que ali se acham, devendo sobre esses trabalhos pronunciar-se a seu tempo a crítica autorizada pelos seus legítimos representantes.”

1º Salão de Outono | Foto: CP Memória

Tamanho ineditismo garantiu uma cobertura abrangente. O Correio do Povo noticiou a chamada dos artistas, esteve na inauguração e fez texto especial apontando alguns destaques como Antonio Caringi, Fernando Corona, João Fahrion, José Lutzenberger, José Rasgado, Judith Fortes, Oscar Boeira e Sotero Cosme.

Ainda em 1925, um fato chamou a atenção. No mês de março, o jornal anunciava a contratação de um time de ilustradores para deixar as páginas mais agradáveis aos leitores. Um dos principais ilustradores da época foi Helios Sellenger.

A partir de 1934, o CP teve um profissional de destaque para tratar das artes visuais e que passou a assinar as Notas de Arte. Aldo Obino tratava de debates da arte nacional, exaltava e recuperava a trajetória de grandes artistas da época, de José Lutzenberger a José de Francesco, de Luzia Prado a Iberê Camargo. As iniciais A.O. permaneceram no Correio do Povo até 1984.

Outros nomes também exaltaram as artes ao longo dos tempos, como foi o caso de Maria Abreu e Francisco Bittencourt, este último que assinava artigos regularmente no Caderno de Sábado, nos anos 1970, com posicionamentos bastante críticos em relação às artes visuais, como foi o caso do artigo “Problemas da Bienal”, no CS em 4 de outubro de 1975, no qual analisa os erros e acertos da Bienal Internacional de São Paulo, 24 anos depois de sua primeira edição. As capas do CS desde a primeira edição em 30 de setembro de 1967 contavam com obras de artistas plásticos de Farnese de Andrade a Jussara Gruber.

Mais recentemente, outros eventos marcam a cena das artes visuais na Capital, como é o caso da Bienal de Artes do Mercosul, realizada a cada dois anos, desde 1997, com exceção de 2017, quando foi remarcada para o ano seguinte, por questões orçamentárias. Já a de 2020 ocorreu de forma virtual por conta da pandemia de Covid-19. As temáticas já foram as mais diversas, sempre com foco na arte contemporânea, com destaque para artistas da América Latina. Marcada por muita efervescência cultural, a "megaexposição" ficou conhecida por ocupar diversos espaços de Porto Alegre. O Correio do Povo acompanhou todas as edições com coberturas completas, desde o serviço até curiosidades sobre as obras.

Outro evento que marca a cidade por um dia é a Noite dos Museus, que promove a visitação aos museus da cidade durante a noite, com muitos shows e apresentações culturais. Muito querida pelo público, a maratona cultural enche as ruas e transforma a paisagem. Ao longo dos anos, foi ganhando cada vez mais espaço nas páginas do jornal impresso e atualmente ganha destaque na capa, recebendo cobertura progressivamente maior, contando com atualizações ao vivo nas redes sociais sobre, por exemplo, como estavam as filas e um vlog da cobertura no YouTube.

Com este pequeno apanhado, podemos dizer que o CP tratou as artes visuais com cobertura contínua e também aprofundada nestes 130 anos de história.