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254 anos: lugares que guardam e contam a história de Porto Alegre

No aniversário da Capital, o Correio do Povo fala sobre construções, monumentos e locais de relevância histórica para a cidade

Ponte de Pedra completa 170 anos
Ponte de Pedra completa 170 anos Foto : Mauro Schaefer / CP Memória

A Capital de todos os gaúchos celebra nesta semana, na quinta-feira, dia 26 de março, o seu aniversário de 254 anos de fundação. Desse período, 130 anos de história de Porto Alegre estão registrados nas páginas do Correio do Povo. Apesar disso, muitos outros estão presentes em locais que, na roda-vida do dia a dia, passam despercebidos por quem circula ou trafega pela Capital.

Do Centro Histórico ao Pontal, passando pelo Moinhos de Vento, são inúmeras as construções, monumentos ou locais que resguardam a história de ocupação, surgimento e expansão de Porto Alegre. Para marcar o início da semana de aniversário da Capital, o Correio do Povo selecionou alguns destes pontos de relevância histórica que podem ser visitados e admirados.

CASARÃO ROSADO, O MAIS ANTIGO IMÓVEL

Apenas 18 anos depois de fundada a “Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais”, um casarão no estilo colonial surgia na região conhecida como altos da Duque, na rua Duque de Caxias, no Centro Histórico. O Casarão Rosado, como também é conhecido, teve sua construção concluída em 1790 e segue de pé depois de mais de 235 anos, resguardando a história de Porto Alegre e também da política gaúcha.

O casarão que abriga o Memorial do Legislativo foi construído pouco depois da fundação da cidade | Foto: Alina Souza

A construção do prédio, que hoje abriga o Memorial do Poder Legislativo, iniciou quando a freguesia dos casais ainda estava engatinhando, em 1773, apenas um ano depois da fundação da cidade. Erguido inicialmente apenas com o pavimento térreo, o prédio mais antigo da Capital ainda de pé recebeu um segundo andar em 1860. Isso porque, anos antes, em 1835, quando eclodiu a Revolução Farroupilha, o local tornou-se sede da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS).

Antes disso, o imóvel foi sede da Provedoria da Real Fazenda, da Casa da Junta, do Conselho-Geral da Província, da Câmara Municipal e até mesmo da Cadeia Pública de Porto Alegre. Após idas e vindas, o prédio voltou ao parlamento gaúcho em 2004 e, depois de passar por reformas, foi reinaugurado em 2010 para servir de memorial e ajudar a contar a trajetória da Assembleia Legislativa.

De acordo com a coordenadora do setor de Exposições da ALRS e uma das responsáveis pelo espaço, Mariana Abascal, o Casarão Rosado tem como diferencial servir como um museu da história política do Estado. No local, o parlamento tem promovido mostras e painéis que apresentam a trajetória do parlamento e seu contexto para a sociedade gaúcha, além de fomentar a importância da democracia. Também há exposição de itens de valor histórico para a política gaúcha. O memorial funciona de segunda a sexta-feira, das 8h30min às 18h30min, com entrada gratuita.

Após reforma em 2010, o Casarão Rosado passou a ser um museu da história política do Estado | Foto: Alina Souza

“O prédio, por si só, é um item do acervo. O principal acervo, na verdade. Pois é raro ter um museu e ele ser a primeira sede do parlamento. Isso é muito especial. Por isso, trabalhamos aqui uma série de ações, tanto a parte histórica, mas também uma parte educativa ao explicar como funciona o poder legislativo e a importância do voto, por exemplo. É nesse prédio que se dá, por muitas vezes, o primeiro contato da população com o parlamento. E estar aqui dentro faz uma diferença imensa”, explicou Mariana.

SANTA CASA: PARA CUIDAR DA SAÚDE DOS GAÚCHOS

Enquanto a cidade se desenvolvia na península que forma hoje o Centro Histórico, nos arredores da atual Praça da Alfândega, a primeira casa de saúde do Estado surgia fora do perímetro urbano da Capital. Fundada em 1803, a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre só teve seu primeiro prédio concluído em 1826, recebendo pacientes logo em seguida. À época, a região do hospital ficava fora dos muros que protegiam a população porto-alegrense.

Parte da fachada segue a original de 1826. Uma das alterações foi o rebaixamento do nível da rua Annes Dias, que demoliu uma escadaria que dava acesso ao prédio. Internamente, o imóvel foi ampliado, assim como todo o complexo da Santa Casa. Na época, além do prédio próprio, a instituição alugava sobrados no entorno, que funcionavam como salas de apoio ao atendimento.

Fundada em 1803, a Santa Casa de Misericórdia só teve seu primeiro prédio concluído em 1826 | Foto: Alina Souza

De acordo com a historiadora da instituição, Gabriela Moreira, algumas das características da época da construção que permanecem são a arquitetura do prédio e a arborização da praça interna. O jardim foi pensado como um elemento de auxílio na recuperação dos pacientes.

As obras de ampliação e de retirada das escadarias que davam acesso ao hospital fizeram com que um elemento da fachada do prédio fosse perdido: a roda dos expostos. Ela funcionava como um mecanismo de madeira no qual famílias depositavam, pelo lado de fora, recém-nascidos para colocá-los para adoção. Dentro do prédio, funcionárias da Santa Casa recolhiam os bebês e os levavam para o sobrado que funcionava como orfanato.

Atualmente, o prédio antigo do hospital funciona, em sua maioria, como salas administrativas da Santa Casa e auditório. Além disso, uma pequena parte do prédio ainda recebe leitos de maternidade. A historiadora conta que, durante a semana, é possível entrar no prédio e visitar a praça interna, assim como o Centro Cultural da Santa Casa. As salas internas do prédio bicentenário não podem ser acessadas.

Hoje é possível entrar no prédio e visitar a praça interna | Foto: Alina Souza

“A estrutura organizacional da área cultural da Santa Casa começou neste prédio. O primeiro centro de documentação e pesquisa, o primeiro espaço de arquivo histórico, o primeiro espaço de museu foram todos aqui. Mas, hoje, ele é uma área administrativa. Apesar disso, esse imóvel é fundamental, pois é o berço da história da Santa Casa. Foi aqui que tudo começou”, contou Gabriela.

AFLUENTES DO GUAÍBA: O MAIS ANTIGO MONUMENTO

Subir a antiga “rua da Ladeira” (atual General Câmara) e seguir até o centro da Praça da Matriz para buscar água na fonte. Por muitos anos, essa foi a realidade de quem viveu em Porto Alegre no final do século XIX. Quando a Capital estava prestes a completar 100 anos de fundação, em 1866, a Praça da Matriz recebeu um conjunto de estátuas que são consideradas o monumento público mais antigo da cidade.

Chafariz Afluentes do Guaíba contempla quatro esculturas esculpidas em mármore de Carrara | Foto: Alina Souza

O Chafariz Afluentes do Guaíba, também conhecido como “Chafariz do Imperador”, contempla quatro esculturas esculpidas em mármore de Carrara, com uma estética clássica idealizada pelo arquiteto italiano José Obino. Duas delas são figuras masculinas, chamadas de Netuno, que representam os rios Jacuhy (Jacuí) e Gravatahy (Gravataí). Já as outras duas são figuras femininas, que representam os rios Cahy (Caí) e Sinos. No topo da fonte, havia a figura de um menino, simbolizando o nascimento do Guaíba.

Além de ser o monumento mais antigo, o conjunto formava a fonte que tinha como principal propósito abastecer a população com água potável. Com a construção do Palácio Piratini e a realização de obras na Praça da Matriz, a fonte foi removida. Anos depois, elas foram parar na Praça Dom Sebastião, em frente ao Colégio Rosário, no bairro Independência. Em 2014, as peças foram levadas para os jardins da sede do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), no bairro Moinhos de Vento.

As figuras masculinas do monumento representam os rios Jacuí e Gravataí | Foto: Alina Souza

Recentemente, elas passaram por revitalização. A museóloga do Museu Joaquim Felizardo, Luciana Brito, explica que a obra de arte chegou a ser vendida para uma marmoraria e correu o risco de ser transformada em pó de mármore. Entretanto, uma campanha da imprensa impediu que isso ocorresse, pressionando o governo a readquirir as estátuas. Assim, em 1936, quatro das cinco estátuas do conjunto foram colocadas isoladamente no entorno da Praça Dom Sebastião.

SÍTIO NA DOUTOR FLORES: PAVIMENTO QUE CONSERVA UMA ERA

Desde o início do mês de março, o Centro Histórico de Porto Alegre passou a contar com um sítio arqueológico em via pública. Trata-se do antigo pavimento da rua Doutor Flores, o primeiro local sinalizado em espaço aberto da Capital. A descoberta ocorreu durante a primeira etapa das obras de revitalização das nove vias que compõem o Quadrilátero Central. Enquanto se faziam as escavações, equipes de trabalho encontraram o calçamento de pedra utilizado entre 1912 e 1928 na via.

O antigo pavimento da rua Doutor Flores é o primeiro local sinalizado em espaço aberto da Capital | Foto: Alina Souza

Uma parte da estrutura foi preservada e recebeu sinalização patrimonial. Com isso, ela pode ser visitada e apreciada por todos que passam pelo local. O trabalho foi desenvolvido pela consultoria em arqueologia Arqueo-Tri. O arqueólogo Marcelo Lazzarrotti, que atua na empresa, reforça que o calçamento marca um período no qual o Centro Histórico de Porto Alegre passou por um intenso processo de modernização.

“A proposta de implantação de sinalização patrimonial no local possibilita que os cidadãos de Porto Alegre tenham acesso a esse importante legado histórico”, apontou o arqueólogo. “Agora temos o primeiro sítio arqueológico devidamente sinalizado em uma das principais vias do Centro Histórico de Porto Alegre. A história da construção da cidade segue preservada e ela é de todos nós”, completou o secretário municipal de Obras Públicas (Smoi), André Flores.

PONTE DE PEDRA: SÍMBOLO DAS MUDANÇAS URBANAS DA CAPITAL

Quem passa todos os dias no entroncamento das avenidas Borges de Medeiros e Loureiro da Silva ou pela rua Washington Luiz muitas vezes nem percebe que aquele local é um marco para as mudanças urbanas que foram promovidas em Porto Alegre. A Ponte de Pedra do Largo dos Açorianos nem sempre foi utilizada para atravessar um lago. Na verdade, seus arcos foram projetados para receber as águas do arroio Jacareí, o atual arroio Dilúvio.

Os arcos da Ponte de Pedra foram projetados para receber as águas do arroio Jacareí, atual Dilúvio | Foto: Mauro Schaefer / CP Memória

A museóloga do Museu Joaquim Felizardo, Luciana Brito, conta que a obra foi iniciada em 1846, ficando pronta dois anos depois, em 1848, quando foi liberado o tráfego. A estrutura substituiu uma antiga ponte de madeira que ligava a cidade, ainda não aterrada, com as chácaras do Caminho de Belas. Originalmente, ela era uma estrutura viária que fazia parte da rua da Figueira, atual rua Coronel Genuíno.

A ponte, um dos símbolos da Capital, possui estilo romano com três arcos plenos, apoiados em duas fundações em arenito com base em alvenaria de pedra. “Um século depois, com a retificação do arroio Dilúvio, a ponte deixa de ligar o Centro à zona Sul da cidade, o que agora é feito pela avenida Borges de Medeiros. Testemunha da história, ela se transforma em monumento urbano, tombado em 1979. Em 2019, depois de uma restauração, volta a expor suas fundações, lembrando suas primeiras feições lá do século XIX”, destacou.

SÍTIO INDÍGENA NO PONTAL: A OCUPAÇÃO ANTES DA OCUPAÇÃO

Antes mesmo da chegada dos açorianos ou da doação de sesmarias para famílias de estancieiros, como a de Jerônimo de Ornelas, a área de terra que hoje compreende a cidade de Porto Alegre já era ocupada. De fato, a região já havia sido ocupada por povos originários antes da “descoberta” do Brasil pelos portugueses. A prova disso está na localização de vestígios de povos indígenas guaranis localizados no antigo Estaleiro Só, atual Pontal Shopping.

O sítio arqueológico foi encontrado durante as escavações para a construção do empreendimento. No local, arqueólogos encontraram cerâmicas indígenas durante o transplante de uma árvore, na retirada do aterro do Estaleiro Só. A datação realizada por carbono-14 (C14) indica que o material pertence ao período entre 1434 e 1436. Ao todo, foram localizados 12.430 fragmentos, que estavam abaixo do aterro entre 1,20 metro a 2,30 metros, em alguns pontos mais próximos do Guaíba.

Artefatos da ocupação de povos indígenas guaranis foram localizados no antigo Estaleiro Só | Foto: Alina Souza

De acordo com a museóloga Luciana Brito, parte do acervo foi levada para o Museu Joaquim Felizardo, localizado na rua João Alfredo, no bairro Cidade Baixa, e outros fragmentos foram levados para o Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS, na avenida Ipiranga, bairro Partenon. Entre os itens, estão panelas e tigelas, além de pedras lascadas e polidas e instrumentos como machados, polidores e raspadores.

Na área onde hoje está o Pontal Shopping, foi criada uma janela de observação para uma parte do assentamento indígena que foi mantida no local. Luciana recorda que a região também foi conhecida como Ponta do Melo, onde ocorriam os despejos de dejetos desde o final do século XIX. O Estaleiro do Só foi fundado em 1850, sendo uma das primeiras ferrarias e fundições de Porto Alegre.

Durante as escavações para a construção do empreendimento, a museóloga cita que também foram encontrados vestígios do antigo Trapiche do Asseio Público, que possuía 11 pilares de alvenaria de tijolos maciços e pedras de granito. “O que foi descoberto é que o local não foi ocupado apenas pelo Trapiche do Asseio Público e pelo Estaleiro Só, mas também por povos indígenas guaranis”, concluiu Luciana Brito.