Especial

A noite que mudou os nossos dias: família desabrigada pela enchente vive embaixo de ponte com mais de 50 aninais

Quatro pessoas ocupam local, na Ilha Grande dos Marinheiros, há mais de quatro meses

Milton do Nascimento, a esposa Gabriela de Freitas e a enteada Natalia da Silva vivem em três cômodos improvisados sob a rodovia
Milton do Nascimento, a esposa Gabriela de Freitas e a enteada Natalia da Silva vivem em três cômodos improvisados sob a rodovia Foto : Fabiano do Amaral / CP Memória

Em 1972, o cantor Milton Nascimento interpretou “Tudo o que você podia ser”. A música, composta em parceria com Jobim Trio (formado por Daniel e Paulo Jobim, respectivamente filho e neto de Tom Jobim, e Paulo Braga), ajudou a embalar a luta por uma nação livre do regime militar. Passados 52 anos, as palavras da composição permanecem tão atuais que podem ser personificadas.

A democracia brasileira, ainda que claudicante, agora permite o debate sobre as mazelas do país, mesmo que boa parte continue presente 39 anos após o fim da ditadura. Há liberdade de expressão e uma constituição a ser respeitada, porém a questão agora talvez esteja em como atrair os olhares da opinião pública aos problemas enfrentados por parcelas mais humildes da população, proporcionando de fato a garantia dos direitos básicos.

Com sol e chuva você sonhava / Que ia ser melhor depois / Você queria ser o grande herói das estradas.

Os versos iniciais da canção resumem a vida do homônimo do intérprete, o gaúcho Milton do Nascimento. Com 58 anos, ganhou a vida como caminhoneiro até que a saúde lhe exigiu parar, há seis anos. Ergueu uma casa de madeira, segundo ele “simples, porém aconchegante”, na Ilha Grande dos Marinheiros, em Porto Alegre, e substituiu as viagens em um caminhão-tanque pela paixão por animais. Casou pela segunda vez e estava, apesar das dificuldades financeiras, feliz no pedaço de terra de 50 metros de comprimento por 30 metros de largura que ocupou junto ao rio Jacuí, até que a enchente de maio chegou.

“Foi a noite que mudou os nossos dias. De uma hora para outra eu tive que pegar o pessoal e sair correndo. A gente da ilha tá acostumada com as enchentes, acha que tá tudo normal, mas nunca tinha acontecido nada parecido, só em 1941, pelo que falam. Quando voltei para buscar os bichos, a água já tinha tomado conta de tudo”, recorda.

Há quatro meses, Milton, a esposa, Gabriela de Freitas, de 28 anos, e a enteada, Natália, 10, acordaram para mais um dia em suas rotinas e foram dormir incertos do porvir. Deste então, estão à beira da BR 116 – primeiro na caçamba de uma caminhonete Chevrolet C-10 fabricada em 1976, depois, para fugir da chuva e do frio, migraram para baixo da ponte da rodovia, a aproximadamente 300 metros do lugar em que moravam.

Ao passo em que os vizinhos retornavam para casa, o motorista transformou as tendas ao redor em abrigos para os mais de 40 animais que resgatou da propriedade inundada. Construiu uma cocheira para 24 cabras e chiqueiros para três porcos e dois javaporcos. No local também mantém amarrados cinco éguas, duas vacas e ao menos dez cães. A turma aumentou há cerca de duas semanas com o nascimento um filhote de cabra e de 13 leitões.

É a criação que faz com que a família permaneça no local, uma vez que a casa afetada pela enchente ainda não tem condições de ser novamente habitada. “Recebi convite pra ficar com amigos, ou em abrigo, mas tenho meus bichos, são meus parceiros e não vou abandonar nenhum”, garante.

Assim como nos anos de chumbo, o crescimento desordenado dos centros urbanos continua a produzir distorções. E as que envolvem Milton são carregadas de ironia que desafiam até o imaginário popular. Se apresenta tataraneto de João Inácio da Silveira, um dos primeiros ocupantes da Ilha dos Marinheiros, porém a área antes habitada por ele não está legalizada e tem futuro incerto depois da enchente. Nutre amor pela estrada, tido por ele como “o verdadeiro significado da liberdade”, mas a visão comprometida pelo glaucoma impede o ofício. Pior, acabou embaixo dela.

“Os bichos aliviam a minha dor. Quando parei de viajar, passei a criar galinhas, patos, marrecos, vacas, de tudo um pouco. Os que estão aqui foram os que consegui salvar, uns quantos se foram rio abaixo”, revela em tom de tristeza.

Ah! Sol e chuva na sua estrada / Mas não importa não faz mal / Você ainda pensa e é melhor do que nada / Tudo que você consegue ser... ou nada.

A água do Jacuí levou o assoalho da casa de Milton e também comprometeu a moradia da mãe dele, a aposentada Iauria do Nascimento, de 80 anos, que há pouco mais de um mês está abrigada sob a ponte da BR-116. A reconstrução é lenta e feita com doações e restos de materiais descartados nas ruas. O problema principal, segundo ele, é recuperar o encanamento e a elétrica da casa e os alojamentos dos animais.

“Eu vou dizer assim ó, eu acredito que, no mínimo, mais uns 30 dias até poder voltar. Eu tenho que arrumar as cocheiras… arrebentou tudo… preciso arrumar os chiqueiros, limpar pra eles (animais) não ‘comer’ lixo ali, sabe? Se não fosse isso, já tinha dado outro jeito, mas o que me sobrou foi eles”, afirma sem parecer se importar com as dificuldades.
Neste momento, tudo que Milton consegue e quer ser é um dedicado cuidador da família e de seus animais.

Até o retorno ao lar, a família que é parte da história da Ilha permanecerá, até melhor sorte, invisível sob a passagem de concreto. Enquanto os automóveis trilham apressados o asfalto manchado de óleo e borracha, abaixo, no abrigo improvisado, a vida caminha de forma trôpega.

“Entra, mas não repara a bagunça”, convida Gabriela, enquanto se curva para passar por um vão de aproximadamente 60 centímetros de altura que serve como porta; é preciso cuidado para não bater a cabeça. Ela ingressa e começa a explicar a organização interna:

Com madeira, lona e PVC, três cômodos estão improvisados. No primeiro, dois pilares da ponte, envolvidos com plástico filme de uma ponta a outra, servem como base para uma parede que deixa apenas a luz natural passar. Nas demais, tábuas, cobertores e isopor tentam barrar o frio que invade pelas frestas. Neste espaço, com cerca de três metros de comprimento por dois e meio de largura, estão um pequeno sofá, uma mesa, um fogão, um armário e uma geladeira sem motor. O chão batido é coberto por tapetes e estrados plásticos.

Na sequência, a dona de casa sobe por uma escada estreita, com quatro degraus, e some por um buraco de 60x80, que vem a ser o assoalho de uma espécie de mezanino. É onde ficam outros dois espaços, usados como quarto pelo casal, pela mãe de Milton e por Natália.

“Aqui em cima estão as camas. Guardamos a comida também, porque lá (embaixo) os ratos mexiam”, conta.

Escada dá acesso à parte superior, que também é usada para manter a comida longe dos ratos | Foto: Fabiano do Amaral

Por ficar entre as vigas da ponte, o lugar é mais protegido do frio e da chuva. O inconveniente maior, contudo, é a vibração da estrutura.

“É bem barulhento e sacode muito, a gente tomava cada susto no começo, principalmente quando passava caminhão. Eu não conseguia dormir, mas acabei acostumando”, diz Gabriela. “Treme tanto que já caí da cama”, garante Milton.

Sem banheiro, lonas fecham um biombo à beira da rodovia usado para o banho e outras necessidades. A água da higiene pessoal, assim como para lavar roupas e matar a sede, vem de doações cada vez mais escassas.

Mobilização, carretos e estigma

Milton agradece o apoio recebido, mas garante que não fica de braços cruzados a lamentar. Ele usa a caminhonete para “fazer dinheiro”, como costuma falar, e exalta que é trabalhador, buscando afastar o estigma por receber ajuda neste momento de dificuldade. De carreto em carreto, tenta garantir o básico, ainda que não seja suficiente.

“No começo tinha muito voluntário, agora chega pouca coisa. Só quem continua firme é o pessoal que me ajuda com os bichos. Agora mesmo eu ‘tava’ consertando o pneu da caminhonete para seguir com os carretos e tentar dar conta”, diz.

Para o freteiro, a desmobilização em auxílio às vítimas da enchente é natural depois de mais de quatro meses da inundação. Na prática é o retorno da população periférica à invisibilidade social a que está rotineiramente submetida.

“Desde o início, tivemos ajuda de voluntários. Também vinha um caminhão-pipa trazer água, mas parou de um dia pro outro, sem aviso”, relata.

Uma das presenças mais significativas do Estado na Ilha dos Marinheiros, a unidade de saúde foi interditada em 27 de agosto. O prédio, danificado pela inundação, será demolido.

Sem o atendimento local, a octogenária mãe de Milton agora precisa ir mais longe em busca dos médicos que necessita regularmente. No dia em que o Correio do Povo conhecia a história da família (2 de setembro), dona Iauria estava no centro de Porto Alegre realizando exames, uma vez que se ressente de dores nas pernas, agravadas por subir e descer a escadinha do mezanino improvisado onde dorme, acredita o filho.

Receio, apesar da liberdade

Mesmo com receio de uma nova reviravolta do clima, o retorno para casa move a família. É como eles almejam superar as dores dos últimos meses.

“Eu espero que não suba água, que não dê ou enchente, né? Porque o pensamento é que de repente vem um aguinha ainda, setembro é o mês que chove mais aqui na região”, disse Gabriela.

“É, tomara, já choveu que chega, ninguém quem quer passar por aquilo de novo? A tristeza maior é ficar aqui, olhar os bichos amarrados na beira dessa faixa”, completa Milton.

Sei um segredo você tem medo / Só pensa agora em voltar.

Milton e a mãe viveram e recordam os tempos do regime militar. Aconselhado por dona Iauria, aprendeu naquela época que o silêncio era a receita para evitar problemas. Talvez por reflexo, ainda hoje se mostra ressabiado em comentar sobre as dificuldades coletivas comuns a ele e a milhões de brasileiros.

“A gente fica meio assim, os amigos aconselham a não tocar nesses assuntos mais delicados quando alguém de fora aparece por aqui. Tenho medo que, em vez de ajudar, venham aqui tirar meus bichos, mas não dá para sofrer calado”, revela.

“O problema não é a enchente. Eu nasci aqui na ilha, viajei para muitos lugares e é tudo parecido, a luta do povo é a mesma. Mas a gente precisa ter coragem para continuar”, sugere o homem da estrada, otimista mesmo diante das adversidades; resistindo mesmo em tempos difíceis, tentando reencontrar seu caminho. A prova de tal esperança vem das bandeiras nacional e do Rio Grande do Sul hasteadas por ele junto da moradia improvisada.

Incentivada pelo esposo, Gabriela, que nasceu 11 anos após o retorno da democracia ao Brasil – e oito depois da promulgação da Constituição Federal –, também demonstra ideais. Para ela, não importa o que aconteça, “o brasileiro não pode deixar de lutar por um futuro melhor para o país”, tal como professa a canção do xará famoso do marido.

Tudo que você devia ser sem medo / E não se lembra mais de mim /

Você não quis deixar que eu falasse de tudo / Tudo que você podia ser… na estrada.

Tudo que você podia ser

(canção de Jobim Trio e Milton Nascimento)

Com sol e chuva você sonhava

Que ia ser melhor depois

Você queria ser o grande herói das estradas

Tudo que você queria ser

Sei um segredo você tem medo

Só pensa agora em voltar

Não fala mais na bota e do anel de Zapata

Tudo que você devia ser sem medo

E não se lembra mais de mim

Você não quis deixar que eu falasse de tudo

Tudo que você podia ser… na estrada

Ah! Sol e chuva na sua estrada

Mas não importa não faz mal

Você ainda pensa e é melhor do que nada

Tudo que você consegue ser… ou nada

Não importa não faz mal

Você ainda pensa e é melhor do que nada

Tudo que você consegue ser… ou nada

O que diz a prefeitura

Conforme a Secretaria de Desenvolvimento Social de Porto Alegre, oito famílias ainda permanecem nessa situação. No momento mais delicado da enchente, este número chegou a 40. A pasta afirma também que ações relacionadas às famílias no bairro Arquipélago ocorrem com frequência.

Equipes da Assistência Social e da Defesa Civil mantêm presença e oferecem opções para as famílias deixarem estes locais. Equipes da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) e da Secretaria da Saúde também visitam e orientam as famílias acampadas, segundo a representação do município.

Em parceria com Estado e governo federal, são disponibilizados às famílias desalojadas benefícios como o Estadia Solidária, custeando aluguéis ou renda temporária aos que optam por ir para casa de parentes e amigos. Porto Alegre conta também, indica a secretaria, com o Centro Humanitário de Acolhimento (CHA), mantido pelo Estado no bairro Rubem Berta.