São sete meses de vidas transformadas pelo clima. A tragédia climática que isolou regiões inteiras de Porto Alegre, em maio deste ano, vai além de perdas materiais, marcas em paredes e prejuízos financeiros. Foram, até aqui, 30 semanas; 214 dias, completados nesta terça-feira, de lutas, buscas por recomeços e histórias de superação, muitas delas movidas também pelo trabalho de voluntários – homens e mulheres que ainda hoje dedicam tempo e solidariedade ao povo gaúcho.
A bandeira do Rio Grande do Sul é exibida no alto de prédios e em fachadas de residências como símbolo mais fortes desta reconstrução. É uma sensação de pertencimento que reforça a motivação para seguir em frente.
Um exemplo da ressignificação vem do empreendedor Fagner Leite, 40 anos. Morador de Porto Alegre, vivia um momento pessoal, segundo ele, “complicado” nos primeiros meses de 2024. Foi a partir das inundações de maio que a virada ocorreu, afirma.
“Eu posso dizer que estava perdido. Estava em depressão, sem saber o que realmente fazer. Perdi até o amor da minha vida”, revela.
Leite conta que deixou uma carreira na área financeira por conta de problemas pessoais. Até a enchente era motorista de aplicativo e morava com a ex-companheira, a bibliotecária Daiane Andrade, em um residencial no bairro Humaitá, uma das regiões da Capital mais afetadas. A água levou o automóvel, mas também trouxe a inspiração e a coragem para enxergar alternativa que lhe devolveu a autoestima.
“No condomínio em que morava, fui para água e ajudei como podia, foi uma coisa singular. Tivemos que sair com o anfíbio do Exército para um centro de acolhimento em Gravataí (na região metropolitana de Porto Alegre)”, recorda.
“Retornamos ao condomínio três semanas depois, então fizemos uma confraternização entre moradores que ajudaram nos resgastes. Era um churrasco, não tinha nada doce e resolvi fazer um pudim. O pessoal gostou e me incentivou a fazer para vender”.
Surgia o “Guri dos Pudins”, slogan que apresenta o trabalho artesanal de Fagner. O público inicial estava no próprio condomínio. Deu tão certo que ele aumentou a produção, a variedade de sabores e passou a divulgar os doces pela internet.
“A dona Margareth (vizinha) comprou o primeiro e publicou no grupo do condomínio, em 10 minutos, vendi os três que restavam. No dia seguinte (sábado) vendi 12 pudins, e no outro dia (domingo) mais 18, então vi que aquilo ali daria certo”, comemora.
Com o fim do relacionamento e para investir no negócio, Leite mudou para uma casa alugada na Vila Farrapos. Atualmente vende entre 70 e 100 pudins por semana.
“A enchente mudou totalmente a minha vida, na forma de pensar, ser e agir. Hoje os pudins são minha terapia”, destaca.
Passados os pesadelos de 2024, os sonhos para 2025 são maiores. Fagner Leite deseja focar ainda mais nos doces artesanais. A meta é abrir a própria loja, porém sem deixar de lado o público que lhe deu o primeiro impulso.
“Vivo algo maravilhoso nestes últimos meses, dei o melhor de mim na enchente e agora estou lutando para abrir minha loja de pudins, mas vou seguir com os valores que venho praticando (entre R$30 e R$38) porque eu quero que todos possam comprar meus pudins”, completa.
Tem do tradicional, com leite condensado, ao especial que leva pistache ou panetone. Fagner se dedica a criar novas receitas e sabores, mas confessa que algumas receitas vem da “sabedoria materna”. Segredo de família que agora dá lucro.
Paixão pelo Rio Grande
Há voluntários que chegaram no momento de crise e não voltaram para casa. É o caso da veterinária Gabriela Henn, 24 anos. Ela veio de Cascavel, no Paraná, para atuar como voluntária e decidiu mudar para o Rio Grande do Sul.
“Eu assistia pela televisão desde o primeiro dia da enchente, os animais, as pessoas, em cima de telhados e me colocava no lugar delas com o pensamento de que poderia ter sido comigo. E nenhum dia foi normal dali para a frente, eu não ia mais na academia, não fazia nada de extraordinário porque pensava que seria injusto viver normalmente tocando minha vida sendo que muitas pessoas e animais não teriam sequer água para beber naquele dia”, conta Gabriela.
A profissional transformou sua inquietude em energia para ajudar. Pediu férias no trabalho e veio para o RS. “Da minha cidade natal eu fazia o que eu podia, que era pedir doações. A empresa que eu trabalhava fez ações, recebia e levava doações para uma ONG (Latidos do Bem). Não sou tão religiosa, mas havia um sentimento em mim, de angústia, de querer mais, e aí eu pedi para a ONG se eles tinham como me enviar. Entrei no último avião que decolou da Base Área de Toledo com doações e assim, dia 22 de maio eu cheguei no aeroclube de Eldorado do Sul, dentro de um avião particular que estava voando com ajuda de doações para o combustível”, recorda.
Gabriela passou 13 dias em Canoas, também na região metropolitana, atendendo animais atingidos pela enchente por meio do Patas Molhadas, abrigo montado no bairro Mathias Velho. “Não conhecia ninguém quando cheguei aqui, vim com a cara e com a coragem, apenas. Dormia, tomava banho, e comia no abrigo, tudo era doação.”
Mais de 2 mil animais passaram pelo espaço durante o período de crise.
A veterinária voltou para Cascavel no início de junho. Pegou carona até Curitiba com outros voluntários que retornavam para o Rio de Janeiro. Ainda durante o trajeto até a cidade natal o desejo de retornar ao RS lhe tomou.
“Voltei ao meu trabalho, mas o sentimento de que ainda não tinha acabado o que eu tinha por fazer permaneceu. Dias depois recebi o contato das pessoas responsáveis pelo abrigo (de Canoas) me convidando para trabalhar no projeto Patas Molhadas, pois precisavam de veterinários”, destaca.
A veterinária pediu demissão da função de gerente em uma rede nacional de artigos para animais e se mudou para Porto Alegre. “Aceitei voltar, pedi desligamento do meu emprego, peguei meu carro e minhas roupas e vim pra cá. Hoje eu trabalho em Viamão, rodo 40 quilômetros por dia para trabalhar na ONG 101 Vira-Latas”.
A vida de Gabriela recomeçou junto com a retomada do Rio Grande do Sul. A nova fase tem, além da paixão pelos animais, amigos e até um namorado.
“Não tenho pretensão de retornar ao Paraná, pois me apaixonei pelo Rio Grande do Sul e também me apaixonei pelo Nathan (Cunha de Oliveira, 26 anos), que hoje é meu namorado e que também atuou nas enchentes em Santa Maria (na região central do Estado)”, diz, contente.
O casal que surgiu em meio a um dos períodos de maior dificuldade da história gaúcha hoje vive no bairro Humaitá, área de Porto Alegre castigada pela enchente e que é, portanto, outro local transformado em símbolo da recuperação de nosso povo.