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Achados e perdidos: de documento a joias, coisas que as pessoas esquecem

No aeroporto, no trem, nos estádios, todos esses locais possuem um setor para guardar aquilo que eventualmente deixamos para trás

Achados e Perdidos - Aeroporto Salgado Filho
Achados e Perdidos - Aeroporto Salgado Filho Foto : Pedro Piegas

No segundo andar da rodoviária de Porto Alegre, no fim do corredor, Benhur Vasconcelos já registrou os mais inusitados objetos que foram perdidos no terminal, de cadeira de rodas a um par de muletas. Ele é responsável, há 15 anos, pelo departamento de Achados e Perdidos da rodoviária e, diariamente, recebe itens que as pessoas acabam esquecendo. Ele não é o único: no aeroporto, no trem, nos estádios onde os porto-alegrenses alentam os seus times. Todos esses locais possuem um setor para guardar aquilo que eventualmente deixamos para trás – e deixamos muitas coisas.

Só neste ano, 7.640 itens já foram entregues no departamento de Achados e Perdidos do Aeroporto Salgado Filho. Desse montante, porém, só 1.339 pertences foram resgatados pelos seus donos. O número é uma média: na maioria dos “achados e perdidos” visitados pela reportagem, só 30% dos objetos são devolvidos.

Setor de Achados e Perdidos do Aeroporto Salgado Filho | Foto: Pedro Piegas

Em função do volume, a sala que guarda todos esses itens facilmente lota. São diversas peças de roupa, chapéus, bonés, eletrônicos, óculos. Tudo devidamente catalogado, etiquetado e armazenado. Mas uma grande parcela dos objetos que chegam no balcão de “achados e perdidos”, localizado no segundo andar do aeroporto, ao lado do check in internacional, não cabe dentro dessas classificações. É o caso do pulverizador manual de plantas, do capacete de obras e dos muitos brinquedos infantis. Também não há uma caixa para as bengalas que são esquecidas, ainda que sejam muitas. Essas foram 60.

Objetos de alto valor também são perdidos, além dos eletrônicos. Entre os mais caros, o diretor de Operações Aeroportuárias da Fraport, Fabricio Cardoso de Lima, lembra de uma pulseira da marca de joias de luxo Tiffany & Co. e bolsas de grife, como as Louis Vuitton.

Como a quantidade de itens é excessiva, o descarte é uma necessidade. Por isso, todos os objetos que chegam no balcão são guardados por 60 dias. Após esse período, são destinados de acordo com sua categoria: podem ser doados ou depositados (no caso de valores em espécie) a entidades, descartados ou destruídos.

No setor de Achados e Perdidos do aeroporto, tudo é devidamente catalogado, etiquetado e armazenado | Foto: Pedro Piegas

Na rodoviária de Porto Alegre, onde o inusitado já transformou o terminal até em palco de história policial – quando uma mala, contendo o tronco de uma mulher foi deixada no guarda-volumes – os procedimentos e a demanda são bem parecidos. Tudo que chega às mãos de Benhur, responsável pelo setor, é registrado e catalogado. Desde as inúmeras malas, roupas e chaves até a cama de casal que foi esquecida.

Se for um objeto não perecível, fica armazenado por até 30 dias em uma sala na própria rodoviária e o dono precisa entrar em contato, via e-mail, para solicitar a retirada. Se após esse período ninguém reclamar o objeto, ele é doado para a entidade filantrópica Associação Educacional e Beneficente Emanuel, que atende pessoas e famílias em vulnerabilidade social.

Em caso de alimentos perecíveis, o período de armazenamento é um dia. E as pessoas esquecem muitos alimentos. Principalmente em períodos de grande movimento na rodoviária, como feriados. No Natal, por exemplo, não são raros os casos de quem esqueceu o peru da ceia.

Mas não são apenas objetos inanimados que acabam indo para o achados e perdidos. Benhur conta que mais de uma vez tutores deixaram os seus animais de estimação – gato, cachorro, pato – no terminal, após serem impedidos de embarcar com o animal. Normalmente, o dono afirma que alguém irá buscar o pet, mas raramente isso acontece. Sem estrutura para abrigá-los, os bichos são doados no mesmo dia.

O aeroporto Salgado Filho já viveu história parecida pelo menos três vezes. Tutores foram impedidos de embarcar com os seus pets e decidiram seguir viagem sem eles. Em dois dos três casos, os animais foram adotados por funcionários do próprio aeroporto, que ficaram sensibilizados com a situação. Em outro, o animal acabou fugindo.

Para que guardamos?

Estresse, falta de atenção, cansaço. Inúmeros motivos podem explicar o que as pessoas acabam perdendo seus objetos. E isso não é de hoje. Desde 1804, The Service des Objets Trouvés, ou o Serviço de Achados e Perdidos, de Paris, recebe uma série de itens que são deixados em aeroportos, museus, trens, ônibus ou, ainda, simplesmente jogados na rua. Administrado pela polícia local, o departamento fica no mesmo lugar desde 1939, em um enorme porão na rua des Morillons, 36.

Os milhares de itens armazenados no departamento parisiense ao longo dos anos, um dos primeiros de que se tem registro, ajudam a contar a história da cidade e, mais ainda, da própria sociedade. Por isso, é curioso que a história do Service des Objets Trouvés coincida com a história dos primeiros museus públicos, que começaram a surgir no início do século 19.

“Você pode construir muitos aspectos da vida cotidiana a partir do estudo desses objetos. Por exemplo, quais eram os hábitos de higiene, quais eram as ideias que se tinha sobre o corpo. Sobre o estudo da saúde também, quais os remédios que eram consumidos, como eles estão relacionados”, conta a professora do departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Adriana Schmidt. Ela explica que uma série de questões de natureza econômica, social e até mesmo política pode ser estudada e interpretada a partir dos objetos perdidos ou jogados fora. “Compõem o que a gente chama de um registro arqueológico”.

E não precisa ir longe para encontrar um desses exemplo: o Museu Joaquim Felizardo, também conhecido como Museu de Porto Alegre, está repleto de itens arqueológicos que contam sobre a capital dos gaúchos de anos atrás. “O Museu de Porto Alegre guarda objetos que sobreviveram à ação do tempo pelos mais variados motivos e que são reincorporados e retornam à vida a partir da sua patrimonialização. Então, é um museu que fala da vida cotidiana do século XIX, dos ricos e dos pobres, dos homens, das mulheres, das crianças e dos velhos, porque o lixo é democrático”.

Vale lembrar que parte do acervo do Joaquim Felizardo foi coletado do que era o aterro sanitário na cidade, hoje localizado na região no entorno do Mercado Público. “O centro da cidade avançou sobre o Guaíba e sobre o aterro sanitário e quando começou a se fazer o processo de reurbanização e revitalização do centro, na década de 1990, houve um acompanhamento arqueológico dessas alterações A quantidade de objetos resgatados nessas escavações fala do cotidiano e da cidade no século XIX. Por isso a importância de se ter o acompanhamento arqueológico nessas obras públicas no centro, que às vezes é tão questionado pelo Poder Público, mas tem a ver com isso: a história dos pequenos objetos perdidos, descartados há 100, 150 anos atrás, está ali nesses aterros sanitários”, relata Adriana.

Não fosse a necessidade do descarte, visto a capacidade limitada de armazenamento e a frequência diária, os muitos objetos que chegam ao setor de Achados e Perdidos da Trensurb, na estação Farrapos, poderiam explicar muito do cotidiano porto-alegrense atual. Os armários da grande sala em que os sete integrantes do departamento ficam são repletos de documentos, roupas, guarda-chuvas, fones. Ao longo do dia, os quatro estagiários que trabalham no setor ficam responsáveis por ir e vir entre as 22 estações, recolhendo itens que os cerca de 90 mil passageiros podem acabar esquecendo.

Apenas 30% dos objetos perdidos no Trensurb retornam aos seus donos | Foto: Pedro Piegas

O serviço oferecido pelo trem é antigo e conhecido, mas só 30% dos objetos que são perdidos acabam retornando aos seus donos. O restante é doado ou encaminhado aos Correios, no caso de documentos.

O que se perde (ou se deixa) em locais de diversão

Era um dia comum de trabalho quando Ana Paula Haubert foi chamada pela equipe que faz a manutenção nos arredores do gramado. Próximo ao campo havia uma urna mortuária.

Responsável pela ouvidoria do Estádio Beira-Rio, Ana Paula é acionada quando objetos são esquecidos ou deixados na casa dos colorados, independente do que seja. Foi necessário uma investigação para descobrir quem havia deixado urna e o porquê. O mistério foi resolvido: o ente queria prestar a homenagem pedida, mas não sabia os protocolos. Então só deixou a urna lá.

Apesar da situação, no mínimo diferente, Ana Paula conta que a maioria dos objetos que chegam à ouvidoria são comuns, como chaves, roupas, óculos e documentos. Em dias de jogo, o fluxo aumenta, mas a demanda é frequente. Final de ano, perto das férias escolares, o estádio recebe um grande número de visitas – e, consequentemente, a ouvidoria recebe também um grande número de garrafinhas d’água, mochilas, casacos.

Mas, diferente dos lugares onde o número de transeuntes é maior, como o aeroporto, trem e rodoviária – a maioria dos donos volta ao Beira-Rio para reclamar os seus pertences. Ainda que não seja a regra. Ela se recorda quando uma bolsa, com todos os pertences, foi perdida em frente ao portão 7 e, apesar dos empenhos de Ana Paula para identificar a dona e publicar a informação no site do Beira-Rio, ela nunca mais voltou a vê-la. Nesses casos, os objetos são doados para entidades, como o Asilo Padre Cacique.

Talvez uma urna com cinzas seja uma das poucas coisas que não foram esquecidas na Sogipa. Como o clube esportivo conta com uma ampla área de lazer, além do habitual que é esquecido nos ginásios e academias, como roupas, garrafinhas térmicas, óculos de natação, os 2 mil sócios que frequentam o clube mensalmente já deixaram os mais diferentes pertences. Carrinho de bebê, pneu, caixa de som (das grandes), mateiras, cooler, air fryer, kit de faca – e a lista segue. Todos os dias, sem exceção, Márcio Cristi recebe algum item na secretaria do clube. A média é de 300 por mês.

O procedimento padrão é parecido com os demais departamentos de achados e perdidos: tudo é fotografado, catalogado e armazenado. Se o objeto contar com alguma identificação, uma busca é feita entre os associados e eles são notificados.

Acontece que, independentemente dos esforços da equipe da Sogipa, menos da metade dos donos aparecem para reclamar seus pertences perdidos. E, por isso, há a necessidade do descarte. O tempo máximo de armazenamento é de 30 dias, mas, dependendo do objeto, a equipe guarda um tempinho a mais, principalmente aqueles de maior valor. O restante é repassado para Associação Educacional e Beneficente Emanuel – o mesmo destino daquilo que é perdido na rodoviária.

Setor de Achados e Perdidos da Trensurb | Foto: Pedro Piegas

Um fim histórico

Enquanto ainda faltam explicações de por que tão poucas pessoas retornam para buscar os seus itens, ao menos sabemos o que a história pode fazer deles: transformar o comum no extraordinário. Como explicou Adriana Schimidt, professora da história da Ufrgs, objetos que hoje são considerados “tesouros”, como as cerâmicas gregas ou a coleção egípcia do Museu do Louvre, em Paris, em algum momento da história foram apenas coisas comuns na vida diária das pessoas.