Às 18h20 do dia 17 de dezembro de 1939, o encouraçado de bolso alemão Admiral Graf Spee zarpa do porto de Montevidéu, atendendo à determinação do governo uruguaio de deixar as águas territoriais do país.
De acordo com Arlindo Pasqualini, correspondente enviado pela Folha da Tarde para acompanhar o desenrolar dos acontecimentos da Batalha do Rio da Prata, uma multidão estimada em cem mil pessoas assiste a lenta partida do navio. A enorme plateia está reunida na Rambla e, principalmente, sobre a Escollera Sarandi, o quebra-mar situado no acesso ao porto. É uma despedida amistosa e emocionada.
Quase quatro dias depois da chegada do Spee, a população de Montevidéu já não temia que a metrópole fosse arrasada pelos canhões do vaso de guerra, a exemplo do que o Admiral Scheer, barco da mesma classe do Spee, fizera em Almeria, em maio de 1937, em apoio às forças nacionalistas de Francisco Franco, na Guerra Civil Espanhola. Antes de levantar âncora, Hans Langsdorff, o capitão do Spee, também registrou, em carta ao embaixador alemão, Otto Langmann, seu “mais profundo agradecimento ao povo uruguaio pelas inúmeras mostras de simpatia”.
Na manhã daquele domingo, Pasqualini e o fotógrafo Santos Vidarte haviam sobrevoado o Spee, percebendo que os feridos que ainda permaneciam no barco estavam sendo conduzidos aos hospitais de Montevidéu. Na edição dominical, o Correio do Povo antecipava o que poderia ser o fim do encouraçado, citando outro trecho da carta de Langsdorff a Langmann. O Correio do Povo salienta que Langsdorff anuncia que explodirá o navio nas proximidades da costa, desembarcando a tripulação de 1,2 mil homens, em razão da falta de condições de navegabilidade do danificado Spee.
Pasqualini está no centro de Montevidéu, no 24º andar do Palácio Salvo, enquanto o Spee avança rumo oeste. Prevalecia a expectativa de um novo confronto entre uma frota britânica e o navio alemão. “A pena vacila ante o drama imenso”, escreve Pasqualini. O Spee é seguido pelo cargueiro alemão Tacoma. Mais tarde internado e depois apreendido pelo governo uruguaio, o Tacoma foi incorporado à frota do país, sendo utilizado desde transatlântico até cárcere flutuante da ditadura estabelecida no Uruguai a partir de 1973.
Com o poente ao fundo, o encouraçado se detém a uns 14 quilômetros ao sul de Punta Yeguas, próximo ao canal que conduz a Buenos Aires. Dois rebocadores e uma chata se aproximam. O Tacoma aguarda distante cerca de dois quilômetros. Pouco depois, os rebocadores e a barcaça vão em direção ao Tacoma. Finalmente, lanchas são baixadas do Spee. Às 19h56, quatro minutos antes de encerrar o prazo final para sair das águas orientais, ocorre a primeira explosão no navio.
“Súbito, a enorme massa griz estremece, ouve-se um grande estrondo e um jato de fumaça negra desprende-se do couraçado, subindo para o céu. A seguir, ouve-se nova explosão, desta vez mais forte e uma enorme língua de fogo ilumina tetricamente os contornos do Graf Spee. As explosões sucedem-se. O mar parece estar em chamas. Montevidéu, em peso, contempla estarrecida o espetáculo grandiosamente trágico”, relata Pasqualini. E acrescenta: “Terminava ali um capítulo de guerra ao mar”.
De fato, ali findava a trajetória do encouraçado Admiral Graf Spee, mas não a história da Batalha do Rio da Prata.