Especial

As cidades-esponja como enfrentamento às enchentes

Conceito arquiteto chinês Kongjian Yu defende aprender a conviver com o ciclo da água e devolver espaço à natureza dentro das cidades. No Rio Grande do Sul, também vem servindo de inspiração

Foto : turenscape / divulgação / cp

Desde que as cidades cortadas pelas principais bacias hidrográficas do Estado foram severamente afetadas por enchentes sem precedentes no país, no início de maio do ano passado, a reconstrução passou a ser tema recorrente no Rio Grande do Sul. Entretanto, além da necessidade de recuperação de todos os danos causados pela força das águas, também se levantou a exigência de encontrar caminhos que evitem que novos episódios de chuvas intensas voltem a devastar o território gaúcho.

Neste cenário, o conceito de cidades-esponja passou a ser debatido no Estado e ganhou mais destaque após a morte de seu principal idealizador, o arquiteto chinês Kongjian Yu, que faleceu em setembro. Considerado o “pai” da ideia, Yu tinha 62 anos e era considerado um dos urbanistas mais influentes da atualidade. Ele morreu em um acidente aéreo no Mato Grosso do Sul, quando visitava o Pantanal para observar de perto o que chamava de “a maior esponja natural do planeta”.

Yu defendia que “nunca vamos lutar contra a água e vencer”. Em suas palestras, inclusive durante a Conferência Internacional do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) 2025, realizada em Brasília, o arquiteto explicou que o segredo está em aprender a conviver com o ciclo da água e devolver espaço à natureza dentro das cidades. “Os danos causados pelo ciclo da água são mais perigosos do que as próprias emissões de carbono para as cidades”, afirmou na ocasião. “O que ocorre é que temos diferentes padrões de clima pelo mundo, mas estivemos propondo a mesma infraestrutura trazida dos colonizadores.”

Na prática, uma “cidade-esponja” é planejada para absorver e armazenar parte das águas das chuvas, permitindo que elas voltem aos lençóis freáticos, rios e oceanos de forma natural. Isso é feito substituindo parte das infraestruturas de concreto, como canais e dutos subterrâneos, por infraestruturas verdes, que incluem parques, jardins de chuva, áreas alagáveis e solos permeáveis.

Além de reduzir as inundações, o modelo cria novos espaços de convivência urbana, com vegetação nativa e valorização do ambiente natural. Segundo Yu, essas áreas verdes podem aumentar o valor das propriedades em até 400%, unindo sustentabilidade, estética e desenvolvimento econômico.

O conceito é inspirado em práticas milenares de povos asiáticos, que há séculos convivem com inundações e aprenderam a lidar com os ciclos de cheia e de seca. “Há 2 mil anos, agricultores chineses trabalham com base nesse modelo”, disse o arquiteto durante a sua conferência.

Projetos realizados pela empresa de Kongjian Yu:

Jinhua, China | Foto: turenscape / divulgação / cp

📌💦 Em Jinhua, cidade chinesa com mais de 1 milhão de habitantes, o último pedaço de pântano ribeirinho natural, com mais de 26 hectares, permanece intocado. Devido ao seu clima de monções, Jinhua sofre com inundações anuais. Por muito tempo, a estratégia para controlar as enchentes foi construir muros de contenção cada vez mais fortes e altos. Esses muros romperam a relação entre cidade, vegetação e água e exacerbaram a força destrutiva das inundações. O projeto Yanweizhou utiliza cortes e aterros, criando um talude fluvial em terraços, resiliente à água e coberto com vegetação nativa. Caminhos para pedestres, que podem ser inundados, são integrados a terraços de plantio.

Bangkok, capital da Tailândia | Foto: turenscape / divulgação / cp
📌💦 Em Bangkok, capital da Tailândia, no local de uma antiga fábrica de tabaco foi criado um sistema regenerativo de baixa manutenção que intercepta e reduz a força destrutiva da água da chuva, filtra a água contaminada e fornece um hábitat para a vida selvagem. A região apresenta um clima de monções, com precipitação média de cerca de 1500 mm por ano, o que sobrecarrega sistemas de drenagem e leva a graves inundações. O projeto foi concebido como um parque central capaz de fornecer regulação da drenagem pluvial e espaço para atividades recreativas e culturais.

Shangrao, China | Foto: turenscape / divulgação / cp

📌💦 A planície de três quilômetros de extensão ao longo do rio principal de Shangrao, na China, estava degradada por vegetação invasora e agricultura informal. As inundações sazonais tornavam o local praticamente inacessível, com cheias catastróficas ocorrendo a cada 20 anos. O projeto criou o Corredor Ecológico do Rio Xinjiang, transformando a planície aluvial degradada de 102 hectares em uma infraestrutura ecológica, aumentando a resiliência a inundações, restaurando habitats nativos e oferecendo espaços de lazer. O projeto incorpora as inundações como elemento de design, garantindo o acesso público durante todo o ano por meio de sistemas de pedestres em múltiplos níveis.

Aplicação e desafios no Rio Grande do Sul

O conselheiro federal do CAU/BR no Rio Grande do Sul, Carlos Eduardo Pedone, reforça que o conceito de infraestrutura verde é o oposto do modelo tradicional de drenagem, conhecido como infraestrutura cinza. “A infraestrutura cinza afasta a água do local onde ela cai, através de sarjetas e tubulações. Já a verde busca absorver a água no mesmo lugar, através do solo e da vegetação. É a infiltração local”, detalha.

Para o conselheiro federal do CAU/RS, o Estado teria muito a ganhar ao adotar o conceito, especialmente em regiões mais elevadas, como a Serra. “Nas áreas mais altas poderíamos infiltrar a água localmente, em vez de conduzi-la aos rios. O problema das enchentes em Porto Alegre, por exemplo, não vem só das chuvas que caem na Capital, mas das águas que descem de todo o Estado e acabam desaguando no Guaíba. As cidades da Serra não promoveram a infiltração local e, com o solo urbano impermeabilizado, a água não infiltra”, explica Pedone.

Apesar da importância do tema, o arquiteto admite que o Brasil ainda tem poucos exemplos concretos. “Temos poucas experiências de exemplos concretos de infraestrutura verde no Brasil. As cidades brasileiras ainda estão construídas dentro da ideia do afastamento das águas da cidade para depois a gente conduzir ela para os rios, o que causa o problema das enchentes e inundações. Em Curitiba, nós temos alguns exemplos, mas muito pontuais. Ainda não temos uma aplicação mais extensa”, afirma.

Aplicação em Porto Alegre

Em Porto Alegre, a adoção de princípios semelhantes começou a ser discutida dentro do Plano Estratégico de Reconstrução, criado após as enchentes que atingiram a Capital em maio do ano passado. O diretor de Áreas Verdes e coordenador do eixo de Infraestrutura do Escritório de Reconstrução, Alex Souza, explica que um dos focos é a transformação urbana, com ações voltadas a territórios que precisam conviver com a água.

Um dos principais projetos está sendo desenvolvido em parceria com a Universidade de Tecnologia de Delft (TU Delft), da Holanda. O trabalho, que conta também com cooperação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), prevê um plano urbanístico para a Região das Ilhas. “O projeto visa transformar a região para que se tenha áreas não utilizadas, enquanto outras serão preparadas para conviver com a elevação das águas, como acontece em cidades ribeirinhas em outros lugares do Brasil”, explica Souza.

Segundo ele, a parceria com os holandeses teve como primeira etapa a fase de diagnóstico, que incluiu levantamentos como a batimetria e o estudo da cobertura vegetal. “É preciso entender primeiro, para que depois tenhamos ações. Nas Ilhas será adotado, de certa forma, o conceito de cidade-esponja, para minimizar os impactos”, afirma.

Outro projeto em desenvolvimento é o do bairro Sarandi, na zona norte da Capital, nas proximidades das vilas Asa Branca e Elizabeth, em área próxima ao dique. Parte das famílias foi removida para a ampliação da estrutura e agora o plano é criar, do lado externo, um parque linear que funcione como zona de convivência com a água. “A ideia é construir um espaço protegido pelo dique, mas que tenha o potencial de lidar com a elevação do nível da água.”

Área no Bairro Sarandi onde a PMPA planeja construir Parque Alagável | Foto: Ricardo Giusti

Ele destaca que ambos os projetos ainda estão na fase inicial de estudos, mas já apontam para uma nova forma de pensar o urbanismo em Porto Alegre, “tornando a cidade mais resiliente para lidar com as águas”.

O conselheiro federal do CAU/BR no Rio Grande do Sul, Carlos Eduardo Pedone, lembra que transformar as cidades exige, primeiramente, uma mudança de conceito. “Hoje nós temos um sistema que impermeabiliza o território, recolhe a água nas sarjetas e a conduz a locais distantes, o que sobrecarrega os rios e afeta cidades mais baixas. A transformação das cidades passa por uma transformação conceitual, justamente da ideia de se utilizar o que a gente chama de infraestrutura verde, com jardins de chuva e valas de infiltração, entre outros métodos, para modificar o nosso sistema.”

Para aplicação destas transformações, o conselheiro cita o legado de Kongjian Yu como inspiração. “Ele tem muito claro que, através de parques urbanos é possível reter a água nas cidades, trabalhando o paisagismo com áreas inundáveis e utilização de passarelas sobre essas áreas. É um trabalho maravilhoso que ficou como legado.”

Pedone lembra que o próprio Pantanal, destino final da viagem de Yu, é uma “esponja natural”. “Ele citou o Brasil como um dos jardins do mundo. O Pantanal é uma grande esponja, com uma grande área de infiltração.”

O especialista acredita que o Rio Grande do Sul, castigado por desastres recentes, deve aproveitar esse momento para repensar o modelo de urbanização. “O nosso novo normal é conviver com eventos climáticos extremos. O Estado já passou por enchentes em 2023 e 2024 e os estudos indicam que isso vai continuar. Esses desastres não são naturais, porque estão vinculados à atividade humana, à construção das nossas cidades e à forma como a gente impermeabiliza o solo urbano”, afirma. Para ele, incorporar o conceito de cidade-esponja à reconstrução pode ser o ponto de virada.

Memorial alagável será construído em Cruzeiro do Sul, no Vale do Taquari

Em Cruzeiro do Sul, no Vale do Taquari, um dos municípios mais impactados pelas recorrentes enchentes que atingiram a região entre 2023 e 2024, o antigo bairro Passo de Estrela dará lugar a um grande parque alagável, transformando uma área de destruição em símbolo de reconstrução sustentável.

Localizado às margens do Taquari, o bairro foi completamente devastado pela força das águas, com mais de 200 residências destruídas em uma área de cerca de 250 mil metros quadrados. Classificado como zona de alta suscetibilidade à inundação, o local foi incluído no Mapa Único do Plano Rio Grande e considerado inviável para moradia.

Área onde ficava antes da enchente o bairro Passo de Estrela em Cruzeiro do Sul | Foto: Ricardo Giusti

A partir dessa realidade, o governo do Estado, a prefeitura e o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) firmaram um acordo para transformar o antigo bairro no Parque Linear Memorial do Passo de Estrela. A área será um espaço de memória coletiva para lembrar a tragédia de 2024 e reforçar o compromisso com a reconstrução sustentável. Também está em estudo a integração do parque com a área de Lajeado, na margem oposta do Rio Taquari, formando um Parque Intermunicipal.

A iniciativa integra o Plano Rio Grande e representa uma ação emblemática da reconstrução no Vale do Taquari. O projeto conta com investimento estimado em R$ 29,6 milhões e propõe um novo modelo de convivência com a água, inspirado em soluções baseadas na natureza.

Nos últimos meses, a área passou por intenso processo de limpeza, conduzido pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedur), com apoio da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema). Cerca de 10,6 toneladas de resíduos foram retirados. Um britador móvel de grande porte foi instalado para processar e reaproveitar os resíduos das construções demolidas, reduzindo o impacto ambiental e transformando escombros em material reutilizável.

O parque está sendo planejado com estruturas que permitam absorver e retardar o escoamento das águas pluviais, utilizando biovaletas, jardins de chuva, pisos permeáveis e áreas de reflorestamento. As soluções, conforme o governo do Estado, evitam ocupações urbanas na área de risco e colaboram para redução de danos com absorção e redução da velocidade da água em casos de novos extravasamentos do Rio Taquari.