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As novas gerações são, de fato, mais violentas?

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Toda geração parece, em algum momento, mais difícil de compreender do que a anterior. Os jovens de hoje não são os primeiros a ouvir que são mais frágeis, mais ansiosos ou menos preparados para lidar com o mundo. Talvez por isso, diante de comportamentos que parecem difíceis de explicar, seja tão automático tratá-los como o espelho de uma época, e não como atos individuais. Mas será que eles são, de fato, tão diferentes assim? Ao ser questionada sobre a manifestação de ansiedade, raiva e ódio entre os jovens, a psicóloga Indianara Sehaparini faz uma ressalva: “eu não acho que é geracional.” Para ela, “a violência sempre permeou e permeia as nossas vidas”, o que muda são os contextos em que ela aparece, a frequência com que episódios são percebidos e a atual capacidade de denunciá-los.

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No monitoramento do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve), o perfil dos casos acompanhados reflete mudanças concretas: a proporção de adolescentes saltou de cerca de 80% até 2025 para quase 96% em 2026, conforme revela o coordenador da iniciativa, o procurador Fábio Costa Pereira. Para Indianara, o aumento de ocorrências também se deve a uma complexidade social que ainda sente os impactos dos anos de isolamento sobre o acesso à educação e às políticas públicas, somados a um debate mais tolerante à intolerância.

É difícil imaginar como será o futuro ao qual Indianara se refere quando diz que “a gente vai lidar com isso muito mais daqui para frente”. Para quem era adolescente algumas décadas atrás, talvez o amanhã fosse pensado como um tempo de tecnologias, repleto de promessas de ferramentas capazes de aproximar pessoas, facilitar as tarefas e ampliar possibilidades. Hoje, parte dessa ideia de futuro já faz parte da primeira infância: em 2025, 28% dos brasileiros de 9 a 17 anos disseram ter acessado a internet pela primeira vez até os seis anos, segundo a TIC Kids Online Brasil. Ao todo, 92% alegaram que já eram usuários da rede.

Não se trata apenas do contato precoce, mas da experiência de crescer em um espaço que reúne oportunidades de descoberta e vivências para as quais ainda falta discernimento. Os casos de violência que vieram à tona nos últimos meses, ocorridos em comunidades digitais populares entre esse público, ajudam a dimensionar o outro lado da vida online. A pesquisa citada também mostra que entre 30% e 35% das crianças e adolescentes que usam a internet relataram contato com conteúdos prejudiciais sobre automutilação, discriminação ou violência extrema.

A psicóloga clínica e psicanalista Rosane Pereira lembra que a adolescência continua sendo um período de construção da identidade, mas acontece em um mundo “em permanente desenvolvimento”. A distinção comportamental, portanto, pode estar menos relacionada aos sentimentos do que às circunstâncias dessas manifestações. Para Indianara, olhar para esses comportamentos como características de uma faixa etária pode acabar desviando a atenção do contexto que os produz. “É social, não é um ato de juventude. Isso denuncia o social”, finaliza.