Por Estael Sias e Luiz Fernando Nachtigall, com produção de Alexandre Aguiar e infografia de Leandro Maciel
Quando as águas começaram a cair com uma ferocidade jamais vista no Estado nos últimos dias de abril, uma “tempestade perfeita” se instalava e a qual levaria ao desastre com as precipitações em volumes recordes e a enchentes sem precedentes. Nas últimas semanas, nós, meteorologistas da MetSul Meteorologia, recolhemos e analisamos todos os dados disponíveis do Rio Grande do Sul, Brasil e outras partes do mundo em esforço para reconstituir as condições que levaram a um dos mais tristes e dramáticos capítulos da história gaúcha, um verdadeiro quebra-cabeças.
A chuva que caiu foi descomunal. Somente em Porto Alegre, considerando a área do município e a chuva média observada na cidade, de 27 de abril a 31 de maio, foram mais de 300 bilhões de litros de água que caíram do céu. Os números no Estado são impossíveis de calcular pela baixa capilaridade de estações meteorológicas, mas são astronômicos. Na usina de Dona Francisca, no fim de abril, foi atingida a capacidade máxima do vertedouro (10.600 m³/segundo), valor equivalente à cheia decamilenar, logo o tempo de recorrência ou retorno estimado em 10 mil anos.
Os dados das estações meteorológicas mostraram que a chuva reescreveu a história do clima gaúcho. Jamais, desde o começo das medições, entre 1910 e 1913, havia chovido tanto e em tão curto período em diversas cidades. Santa Maria anotou 213,6 mm em 24 horas, o maior acumulado diário em 112 anos de medições, superando o recorde de 182,3 mm de 23 de junho de 1943. Porto Alegre, com dados de 1910, teve em maio não só o maio mais chuvoso já observado como o mês com maior precipitação da série histórica com 539,9 mm, superando o segundo que havia sido setembro de 2023, apenas poucos meses antes.
Os acumulados de chuva entre o fim de abril e o fim de maio, em intervalo de 35 dias, ficaram entre 500 mm e 1000 mm em quase todo o Estado. Vários municípios anotaram acumulados em dias equivalentes a um terço e até a metade da climatologia do ano todo. Casos do Vale do Taquari e da Serra, onde choveu mais de 1000 mm.
Por que choveu tão absurdamente?
Variabilidade natural do clima e mudança climática. O quebra-cabeças que levou ao desastre envolve peças que vão muito além dos limites do Rio Grande do Sul e são de escala global, passando por diferentes oceanos e condições a muitos milhares de quilômetros.
Elemento meteorológico central para a chuva extraordinária foi o Rio Grande do Sul estar entre duas massas excepcionalmente fortes de ar frio e quente. Uma por demais aquecida sobre o Brasil e outra gelada sobre a Argentina. O ar quente estava associado a um bloqueio atmosférico muito forte que fez com que a instabilidade permanecesse atuando por dias sobre o Rio Grande do Sul, despejando quantidades enormes de água e levando ao dilúvio catastrófico.
A diferença de temperatura entre o Brasil e a Argentina era imensa, com o Rio Grande do Sul no meio, juntamente com Santa Catarina e o Uruguai, que também sofreram com enchentes, embora menos graves.
Ao Norte, a cidade de São Paulo teve seu mês de maio mais quente até hoje e a estação oficial anotou no dia 5 a maior máxima já observada em maio desde o começo dos dados em 1943 com 32,8 ºC.
Ao sul, a Argentina gelava e foi forçada a pedir ajuda ao Brasil para o envio de gás a fim de evitar um colapso energético. Os primeiros dez dias de maio chegaram a ter marcas 7 ºC abaixo do normal no sul do país. Buenos Aires teve o maio mais frio desde 2016 com temperatura 2,3 ºC abaixo da média histórica.
Ainda mais ao sul, a chamada Oscilação Antártica, ligada ao cinturão de vento ao redor do continente gelado, teve pulsos negativos na virada de abril para maio, quando do dilúvio, e outro mais para o fim de maio, coincidindo com a chuva extrema de 150 mm em apenas um dia, em 23 de maio, em Porto Alegre. Períodos negativos da oscilação favorecem ar mais frio na Argentina e aumento da chuva no Sul do Brasil.
Entre as duas massas de ar de alta pressão (quente e fria) que inibiam chuva, a umidade na América do Sul acabou canalizada para o Rio Grande do Sul a partir da Amazônia por um corredor de vento em baixos níveis da atmosfera, chamado de corrente de jato, que avançava para sul a leste dos Andes e recurvava em direção ao Estado, formando sucessivamente nuvens carregadas com muita chuva e temporais – até com tornados - no fim de abril e início de maio.
O aporte de umidade foi “turbinado” pelo Atlântico Tropical Norte e Sul com as águas superaquecidas e com temperatura do mar em valores recordes. O mar mais quente leva mais umidade para a atmosfera. Parte deste ar úmido que deveria ter rumado de leste para oeste em direção ao Caribe América Central e México foi desviada por uma segunda e imensa bolha de calor, que causava escassez de chuva nestas regiões, para o norte amazônico, rumando depois para o Rio Grande do Sul pelo corredor de vento no interior do continente.
A Cidade do México, em maio, quebrou sucessivamente seus recordes de máxima, com até 34,7 ºC. No interior do país, a temperatura chegou a 51,1 ºC em Gallinas. Guatemala e Costa Rica tiveram seus dias mais quentes já observados em junho. Miami, nos Estados Unidos, com dados desde 1896, registrou o maio mais quente até hoje.
O superaquecimento oceânico se insere em um contexto de mudanças climáticas, uma vez que os oceanos absorvem 30% do dióxido de carbono na atmosfera, cujas emissões estão em níveis jamais vistos pela espécie humana. Nunca, desde o começo dos registros, a temperatura dos oceanos da Terra esteve tão alta quanto nos últimos 12 meses, com recorde por larga margem.
Maio, aliás, foi o mais quente já observado no mundo. Conforme o Sistema Copernicus, da União Europeia, a temperatura média do planeta no último mês foi 0,65 ºC superior à média 1991-2020 e 1,5 ºC acima do período 1850-1900. Foi o 12º mês seguido de temperatura global recorde. Entre junho de 2023 e maio de 2024 a temperatura do globo ficou 0,75 ºC acima da média 1991-2020 e 1,63 ºC superior ao período 1850-1900.
Ao mesmo tempo, no Pacífico Equatorial, o El Niño ainda estava presente, mesmo que nos seus últimos dias. Historicamente, o El Niño causa extremos de chuva e enchentes no inverno e primavera do seu primeiro ano, no caso 2023 no evento recém terminado, e no outono do ano seguinte ao seu começo, logo em 2024.
Estudo de atribuição rápida da World Weather Attribution, conduzido por cientistas do Brasil, Reino Unido, Holanda, Suécia e Estados Unidos, e publicado dias atrás, identificou o El Niño e as mudanças climática como causas principais da chuva extrema no Rio Grande do Sul.
Trabalho científico conduzido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 2015, de Valéria Borges Vaz, sobre enchentes em Porto Alegre, estimou a recorrência da cheia de 1941 em 114 anos. As mudanças climáticas, entretanto, parecem ter diminuído o valor da recorrência.
Conforme o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a tendência é que a elevação da temperatura do planeta leve a extremos de chuva mais frequentes e intensos no Rio Grande do Sul. O estudo de atribuição da World Weather Atributtion, a propósito, identificou que a crise climática aumentou em mais de duas vezes a probabilidade da chuva extrema no estado e a tornou de 6% a 9% mais intensa.
Porto Alegre, desde o começo dos registros em 1910, teve os dois meses mais chuvosos de sua história climática em maio de 2024 e setembro de 2023. O Guaíba, após 1941 (nível de 4,76 metros), levou 26 anos para exceder a cota de 3,00 metros e transbordar, em 1967 (3,11 metros). Após, foram necessários outros 56 anos até a enchente de setembro de 2023 (3,18 metros). E, depois, só 50 dias até a enchente de novembro (3,46 metros). Para meio ano depois, em maio de 2024, ter a maior cheia da história, com pico superior a 5 metros.
A recorrência de chuva extrema e enchentes dos últimos meses são uma evidência de que o clima se transformou. Com a tendência de o planeta aquecer ainda mais, extremos catastróficos como de 2023 e 2024 terão tempo de recorrência ainda menor. São um alerta, duro e sofrido, para o futuro. Que estamos em novo momento da nossa história climática, e diga-se perigoso.