“Eu sei que as pessoas esperam de mim, quando o Inter perde, alguém muito irritado, brabo, berrando e xingando. Eu vou dar isso para as pessoas”. A frase é do jornalista Fabiano Baldasso, provavelmente a figura mais emblemática para se explicar o boom dos influencers no futebol, pelo menos em termos de Rio Grande do Sul.
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Baldasso não surgiu há pouco tempo. Pelo contrário, trabalha no jornalismo esportivo há décadas. Mas foi quando percebeu que poderia trilhar o caminho por conta própria que mudou de patamar. “Era uma forma de me reinventar como comunicador para eu não virar um tiozão falando de futebol para outro tiozões”, explica ele, que hoje, além de comandar o Canal do Baldasso no YouTube, também participa do Debate Raiz, na mesma plataforma.
Assumidamente colorado, vai de 8 a 80 entre reclamações e comemorações. Admite já ter se incomodado com as críticas de que estaria encarnando um personagem. Hoje, não dá mais bola.
“Talvez eu seja um personagem, mas de mim mesmo. O Baldasso que tu vê no ar berrando, se cuspindo, vermelho, xingando e perdendo o controle, ele faz isso na vida pessoal também. Eu não estou representando alguém que eu não sou”, assegura.
Como os números indicam, a audiência comprou a ideia. No YouTube, as jornadas dos jogos do Inter seguidamente superam os 500 mil acessos - o duelo contra o Flamengo chegou a 1,2 milhão.
O movimento feito por Baldasso tem sido tentado por vários colegas, no Rio Grande do Sul e fora. A concorrência é cada vez maior: são jornalistas, estudantes, torcedores, ex-jogadores, comediantes e o que mais você puder imaginar. Cientes de que o futebol é um mercado polpudo e há públicos dos mais variados na internet, todos querem um pedaço.
Curiosamente, por mais que muitos façam a transição deixando a “mídia tradicional”, é justamente o selo profissional que dá mais respeitabilidade. “A passagem pelo veículo te dá credibilidade. Os caras podem até divergir, mas te respeitam”, reflete o jornalista Leonardo Meneghetti, que além de um canal próprio no YouTube, comanda o Debate Raiz.
Estrutura de redação
Coincidência ou não, alguns dos canais com os melhores números no Estado replicam as estruturas e práticas tradicionais de jornalismo, ainda que com uma linguagem mais despojada.
“Temos uma equipe grande remunerada. Temos equipamento profissional, viajamos. Sabemos como funciona uma redação, então conseguimos posicionar melhor nossos repórteres e trazer um produto melhor. Não é um hobby, trabalhamos mais do que antes”, revela Alex Bagé, que faz parte do Debate Raiz e comanda o Canal do Bagé.
Entre os pares, há leituras com um viés mais crítico acerca do papel de muitos influencers. Por exemplo, se lá atrás, os treinos dos clubes e entrevistas eram acompanhadas por quatro ou cinco veículos, hoje em dia esse número pelo menos triplicou, diferença que não necessariamente se traduziu em qualidade.
“Não quero segregar, mas tem diferença entre uma empresa de comunicação que está aí há 90 anos e alguns canais de YouTube. Não dá para tratar com a mesma importância. Um jogador está passando na zona mista, quero perguntar alguma coisa sobre tática e o cara do canal de torcedor vai perguntar se o árbitro roubou”, observa o jornalista e comentarista da Rádio Bandeirantes de São Paulo, Alexandre Praetzel.
Para o jornalista Paulo Vinícius Coelho, do canal Paramount+ e do Uol Esporte, a questão é que no caso dos influencers e canais identificados, a figura em si é tão importante quanto a notícia, o que gera uma distorção. “O (filósofo Marshall) McLuhan falava que o meio era a mensagem. Agora você é o meio e a mensagem. E se a mensagem for ruim, não importa o que vai causar, mas sim que você vai ganhar dinheiro”, aponta.
Na sequência, PVC completa: “Parte da imprensa que vai para a imprensa clubista percebe que isso é uma chance de ganhar dinheiro, o que gera um populismo digital. E isso é uma tragédia para a imprensa. Estamos colocando o oposto do que aprendemos como comunicação”.
Distância dos dirigentes
Da parte dos dirigentes, há quase um consenso em afirmar que a grande diferença está no relacionamento com os influencers. Ou melhor, não relacionamento. Afora dois ou três dos canais com mais escopo, a interação é só virtual. “Não existe contato, não se fala pessoalmente”, afirma o ex-presidente do Grêmio em 2009 e vice de futebol em 2018, Duda Kroeff.
Com passagem por vários dos principais clubes do país, o técnico Mano Menezes aponta outra questão. “Com um veículo por trás, você tem uma responsabilidade, o veículo cobra a sua postura, sobre as coisas que você minimamente tem que ter para estar escrevendo. Agora, quando você está fazendo no seu nome, você não sabe que interesse aquela pessoa tem”, questiona.
Mesma linha segue o coordenador executivo geral das Seleções Masculinas da CBF, Rodrigo Caetano. “Havia mais responsabilidade dos veículos. A crítica sempre existiu, mas era uma crítica mais preparada. Agora, às vezes o cara sai opinando do nada. Naquela época tinha que se formar, aprender, passar por etapas”, lembra.
Mercado ainda é um desafio
Seja pelos motivos que forem, se os influencers já conquistaram a audiência, ainda falta conquistar o mercado. Pelo menos as marcas mais tradicionais e de grande porte. À exceção de sites de aposta, que proliferam no Brasil, as contas mais caras ainda resistem aos conteúdos independentes na internet.
“As grandes marcas ainda estão majoritariamente nos veículos tradicionais de comunicação, eles têm um pouco de medo ainda”, afirma o jornalista Fabiano Baldasso, do Canal do Baldasso e Debate Raiz.
De acordo com ele, o receio estaria em vincular a marca a algo que não se tem tanto controle. “Se tiverem um problema com um grande veículo de comunicação, ligam para o presidente. Se tiverem um problema aqui, terão que falar com quem criou o problema”, explica.