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Big data no futebol: por que a análise de desempenho passou a ser vital?

Foto : Leandro Maciel

Quando Rodrigo Caetano, ainda nos primeiros anos da década de 2000, catalogava manualmente dados de atletas ao redor do mundo que poderiam se tornar potenciais reforços, a análise de dados e desempenho no futebol brasileiro ainda era mato. “Era bem difícil. Eu tinha um banco de dados customizado, feito a partir da minha rede de contatos. Era feito na mão, montava meu sistema de alerta quando os contratos estavam perto de vencer” , lembra o hoje coordenador executivo geral das Seleções Masculinas da CBF.

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De lá para cá, no entanto, o mato virou uma via expressa asfaltada com o melhor que a tecnologia e um mundo interconectado podem oferecer. Hoje em dia, é impensável imaginar qualquer clube das principais divisões do futebol brasileiro sem um departamento profissionalizado de análise de desempenho.

Nada que se compare à estrutura de gigantes como um Manchester City, que tem entre 30 e 40 profissionais voltados apenas para tirar informações das mais variadas a partir de um manancial gigante de dados. Mesmo assim, em se tratando de Série A, por exemplo, a média no Brasil é entre 5 e 10 analistas por equipe, e mesmo trocando o cenário para o Gauchão, a tendência é que cada clube tenha pelo menos uma pessoa executando o trabalho.

Mais do que um mundo conectado, foi a partir do boom de uma banda larga capaz de suportar transmissões de vídeos que a análise de dados passou a ser a fiel escudeira de comissões técnicas ao redor do mundo. Hoje, empresas situadas em lugares tão diferentes como Rússia, Índia e Equador municiam analistas de todo o planeta com uma enxurrada de dados, que são organizados de acordo com as necessidades de cada equipe.

Clubes criaram rede compartilhada

“O treinador pode querer saber, sei lá, quantas vezes na partida o time, no terço final do campo, em vez de finalizar, volta para a defesa. Não vou olhar o jogo todo para ver quantas vezes isso acontece. Mas tenho como configurar uma métrica dos últimos três meses sobre isso. E a resposta é quase em tempo real se você souber fazer a pergunta certa”, revela Rafael Pinto, analista de desempenho de futebol.

Mesmo em um ambiente permeado de competitividade, veio dos analistas um frescor de empatia. Desde 2018, os clubes gaúchos criaram uma rede informal. A cada jogo, seja pela série ou categoria que for, o clube mandante filma a partida. Ao final do duelo, a gravação é disponibilizada em um arquivo na nuvem, compartilhado por todos. A iniciativa deu tão certo que pouco depois foi replicada, desta vez com abrangência nacional.

“Se parar para pensar, não adianta tentar dificultar, porque os clubes vão conseguir as informações de qualquer jeito. Então achamos melhor padronizar, usar sempre a câmera tática (que capta o campo todo, de forma estática) e ter essa integração”, explica Rafael.

Com passagem pelo Grêmio entre 2015 e 2022, o analista lembra o que sempre ouvia de outro colega, Eduardo Cecconi: não basta extrair as informações a partir dos dados, é preciso saber comunicar isso à comissão técnica e, principalmente, aos jogadores. Da mesma forma, é preciso saber o que buscar naquele oceano de informações.

“A internet é a ferramenta que encurtou caminhos e trouxe atalhos, mas o que se faz com esses dados? É preciso treinar os olhos para buscar aquilo que vai me servir, é preciso contextualizar a situação”, afirma o analista, prevendo como o grande desafio em um futuro nem tão distante o treinamento da inteligência artificial.

Apesar dos dados, não há garantias

Nem todos os dados do mundo, contudo, são garantia de sucesso. É comum, principalmente em casos de pênalti, histórias em que os goleiros sabiam onde o adversário deveria chutar porque foram municiados com dados dos analistas. Ajuda, claro, mas nunca há certeza.

“Não controlamos a decisão dos jogadores. Tentamos passar a eles a melhor informação possível, mas ali na hora a responsabilidade continua sendo deles”, lembra Rafael.

Vale para o campo e também para os gabinetes. “Ficou mais fácil ter informações na hora de contratar, deveria ter ficado mais difícil errar, mas não é o que temos visto”, afirma Duda Kroeff, ex-presidente do Grêmio.

“Sou um pouco decepcionado com isso. Tu traz o cara e não tem como dar errado, mas aí ele não gosta de Porto Alegre e não dá certo”, completa o ex-dirigente.

De fato, sobre alguns fatores não há big data suficiente que dê conta. “Não se controla o imponderável, se o jogador vai se adaptar ao clube, à cidade, à distância da família. Não é uma ciência exata”, pondera Rodrigo Caetano.