Especial

Cães farejadores transformam a efetividade policial

Com até 50 vezes mais capacidade que o olfato humano, ‘policiais de quatro patas’ entregam precisão e estratégia no combate ao crime

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. Foto : Camila Cunha

Eles não falam nem carregam armas. Ainda assim, estão entre os agentes mais eficientes da segurança pública no Rio Grande do Sul. Com faro altamente treinado, disciplina e uma conexão profunda com seus condutores, os cães policiais vêm transformando a atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Brigada Militar, Polícia Civil e Polícia Penal, ampliando resultados no combate ao tráfico, na prevenção ao crime e na segurança institucional.

Na Polícia Rodoviária Federal (PRF), o trabalho é realizado pelo chamado Grupo de Operações com Cães. Atualmente, a equipe da PRF conta com cinco cães especializados na detecção de drogas, armas e munições, conduzidos por três operadores. “Atuamos em todo o Rio Grande do Sul e também em missões nacionais quando somos convocados”, explica André Espíndola, chefe do Grupo de Operações com Cães da PRF. “O cão é uma ferramenta técnica fundamental. Onde o nosso olhar não alcança, o faro do cão chega”, destaca.

Segundo ele, a diferença biológica explica os resultados: enquanto o ser humano possui cerca de 6 milhões de células olfativas, os cães contam com aproximadamente 300 milhões, o que torna o faro canino até 50 vezes mais eficaz.

Os cães são decisivos em fiscalizações de ônibus, bagagens e caminhões. “Muitas vezes a droga está dissimulada em meio a cargas lícitas. O faro altamente apurado nos dá uma precisão muito grande e aumenta significativamente a eficácia das apreensões”, afirma. Os agentes da PRF já estão acostumados a detectar cargas ilegais escondidas em diferentes tipos de objetos.

Certa vez, mesmo sem o auxílio do cão, os próprios policiais detectaram anabolizantes e canetas emagrecedoras que vieram dentro de ônibus escondidas dentro de aparelhos de som, por exemplo. Quando os cães entram em ação, a efetividade policial ganha reforço.

Com faro treinado, disciplina e conexão com seus condutores, os cães policiais ampliam resultados no combate ao tráfico, na prevenção ao crime e na segurança institucional | Foto: Camila Cunha

Em um caso recente, no mesmo dia em que a equipe do Correio do Povo estava acompanhando uma fiscalização com cães da PRF, os policiais rodoviários federais abordaram um ônibus que fazia a linha Mariluz (RS) x Porto Alegre e, com a ajuda dos cães farejadores, encontraram duas malas repletas de tabletes de crack no bagageiro do veículo. Ao todo, 55 quilos da droga foram apreendidos. Junto às passageiras responsáveis pelas malas, foram encontradas mais duas mochilas com entorpecentes. As suspeitas foram imediatamente encaminhadas para a Polícia Judiciária.

Referência nacional e atuação ampliada

Na Brigada Militar, o emprego dos cães é ainda mais abrangente. A corporação possui 94 cães de trabalho, distribuídos entre o Canil Central, em Porto Alegre, e 12 canis regionais espalhados pelo Estado. “Atualmente, a maior demanda institucional dos nossos cães é a detecção de drogas e armas de fogo. Todos os nossos cães realizam esse tipo de trabalho”, destaca o capitão Pedro Ribeiro, comandante do Canil Central da Brigada Militar.

Os cães também atuam com efeito dissuasório em grandes eventos, na prevenção e contenção de conflitos e agressões. “Assim como a cavalaria, os cães prestam apoio às tropas em jogos, manifestações e grandes aglomerações”, salienta.

Além da rotina operacional, a BM é referência nacional na detecção de explosivos, com atuação em eventos internacionais. “Muitas delegações só ocupam espaços depois que um cão de detecção de explosivos faz a varredura. Isso faz parte de protocolos internacionais de segurança”, explica o capitão. “Enviamos nossos cães de detecção de explosivos, a nossa equipe de detecção de explosivos, à COP30, que ocorreu em Belém. Ficaram um mês lá trabalhando, fazendo vistorias preventivas nos locais em que as delegações ficam. Já trabalharam também em evento dos Brics, no Rio de Janeiro. Ano passado também trabalharam em eventos de magnitude internacional”, relata o capitão Ribeiro.

Precisão no momento decisivo

Na Polícia Civil, um dos principais núcleos de atuação com cães está no Canil do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc). O canil conta com cinco cães, sendo quatro para narcóticos e um para componentes explosivos. “O nosso emprego não é exatamente na investigação, mas no final dela, durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão”, explica o comissário André Vizeu, chefe do canil do Denarc.

Segundo ele, os cães localizam ilícitos que dificilmente seriam encontrados sem o faro canino. “Já tivemos situações em que o criminoso cortou o carro, soldou, pintou e o cão ainda assim localizou. Sem o cachorro, isso não seria possível.”

Entre os casos marcantes, Vizeu cita drogas escondidas no tanque de combustível de veículos e até nos pés de uma mesa. “O cão vai direto. É como uma visão de raio-x”, compara.

Segurança e agilidade dentre dos presídios

No sistema prisional, os cães também cumprem papel estratégico. A Polícia Penal do Rio Grande do Sul conta hoje com cerca de 20 cães, empregados principalmente na detecção de ilícitos em galerias e pátios.

“O cachorro enxerga o mundo pelo olfato. Ele raciocina pelo cheiro”, resume o policial penal Anderson Moraes Cardoso, coordenador estadual do grupo de Operações com Cães da Polícia Penal. Segundo ele, o impacto é imediato na segurança. “Sem o cão, uma busca pode durar cerca de uma hora. Já realizamos uma operação em 16 minutos com a ajuda deles”, relata. “Isso diminui o tempo em que os presos ficam contidos no pátio, reduz o risco de motim e aumenta a segurança dos servidores.”

“O cão traz agilidade, aumenta o sucesso da ação e diminui o risco para todo mundo que está ali”, destaca.

A eficiência dos cães ficou evidente recentemente durante uma ação na Penitenciária de Charqueadas, realizada como parte do curso de formação de novos condutores de cães da Polícia Penal. “No penúltimo dia do curso, tivemos uma operação real. Um dos cães realizou a detecção de 1,2 quilo de entorpecentes, entre cocaína e maconha. Se não fosse o cão, a gente não teria conseguido localizar esse material”, afirma Cardoso. “Dentro de um centro prisional, essa quantidade é muito significativa.” Nas ruas, residências ou ambientes prisionais, o faro canino permite localizar ilícitos escondidos em locais improváveis — uma vantagem crucial em ambientes em que a criatividade para ocultação é constante.

Binômio: base do sucesso

Apesar das diferentes áreas de atuação, todos os entrevistados convergem em um ponto: o sucesso das operações depende do binômio, a dupla entre o policial e o cão. “Existe um vínculo muito forte entre condutor e animal e, na abordagem policial, o cão é um recurso técnico indispensável”, destaca André Espíndola, da PRF. “O policial só de olhar para o cachorro sabe se ele está bem para trabalhar”, reforça o capitão Pedro Ribeiro.

Com suas fardas especiais, os cães Simo (E) e Guri mostram eficiência durante fiscalização de ônibus interurbanos na BR-116 | Foto: Camila Cunha

“É difícil explicar o vínculo. O cão acaba trabalhando por nós, mas a gente também usa o cão para nossa proteção. É uma ferramenta que cria um laço que vai além do serviço”, relata Cardoso. Na maioria dos casos, a parceria se estende para fora do trabalho. “Eles vivem conosco, vão para casa conosco.” Fora do expediente, a convivência continua. “Ele sai para correr comigo, toma chimarrão comigo. É parte da minha família.”

Na Polícia Penal, a aposentadoria dos cães ocorre após oito anos de serviço ou 10 anos de idade e, em 99% dos casos, o animal permanece com o condutor. “A gente não consegue doar. Não seria bom para o cão. Vão para casa conosco”, diz Cardoso.

Brincadeira para eles, trabalho para a Polícia

Apesar da seriedade das operações, para os cães tudo é encarado como diversão. O método de adestramento é baseado na associação entre o odor da droga e um brinquedo, geralmente o objeto preferido do animal. “O cachorro não está buscando droga. Na cabeça dele, ele está procurando a bolinha. Quando encontra o odor, ele ganha o brinquedo. Por isso, para ele, é sempre uma grande brincadeira”, explica o comandante do Canil Central da Brigada Militar.

Essa técnica torna o trabalho saudável e não estressante. “Eles estão se divertindo o tempo inteiro. Para nós é trabalho, mas para eles é a brincadeira que mais gostam”, resume.

Para a área da segurança, os cães devem ter personalidade específica | Foto: Camila Cunha

Além de atuar nas operações, os canis policiais também são responsáveis pela gestão administrativa dos cães, incluindo cuidados veterinários, controle de medicamentos, vermífugos, higiene e saúde. “Eu coordeno o uso dos cães nas operações, mas também opero junto. Tenho meu cão, participo das ações e faço toda a parte administrativa”, explica o policial penal Cardoso.

O treinamento é contínuo. “Mesmo depois de formados, os cães seguem treinando. Eles são atletas”, reforça o capitão Ribeiro, da Brigada Militar.

Atualmente, as diferentes corporações trabalham com cães de raças específicas, como pastor alemão, pastor-belga malinois, pastor holandês e border collie. Entre eles, na Polícia Penal, estão Logan, cão de Anderson; Cassius, conduzido por outro servidor; e Mohoc, integrante de uma das equipes regionais. As raças são escolhidas conforme o temperamento associado ao seu perfil genético. Segundo o capitão Ribeiro, é importante que os cães tenham um emocional controlado e obediente, além de resistência física elevada, características que são avaliadas antes da adoção dos novos policiais caninos.

“Assim como quando uma pessoa vai ingressar numa instituição, no caso da Brigada Militar, ela tem que passar por um concurso público e um teste de aptidão física. Com o cão policial é a mesma coisa, ele tem que ter um padrão controlado, não pode ser um cão agressivo, e tem que ser um cão que gosta de fazer atividade física. Tem que ser um cachorro que gosta de brincar, que faça as atividades com vigor, porque isso tudo vai englobar o processo de adestramento dele”, detalha Ribeiro.

Segundo o capitão, o comportamento canino é fundamental durante as operações. “Eles têm que ter uma capacidade de controle, justamente porque vão interagir com um público bastante heterogêneo. Ao mesmo tempo que eu vou com um cachorro, por exemplo, em uma escola – a gente vai a escolas fazer ações cívico-sociais e as crianças interagem, fazem carinho no nosso cachorro –, esse cachorro pode ser empregado, por exemplo, em um jogo de futebol e pode, de repente, acontecer de ele ter que morder alguém que tenha tentado atingir o nosso efetivo.”

Engrenagem integrada

O trabalho preventivo da Brigada Militar se soma às ações da PRF, da Polícia Civil e da Polícia Penal, formando uma rede integrada de atuação com cães em todo o Estado.

Nas rodovias, nas ruas, nos grandes eventos ou dentro dos presídios, os cães farejadores seguem sendo aliados silenciosos, eficientes e leais. Em cada indicação precisa, em cada operação bem-sucedida, eles provam que, muitas vezes, os policiais mais assertivos no combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado caminham sobre quatro patas — e trabalham em perfeita sintonia com os colegas humanos.