Temperaturas altas, passando dos 35ºC. Sol escaldante. Ilhas de calor em meio ao concreto armado das grandes cidades. As primeiras semanas de 2026 estão sendo marcadas pela prevalência de dias mais quentes. A sequência de períodos de calor intenso oferece riscos à saúde para parte da população, inclusive com aumento no número de mortes.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), instituição da Organização das Nações Unidas (ONU), confirmou que 2025 foi o terceiro ano mais quente da história, 2024 foi primeiro e 2023 o segundo em 175 anos de registro sobre o tema.
Além do potencial de causar mal estar e danos para o organismo, o calor extremo pode levar até a morte em determinadas situações. Um estudo elaborado por cientistas de diversos países e publicado em outubro pela revista “The Lancet”, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), apontou que, entre 2012 e 2021, o calor extremo provocou a morte de cerca de 550 mil pessoas por ano no mundo. Intitulado de “Contagem regressiva em saúde e mudanças climáticas”, a pesquisa aponta ainda que os óbitos relacionados ao calor aumentaram 63% se comparado com a década de 1990, quando foram registradas 335 mil mortes por ano.
No Brasil, a publicação estima que foram 3,6 mil mortes por ano relacionadas ao calor no período de 2012 a 2021. Outro dado do estudo destaca que, apenas em 2024, outras 154 mil mortes ocorreram em função da fumaça de incêndios florestais.
O relatório destaca ainda que, em todo o mundo, a média de dias por ano nos quais as pessoas enfrentaram calor extremo foi de 19. Conforme os pesquisadores, deste total, 16 dias só ocorreram em função das mudanças climáticas. Além disso, o trabalho apontou que, em 2024, cada pessoa no mundo foi exposta, em média, a mais de 1,6 mil horas de risco de estresse térmico durante exercícios leves em ambientes externos, sob influência do calor extremo. O número é cerca de 36% maior do que o registrado na década de 1990.
Para os pesquisadores, os impactos da exposição ao calor extremo refletem na disposição para o trabalho, principalmente para quem trabalha ao ar livre, para a prática de atividades esportivas ao ar livre e na qualidade do sono, afetando diretamente a saúde física e mental das pessoas mais vulneráveis aos seus efeitos. Pessoas idosas, pacientes com comorbidades ou doenças crônicas, crianças e grávidas fazem parte do principal grupo de risco aos impactos do calor.
O relatório cita ainda que os reflexos do calor extremo na população economicamente ativa causaram, apenas em 2024, uma perda em potencial de cerca de 1,1 trilhão de dólares, cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Além disso, outros 304 bilhões de dólares foram perdidos em todo o mundo no mesmo ano por conta de eventos climáticos extremos, como enxurradas, enchentes e secas.
A presença de dias quentes é uma realidade que chegou para ficar. Para pessoas que residem em locais com maior incidência de temperaturas altas e para quem trabalha ao ar livre, debaixo do sol, como agentes de segurança pública, vendedores ambulantes e profissionais da construção civil, não são incomuns os relatos de transtornos vividos em função do calor extremo. Desidratação, insolação ou mal-estar podem fazer parte da rotina desses trabalhadores, principalmente se não estão preparados para enfrentar as altas temperaturas.
Morando há mais de uma década no Rio Grande do Sul, o paraense e encarregado de obras Ely Martins, de 45 anos, conta já ter sofrido com transtornos relacionados ao calor em seu trabalho e ressalta a importância de estar preparado. “Trabalho em obras há 27 anos. Tanto o calor quanto o frio são desgastantes. Tive queimadura no passado. Estava preocupado em produzir mais e não tive os cuidados necessários para me proteger. Foram algumas semanas até a pele cicatrizar. Mas serviu de aprendizado. Anos antes, um colega também estava despreparado e passou mal. Baixou a pressão e tudo mais. Tivemos que levar para atendimento médico. Tudo isso serve para evoluirmos profissionalmente, nos acostumando com esses períodos e nos preparando para eles”, contou Martins.
Entre os cuidados que ele reforça em dias de calor extremo, estão a hidratação, o protetor solar e o uso de camadas adicionais de roupas com proteção UV, como mangas longas e chapéus, apesar da sensação de abafamento que causa. “Com esses cuidados, ao menos, é possível amenizar o calor e a radiação solar. Melhor ficar com muita roupa do que ter queimadura. Nessa situação, a sensação é o de menos. O pior é afetar a saúde, ter queimadura ou mesmo agravar para um câncer de pele.”
Cuidados de saúde em dias de ondas de calor
Os efeitos do calor extremo atuam diretamente no sistema cardiovascular. O médico Carlos Kalil, cardiologista e líder do Centro Internacional de Arritmias, localizado no hospital São Francisco da Santa Casa de Porto Alegre, explica que a elevação extrema da temperatura aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio, arritmia e descompensação de condições preexistentes, como insuficiência cardíaca, estando relacionada diretamente com o aumento da morbidade e mortalidade por doenças cardiovasculares.
Kalil destaca que, entre as medidas para reduzir os efeitos do calor, é necessário que as pessoas, principalmente as que pertencem ao grupo de risco, mantenham-se hidratadas, utilizem roupas leves, evitem exposição a momentos de maior pico de temperatura e mantenham ambientes arejados ou resfriados. Além disso, orienta que busquem, junto aos médicos, reavaliar medicações em uso, pois pode haver necessidade de ajuste de doses, principalmente em diuréticos e outras medicações com efeitos anti-hipertensivos.
“A exposição ao calor gera duas situações comuns. Primeiro, pode ocorrer desidratação. O organismo fica com menos líquido circulante do que o necessário. Além disso, o calor gera vasodilatação, ocorrendo uma redistribuição do volume e diminuindo o aporte de sangue para órgãos nobres, como coração e cérebro. Essas condições, quando somadas, podem representar um problema significativo para o indivíduo, podendo exacerbar doenças cardiovasculares.” Quando isso ocorre no organismo, há risco alto de hipotensão (queda da pressão arterial), gerando sintomas do tipo mal-estar, tonturas, escurecimento da visão ou desmaio e também de arritmia ou isquemia miocárdica. “Além disso, a perda acentuada de fluidos pode causar danos renais e contribuir para estados protrombóticos, culminando com ruptura de placas e eventos como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico.”
O médico reforça que pessoas, principalmente idosos, portadores de doenças como hipertensão, diabetes, obesidade, doença arterial coronariana, arritmia, insuficiência renal ou insuficiência cardíaca podem ter sua situação agravada durante ondas de calor. Ele também cita que pessoas que trabalham ao ar livre podem ser acometidas pelos efeitos das altas temperaturas, mesmo não sendo portadoras de comorbidades.
Desta forma, o médico considera que a exposição ao calor extremo representa risco significativo para a população. “Todos os trabalhadores expostos ao calor extremo devem tomar muita água e, dentro do possível, utilizar roupas leves. Isso vale também para quem pratica atividade física ao ar livre, seja recreativa, como os corredores de final de semana, ou competitiva. É importante ressaltar que, mesmo que não sejam portadores de doenças, esses indivíduos devem manter acompanhamento médico regular visando principalmente o controle de fatores de risco”, salientou o cardiologista.
Os alertas também são reforçados pelo presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio Grande do Sul (Socergs), o médico André Luis Câmara Galvão. “As tonturas podem indicar oscilações da pressão arterial, especialmente em idosos, e não devem ser interpretadas como algo sem gravidade. Outro erro comum no verão é reduzir por conta própria a dose de medicamentos para pressão. Qualquer ajuste deve ser feito somente com orientação médica, pois mudanças inadequadas podem resultar em complicações mais sérias”, alertou Galvão.
Monitoramento e alerta para próximas décadas
A Prefeitura de Porto Alegre, através da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, monitora a temperatura em diversas regiões da cidade e a qualidade do ar, características relacionadas com o calor extremo. Além disso, o Plano de Ação Climática desenvolvido também faz uma análise preditiva dos efeitos das ondas de calor na Capital.
O plano prevê aumento da intensidade dos riscos relacionados com o calor extremo entre 2030 e 2050. Além do entendimento de que idosos, crianças, gestantes e pessoas com comorbidades fazem parte do grupo de risco, o plano de ação climática inclui na lista, considerando a realidade de Porto Alegre, coletores de materiais recicláveis e pessoas em situação de vulnerabilidade social que vivem nas ruas.
Para o último ano da análise preditiva, é apontado que grande parte da cidade estará classificada com risco “alto” ou “médio” para o efeito climático, principalmente por conta da intensa urbanização, concentrando estruturas, edificações e sistemas viários, mas com pouca área verde. Isso faz com que os bairros considerados de maior risco para a população por conta do calor extremo em 2050 sejam Bom Jesus, Bom Fim, Cidade Baixa e a Vila João Pessoa.
Por outro lado, o documento cita os bairros considerados com risco “baixo” para calor extremo em 2050: Bela Vista, Praia de Belas, Anchieta, Arquipélago, Humaitá, Jardim Europa, Jardim São Pedro, Navegantes, Três Figueiras, Jardim Isabel, Pedra Redonda, Sétimo Céu, Vila Assunção, Vila Conceição, Agronomia, Belém Novo, Chapéu do Sol, Extrema, Lageado, Lami, Pitinga e São Caetano.
A presença de determinados bairros na lista, por sua característica geográfica (próximos de cursos d’água e/ou áreas verdes) ou socioeconômica (com população de maior poder aquisitivo), evidencia que a classificação de risco para os efeitos do calor extremo também sofre reflexos da desigualdade social.
População vulnerável sofre mais
A professora do Programa de Pós-Graduação em Qualidade Ambiental e líder do projeto Laboratório de Vulnerabilidades, Riscos e Sociedade (LaVuRs) da Universidade Feevale, Danielle Martins, explica que as comunidades consideradas mais vulneráveis estão mais suscetíveis ao calor extremo por conta de características relacionadas com a desigualdade social, entre elas, o acesso a direitos e recursos básicos, como a água. “A água é fundamental para o enfrentamento das ondas de calor, pois ajuda no resfriamento, na hidratação e na higienização. Outro aspecto de vulnerabilidade que encontramos são as casas que não possuem conforto térmico, com coberturas que superaquecem os ambientes. A disposição das cidades também afeta, com populações mais vulneráveis ocupando espaços que são mais quentes. Tudo isso são condições que demonstram como a desigualdade social amplia os prejuízos de populações vulneráveis em ondas de calor”, contou a professora.
Danielle reforçou que as ondas de calor estão entre os fenômenos climáticos que mais matam no mundo, com aumento nos registros de mortes por infarto e na desidratação de comunidades por falta de acesso à água potável, especialmente nas populações idosas. Com a tendência de esses fenômenos se tornarem cada vez mais frequentes, a pesquisadora aponta a necessidade da criação de um programa nacional de combate e resiliência às ondas de calor.
“Precisamos disso para que as populações consigam se adaptar e passar por esses períodos com a menor perda possível. No Brasil, lidamos com inúmeros desastres, mas o calor extremo ainda não é tão falado aqui. Temos que entender que vegetação, microclima e outros fatores são fundamentais para conseguir lidar com temperaturas extremas. Isso precisa ser incorporado no planejamento urbano para reduzir as ilhas de calor, removendo o cinza e aumentando o verde em nossas cidades”, completou.
A pesquisadora destaca ainda que as consequências da onda de calor vão além de mal-estar e tontura. Ela cita, como exemplo, o comprometimento no processo de aprendizagem escolar e também no desenvolvimento de crianças. Entre as ações em nível regional que a professora indica para serem tomadas em momentos de calor extremo está, em um primeiro momento, o mapeamento das pessoas e regiões que mais sofrem com o fenômeno.
“É preciso propiciar acessos a medidas de conforto térmico para essas comunidades. Outra opção também seria criar abrigos para essas pessoas em períodos de onda de calor, além de fornecer espaços de busca por água potável segura para que possam se refrescar. Também precisamos de um processo de revegetação das cidades, especialmente dos bairros mais quentes”, concluiu.
Calor extremo cada vez mais frequente exige mudanças no planejamento urbano
Para o arquiteto e urbanista Tiago Balem, que é professor de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Feevale e membro do grupo de Pesquisa e Extensão do Laboratório de Vulnerabilidade, Riscos e Sociedade (LaVuRs), o registro cada vez mais frequente de ondas de calor faz com que seja necessário repensar o planejamento urbano. Para ele, que também é doutor em Planejamento Urbano e Regional, as ilhas de calor são resultado de uma estratégia que ignora o funcionamento do clima e da natureza. “As ilhas de calor urbanas são um efeito que ocorre quando os materiais presentes na cidade absorvem muito calor durante o dia e o liberam muito lentamente à noite, fazendo com que as cidades permaneçam mais quentes. Ou seja, quanto maior é o volume de materiais que absorvem mais o calor, maior será a temperatura próxima deles. Portanto, o problema está principalmente no modo como a cidade é planejada e construída e não apenas nos materiais e no sistema construtivo.”
Para reduzir esses impactos, o professor aponta que são necessárias políticas públicas integradas, combinando planejamento urbano e educação ambiental. Entre elas, Balem cita a ampliação e qualificação das áreas verdes, incluindo corredores verdes e arborização de ruas e calçadas. “Árvores não apenas produzem sombra, mas ajudam a resfriar o ar, melhoram a qualidade ambiental e tornam os espaços públicos mais habitáveis.”
O pesquisador também aponta a importância dos planos diretores e códigos de edificações, que devem atuar como instrumentos de estímulo e benefício para projetos que adotem melhores soluções sustentáveis, com desconto em impostos, por exemplo. “Esses incentivos devem prever reduzir a absorção de calor com o uso de materiais mais refletivos em coberturas, telhados verdes, fachadas com vegetação e maior permeabilidade do uso do solo. Além disso, essas leis devem estimular o setor produtivo a industrializar o sistema construtivo para reduzir a quantidade de resíduos de obras.”
Ele também indica algumas ações a serem tomadas via poder público para reduzir os impactos do calor extremo nas cidades. “Os governos devem requalificar os espaços com integração entre infraestrutura verde e azul. É necessário renaturalizar o solo urbano e as infraestruturas cinzas. As prefeituras podem ainda prover as cidades com ‘Oásis Urbano’, que são estruturas com sombra, banheiro, água potável e, quando possível, refrigeração artificial. Como forma de ação social, a educação para prevenção é fundamental, fornecendo instruções à população do que fazer quando ocorrem ondas de calor”, disse.
Balem também corroborou o fato de que a desigualdade social é fator que influencia quais setores da população sofrem mais com o calor extremo. “É de conhecimento científico que as pessoas de baixa renda são as mais expostas, pois vivem em áreas com menos árvores, habitações precárias e pouco acesso a espaços públicos verdes de qualidade. As políticas de adaptação climática precisam priorizar esses territórios, direcionando investimentos também em equipamentos públicos que funcionem como pontos de emergência durante ondas de calor extremo”, salientou.
O registro cada vez mais frequente de ondas de calor refletiu também em busca por adaptações nos métodos construtivos, de acordo com o pesquisador, como captação e reutilização de água da chuva, fachadas ventiladas, disposição inteligente, isolamento térmico adequado e outras características. “Observa-se uma mudança gradual de foco, como a melhoria do uso dos elementos construtivos com melhor desempenho técnico. Além disso, observamos o uso de materiais e sistemas industrializados, que produzem menos perda e resíduos de obra.”
Como o calor extremo é um fenômeno que atinge uma região como um todo, Balem reforça ainda que é preciso ter planejamento urbano e regional articulados. “No campo acadêmico, cresce a compreensão de que tais problemas são manifestações de um sistema urbano que desconsiderou as propriedades ecológicas do território, como ciclos da água, regulação térmica e massas vegetativas. Isso tem impulsionado abordagens interdisciplinares que tratam a cidade como um sistema socioambiental, no qual clima, forma urbana, infraestrutura e desigualdade social estão intimamente articulados”, concluiu.