Especial

Canais oficiais dos clubes aproximam torcida, mas se esquivam das crises

Foto : Leandro Maciel

A internet ainda não navegava em alta velocidade na primeira década dos anos 2000, quando os sites oficiais dos clubes de futebol brasileiros viraram praticamente regra. Como nas demais áreas, não eram nada parecidos ao que se vê hoje em dia, principalmente pela capacidade técnica. Ainda assim, eram um embrião do que mais tarde viria a ser a tentativa das agremiações em encurtar a distância entre a instituição e o torcedor: os canais oficiais.

Confira o especial completo ‘Como a internet mudou o futebol’

A meta era estabelecer uma comunicação direta, capaz de fidelizar a torcida com conteúdos inéditos. Aqui no Estado, o pioneirismo foi tricolor, com a Grêmio TV. Hoje na Rádio Guaíba, o jornalista Rafael Pfeiffer estava no time capitaneado pelo então assessor de imprensa do clube Haroldo Santos.

“A ideia era produzir conteúdo além do futebol. Queríamos criar um portal de notícias no site do Grêmio, com entrevistas, notícias de treino com fotos, material completo do jogo”, lembra Pfeiffer, citando programas sobre as categorias de base, departamentos consulares e até mesmo transmissões de partidas que não tinham seus direitos negociados, como categorias de base.

Como era de se esperar em se tratando de um veículo oficial, a cobertura tinha suas particularidades e a mais óbvia era um conteúdo menos crítico em momentos negativos.

“Se o Grêmio ganhava, o repórter fazia pergunta. Se perdia, cobria, mas não perguntava. Nossa justificativa era: ‘Eu sou rádio do clube. Não posso apertar o treinador por uma derrota, mas também não posso aliviar para não perder o respeito da imprensa tradicional’. A gente queria ser visto como um veículo de imprensa, não só um braço do clube”, revela Pfeiffer.

Atualmente, os principais clubes do Brasil contam com canais próprios, a grande maioria no YouTube e nas redes sociais e todos com ampla capacidade de engajamento. As críticas, contudo, continuam de fora. “A minha impressão é de que o torcedor gosta do canal oficial, mas não sei, por exemplo, se a Flamengo TV vai vingar como meio de comunicação no meio de uma crise”, observa o jornalista André Rizek, do canal SporTV.

“O clube nunca vai divulgar salários atrasados ou informações negativas sobre jogadores”, aponta o repórter Cristiano Silva, da Rádio Guaíba.

Não que isso surja como novidade ou uma postura equivocada dos clubes. Pelo contrário, é exatamente isso que se espera em se tratando da comunicação elaborada pela instituição. “Há um enquadramento nas informações divulgadas pelo clube, são matérias produzidas pela assessoria, que buscam preservar e consolidar a imagem e a reputação da organização, principalmente através das redes sociais”.

A observação acima é da professora do curso de jornalismo da Unisinos e doutora em Comunicação e Informação, Sabrina Franzoni, que completa: “Temos que entender que os veículos de imprensa, incluindo os canais alternativos, têm como foco serem vetores de conflitos e problematizações. Esse é o papel essencial dos veículos de comunicação. O papel do clube e das redes do clube é outro”.

A própria forma como a informação oficial passou a circular no futebol mudou muito nas últimas décadas. Antes, o acesso da reportagem era quase irrestrito, o que era bom para o jornalista, mas talvez não tanto para o clube.

“Muitas vezes crises eram desencadeadas em cima de entrevistas que eram feitas informalmente”, observa o ex-presidente do Inter, Fernando Carvalho.

Aos poucos, os caminhos foram desaparecendo, ao ponto de atualmente as entrevistas ficarem restritas ao pós-jogo ou algum conteúdo produzido e divulgado pelos clubes durante a semana. As portas hermeticamente fechadas, curiosamente, criaram um paradoxo. “Se eu ficar escondendo, protegendo ou abafando a informação, você vai escrever sobre outra coisa. E isso dá margem para especulação, o que às vezes não é bom para o clube”, observa outro ex-presidente colorado, Marcelo Medeiros.

Ou, dito de outra forma por Cristiano Silva: “Quanto mais os clubes dificultam o acesso e a informação, mais o jornalista é incentivado a investigar e descobrir o que o clube não quer que seja descoberto”.