Especial

Caravana gaudéria e mateada em NY: as celebrações do tradicionalismo nos EUA

Encontros nos Estados Unidos marcam as comemorações da Semana Farroupilha e do 20 de Setembro

Caravana Gaúcha já passou pelo estado da Geórgia; grupo segue da Flórida até Nova Iorque
Caravana Gaúcha já passou pelo estado da Geórgia; grupo segue da Flórida até Nova Iorque Foto : Liliane Pappen / Divulgação / CP

As celebrações da Semana Farroupilha e do 20 de Setembro também movimentam muitos gaúchos ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, uma dessas ações é a Caravana Gaúcha, promovida pela Confederação Norte-Americana do Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro (CNATGB) em colaboração com o Conjunto Folclórico Arte Nativa, de Viamão.

O evento também conta com apoio da Secretaria Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul. O grupo saiu de Orlando, na Flórida, no último domingo e tem percorrido a Costa Leste americana ao longo desta Semana Farroupilha até chegar na Times Square, em Nova Iorque, no próximo domingo para celebrar o Dia do Gaúcho.

Uma das organizadoras é Valéria Lessa, filha do folclorista Luiz Carlos Barbosa Lessa, um dos pioneiros do tradicionalismo gaúcho. Ela explica que a comitiva da Caravana Gaúcha é composta por tradicionalistas, lideranças e representantes de entidades, tanto do Brasil como dos EUA e do Canadá. O objetivo da ação, que iniciou com mais de 20 pessoas, é ampliar o número de participantes ao longo da caravana até a chegada em Manhattan.

Participam da ação grupos tradicionalistas da Flórida, Connecticut, New Hampshire e Utah, nos EUA, e de Calgary e Regina, no Canadá. Ao longo da viagem, a levará para as cidades da Costa Leste dos EUA a Chama Crioula, além de atividades culturais como a música, dança e o chimarrão.

O roteiro tem passado por cidades como Orlando, Myrtle Beach, Fayetteville, Richmond, Washington, Baltimore e Newark, chegando finalmente a Nova Iorque no dia 20 de Setembro, quando a Caravana se integra à Mateada Internacional na Times Square e às comemorações do Dia do Gaúcho.

“Mais do que uma viagem, pensamos a caravana como uma forma de costurar geograficamente a diáspora gaúcha. Em cada parada, encontramos pessoas que mantêm algum vínculo com o RS e mostramos que, embora estejam separadas por grandes distâncias, fazem parte de uma mesma comunidade cultural”, salientou Valéria Lessa.

Gauchada vai invadir Manhattan

Para a mateada em Nova Iorque, a expectativa da tradicionalista é de reunir mais de 300 pessoas na Times Square, principalmente celebrando a união da comunidade gaúcha que vive na América do Norte, mas também destacando a tradição do mate, que faz parte da cultura de outros países da América Latina. Também participam outras entidades culturais, empreendedores, artistas e apoiadores.

“Queremos que seja, acima de tudo, uma grande roda de integração e pertencimento. É justamente essa união que considero uma das maiores conquistas do projeto: entidades separadas por milhares de quilômetros passam a fazer parte de uma mesma programação e de um movimento cultural comum”, completou.

Aproximar gaúchos ao redor do mundo

Valéria Lessa, que foi eleita presidente da CNATGB para a gestão 2027–2028, destaca que, apesar de ocorrerem celebrações farroupilhas ao redor do mundo há décadas, as ações precisam criar uma conexão mundial entre as comunidades de gaúchos para aproximá-las e entender a realidade de quem vive fora do RS.

“Hoje existem gaúchos e seus descendentes espalhados por inúmeros países, e a distância geográfica não significa uma ruptura com nossas raízes. Durante a organização das celebrações, conhecemos representantes de entidades no Canadá e de Luxemburgo que não conhecíamos. Assim, podemos ir além de eventos isolados, passando a conectar essas comunidades em uma rede mundial”, afirmou.

Para ela, o tradicionalismo do século XXI precisa também dar atenção e voz para a diáspora. “Nossos filhos e netos muitas vezes nasceram fora do Brasil, falam outros idiomas e cresceram em outras sociedades, mas isso não os impede de conhecer, valorizar e transmitir suas raízes. Festejar nossa tradição ao redor do mundo significa ampliar fronteiras, conectar a diáspora e garantir sua continuidade entre as próximas gerações”, ressaltou.

Ressignificando o legado do pai

Valéria Lessa aponta ainda que, mesmo entendendo sua responsabilidade ao carregar o legado do pai, Barbosa Lessa, essa influência não pode ficar parada no tempo. “Cada geração enfrenta uma realidade diferente. Se a geração dele ajudou a organizar e fortalecer o tradicionalismo dentro do RS, acredito que parte da missão da nossa geração seja criar pontes com os gaúchos e seus descendentes espalhados pelo mundo”, disse.

Ela destaca que essa sua trajetória conta também com uma bonita ironia ao recordar que a geração de seu pai, junto com Paixão Côrtes e outros folcloristas, se mobilizou para preservar a identidade do gaúcho justamente diante da forte influência cultural norte-americana do pós-guerra.

“Décadas depois, estou justamente nos EUA trabalhando para que essa mesma cultura continue viva e atravesse novas fronteiras. Levar esse legado adiante significa preservar os fundamentos, mas também fazer com que meus filhos, nascidos nos EUA, assim como tantos outros descendentes de gaúchos em diferentes partes do mundo, possam conhecer essa história, reconhecer suas raízes e sentir que também pertencem a ela”, concluiu.

Americanos com raízes gaúchas

Nascida em Porto Alegre, Valéria Lessa viveu desde cedo a cultura e o tradicionalismo gaúcho por influência do pai, Barbosa Lessa. A partir disso, passou a integrar grupos de invernada artística que, através da dança, a levaram aos EUA para participar de festivais. O que seria inicialmente apenas uma viagem artística se tornou uma vida construída em solo americano.

No país, ela formou família e teve dois filhos, Kyle e André Lessa. Mesmo sendo americanos de nascimento, eles também carregam as raízes gaúchas, participando de grupos de invernada artística e mantendo as tradições herdadas pela mãe. “Viver longe do Rio Grande do Sul fez com que a cultura gaúcha deixasse de ser apenas uma herança recebida e passasse a ser também uma herança que precisava ser transmitida”, reforçou.

Desde o início dos anos 2000, Valéria passou também a dirigir grupos mirins de danças gaúchas para crianças americanas, passando por cidades como Seattle, Los Angeles, New York, Pompano Beach, Hartford, entre outras. “Mais do que ensinar coreografias, o trabalho buscava criar nas novas gerações um vínculo com a identidade brasileira e gaúcha, demonstrando que uma tradição pode continuar viva”, complementou.

A partir do próximo ano, a trajetória dela entrará em uma nova etapa, como presidente da CNATGB. Valéria ressalta que, à frente da entidade, pretende fortalecer ainda mais a organização do tradicionalismo na América do Norte, aproximar entidades e novas gerações e ampliar as conexões com o Rio Grande do Sul e com comunidades gaúchas ao redor do mundo, e contribuir para a construção de um tradicionalismo cada vez mais integrado e mundial, ampliando sua presença para além das fronteiras.

André Lessa e Natalia Sum, descendentes gaúchos-americanos, em apresentação de invernada artística nos EUA | Foto: Teobaldo Osis / Divulgação / CP