Especial

Cicatriz que a água deixou: os impactos das enchentes no Rio Grande do Sul para a saúde mental

As marcas da tragédia ainda permanecem na vida dos que perderam casas, móveis, familiares e vizinhos – alguns mais de uma vez

Dificuldades financeiras, traumas e preocupações com alertas meteorológicos trouxeram impactos à saúde mental, principalmente em pessoas mais vulneráveis socioeconomicamente, e que menos tiveram apoio psicológico
Dificuldades financeiras, traumas e preocupações com alertas meteorológicos trouxeram impactos à saúde mental, principalmente em pessoas mais vulneráveis socioeconomicamente, e que menos tiveram apoio psicológico Foto : Pedro Piegas

A comerciante Carolina Trapp, de 46 anos, está remando um barco na sua rua tomada pela água no bairro Cidade Verde, em Eldorado do Sul, região metropolitana de Porto Alegre, tentando chegar em um abrigo. De repente, acorda. Se dá conta: é mais um pesadelo. Ela, que passou por duas enchentes – em setembro de 2023 e em maio de 2024 – que levaram seus móveis, roupas e memórias embora, vive em muitas noites o mesmo dia: aquele em que teve que sair de sua casa apenas com a roupa do corpo para tentar abrigar sua família – sendo sua mãe, Vera Maria, que utiliza cadeira de rodas e seu filho, Rafael, com autismo – no segundo andar da residência do seu irmão, quase submersa. Como uma cicatriz de trauma, os pesadelos são acompanhados de ansiedade e tremores a cada momento que escuta novamente o som de uma chuva que persiste e não dá trégua, ou até mesmo o som de um trator. Às vezes, à noite, ela teme levantar da cama e sentir a água ao colocar os pés no chão.

Carolina Trapp, de 46 anos, em frente à casa do seu irmão, onde se refugiou da enchente em 2024, em Eldorado do Sul | Foto: Pedro Piegas

“Esses dias, acordei de manhã. Era tão verídico. Todo mundo subindo no morro e a água atrás de nós”, relata Juraci Padilha dos Santos, de 68 anos, moradora de Estrela, no Vale do Taquari. Hoje, mora no Loteamento Popular 4 com seu filho João Jair Haack (47) e o neto João Vítor Haack (18). Antes, morava no bairro das Indústrias, onde já havia se mudado para fugir da enchente de setembro de 2023, que varreu o município. Ainda que sua casa esteja no mesmo lugar, Juraci não mora mais lá por conta do risco. Ela teve seu estado psicológico afetado pelas perdas materiais, de vizinhos e pelo afastamento de conhecidos da região. “A gente perdeu coisas, não só as materiais. Hoje ninguém mais se encontra. As pessoas foram de um lado para o outro e uns foram embora, outros estão em outro município”, lamenta.

“Nem sabia o que era ansiedade. Hoje eu tenho. É difícil conseguir dominar o teu pensamento”, diz a moradora de Roca Sales Margareth Augustini, de 61 anos. A propriedade da sua família, com criação de galinhas e porcos, foi soterrada por deslizamento de terra seguido de inundação e as galinhas, que foram retiradas, mas, no desespero, retornaram voluntariamente ao local, morreram afogadas. "Minha cabeça, de noite, não descansa. Começo a pensar nas pessoas que gritavam por socorro e que foram embora. Fico imaginando, meu Deus, como a gente podia ter salvado, como a gente pode fazer de novo se tiver essa situação. Não descansa o pensamento. É um atrás do outro, um atrás do outro”, conta.

Um ano e seis meses após o Rio Grande do Sul vivenciar o maior desastre climático da sua história, muitas pessoas que tiveram casas, móveis, roupas e memórias engolidas pela água – muitas mais de uma vez nos últimos desastres, estão, hoje, mergulhadas em dificuldades financeiras, traumas e preocupações. Considerando que a crise climática agrava as desigualdades, segundo especialistas, as pessoas que mais tiveram sua saúde mental fragilizada foram aquelas que menos tiveram apoio e amparo, e que, mesmo passado mais de um ano da maior tragédia vivenciada, tentam lidar com a vida que continua. Além da insônia, da ansiedade e do medo constante em ter suas casas, móveis e familiares novamente perdidos por conta de uma catástrofe climática, as famílias temem nunca mais conseguir se recuperar financeiramente.

O impacto da catástrofe climática na saúde mental começou a ser estudado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) ainda em maio de 2024, partindo da concepção de que os eventos climáticos extremos atuam direta e indiretamente na saúde mental da população e agravam questões sociais preexistentes da comunidade ou daquela sociedade. A pesquisa é coordenada pela professora Simone Hauck e tem auxílio de pesquisadores de outras universidades. “No contexto brasileiro de forma geral, a gente tem uma rede de atenção psicossocial bastante defasada em relação à demanda da população. Quando chega um evento climático extremo, isso tende a piorar no momento em que as pessoas mais precisam”, comenta Santiago Diefenthaeler, estudante de Medicina da Ufrgs e pesquisador do projeto.

A pesquisa buscou mapear o perfil das pessoas mais impactadas pelo desastre, quais características sociodemográficas poderiam ser associadas a grupos mais vulneráveis e como os fatores progridem ao longo do tempo. Foram mais de 6 mil respostas de moradores de mais de 100 municípios do Rio Grande do Sul.

O estudo, feito por meio de um questionário on-line, avaliou a prevalência de sintomas relacionados a depressão, ansiedade e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) por meio de pontuações baseadas na literatura já existente sobre saúde mental e desastres, já que o método da pesquisa não permite fazer diagnósticos. Em um gráfico, é possível analisar a prevalência do grau de gravidade da depressão (PHQ-9), de ansiedade (GAD-7) e de sintomas de Transtorno do Estresse Pós-Traumático (PCL-5) entre a mostra das respostas que pontuaram acima do ponto de corte para esses transtornos, desde 30 até 180 dias após o desastre.

Estudo realizado por pesquisadores da Ufrgs e do Hcpa avaliou a prevalência de sintomas relacionados a depressão, ansiedade e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) | Foto: Arte: Leandro Maciel

A pesquisa também identificou que as pessoas mais vulneráveis socioeconomicamente foram as que apresentaram mais sintomas, sendo a baixa renda um fator de risco para o desenvolvimento dos sintomas citados. Mulheres jovens foram o grupo mais presente nesta mostra e também relataram menos percepção de apoio social e atendimento psicológico, por mais que vissem a necessidade.

A pesquisa retomou o questionário seis meses e um ano após as enchentes e as respostas revelaram que um dos fatores mais importantes na progressão dos sintomas estava relacionado às perdas materiais não recuperadas. “Conforme a pessoa não recuperava suas perdas materiais, ela progredia pior em termos de sintomas”, analisa Santiago.

Silvia Fraga dos Santos, de 61 anos, teve a casa alagada duas vezes em Eldorado do Sul | Foto: Pedro Piegas

As dificuldades de recomeçar

O medo de nunca mais ter de volta o que perdeu tira o sono de Silvia Fraga dos Santos, de 61 anos, há mais de um ano. Ela, que morou na mesma casa em Eldorado do Sul durante 36, jamais imaginou ver cômodos, móveis e bens materiais engolidos pela água duas vezes. Na pior enchente que o município já passou, o nível chegou até o telhado de sua casa. “Nunca pensei que iria passar por isso na minha vida.” As cicatrizes da enchente ainda estão no seu lar, com a marca da água barrenta nas paredes, esburacadas pela velocidade do lava a jato para limpá-las e nas suas angústias que teimam em aparecer a cada vez que pensa no futuro.

É também o caso de Roberta da Silva, 31 anos, ex-moradora de Roca Sales, que hoje vive em Arroio do Meio. Roberta começou a buscar tratamento psicoterápico quase um ano após a enchente de maio por conta de crises sucessivas de choro e de ansiedade que a levaram para o hospital. “Passei por três enchentes. A gente não tinha caminhão para sair de casa, retirar os móveis, tirar nossos pertences e acabou que perdemos tudo”.

Na época, sua família teve que dormir 15 dias em colchões molhados. Hoje, ainda não conseguiu recuperar muitos móveis. “O que tenho ganhei de alguém ou peguei no lixo, porque a gente ainda não teve nem condições de comprar o que foi perdido”, lamenta.

A professora Laci Hirsch evita falar sobre o que passou. Desde maio de 2024, ela só voltou três vezes à sua antiga casa, na Ilha das Flores, no bairro Arquipélago, em Porto Alegre. A terceira vez foi junto com a reportagem. Quando vai, não consegue ficar no local por muitos minutos. Ainda sente angústia quando vê o que restou das paredes mofadas, dos entulhos acumulados em seus cômodos e do seu cultivo de horta, pitangueira e taquareira. “A primeira vez, entrei ali e saí correndo. Não queria ver”, conta.

Ela buscou ajuda médica ao relatar episódios de choro frequentes e batimentos cardíacos acelerados. Depois de recuperar a escola onde trabalha, na própria Ilha, que ficou destruída com a catástrofe, e se mudar para o bairro Leopoldina, ela tenta se reerguer. “A gente tenta sobreviver, vai levando. Mas não ficou mais a mesma coisa.”

Laci Hirsch em frente à sua casa destruída pela enchente, na Ilha das Flores | Foto: Pedro Piegas

Como esperado, a maioria dos participantes da pesquisa da Ufrgs e do HCPA reduziram o escore total dos sintomas ao longo do tempo, sendo uma tendência depois de evento traumático. Porém, pessoas com mais vulnerabilidade, consequentemente as mais afetadas, tiveram menor redução, ou continuaram no mesmo patamar de sintomas. Na análise de Santiago, o evento climático acontece em uma sociedade com condições preexistentes de vulnerabilidade. “Muitas vezes, essas situações agravam problemas que já existem, como a questão da atenção em saúde mental, atenção psicossocial. Isso tem que ser pensado de forma proativa, para preparar justamente a população para situações que vão se tornar mais frequentes com as mudanças climáticas.”

A Secretaria Estadual da Saúde (SES-RS) informou, em nota, os valores investidos em ações de enfrentamento às enchentes voltados a atendimentos psicossociais e de saúde mental, de 2023 a 2025. Em julho de 2023, em Caraá, a pasta aprovou habilitação de Equipe Multiprofissional na Atenção Primária à Saúde (e-Multi) junto ao Ministério da Saúde. O investimento foi de R$ 12 mil por mês até junho de 2025, totalizando R$ 276 mil.

Em setembro de 2023, no Vale do Taquari, os municípios de Arroio do Meio, Bom Retiro do Sul, Colinas, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela e Taquari receberam R$ 40 milhões para contratação de e-Multi e Roca Sales e Muçum receberam R$ 60 milhões. Já em 2024, a pasta informou que os municípios atingidos receberam R$ 12 milhões para aplicação na ampliação de 197 equipes multidisciplinares de saúde mental na Atenção Primária, atendendo 105 municípios em situação de calamidade ou emergência. Entre os 76 municípios que reportaram perdas no meio rural, a secretaria notificou 58 que receberam equipes multidisciplinares.

A pasta também ressaltou que a Política Estadual de Saúde Mental segue diretrizes do Iasc (Comitê Permanente Interagências, sigla em inglês) sobre Saúde Mental e Apoio Psicossocial em Emergências Humanitárias, com Estratégia de Cuidados de Saúde Mental e Atenção Psicossocial. De acordo com a SES, a abordagem, utilizada como referência mundial para a estratégia de saúde mental em desastres, tem como foco a saúde mental coletiva, e destaca a não patologização dos indivíduos, "entendendo que muitas pessoas podem ter reações físicas e psíquicas após o desastre, mas que isto não configura, em si, uma patologia como Transtorno de Estresse Pós-Traumático".

Psicoterapia voluntária

Nos momentos de sobrecarga do sistema e alta demanda, a ajuda voluntária comoveu. Entre as iniciativas de auxílio, o projeto Vagalume, organizado por psicoterapeutas, ainda presta atendimento a atingidos pela enchente e a voluntários que atuaram em resgates e acolhimentos. A ação é comandada pela psicanalista Cristina Kern, que já havia atuado em outros momentos de traumas coletivos, como na tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, e na pandemia.

Morando em Barcelona no começo do desastre no Rio Grande do Sul, ela sentiu que precisava ajudar de alguma maneira e os atendimentos começaram já na segunda semana de maio. “Como profissional, a gente tem um compromisso ético de fazer algo. Mas pessoalmente também, afinal, era minha terra.”

Em um trauma, Cristina explica que existem diferenças entre os períodos em que os sintomas são manifestados. No momento disruptivo, ocorre uma reação imediata de resposta ao desastre. Após, os sintomas podem arrefecer ou permanecer. Entre eles, estão a insônia, dor de cabeça, dor de estômago, taquicardia, sintomas de pânico, dificuldade de concentração e até perda temporária de memória, explica a psicóloga.

A profissional alerta, porém, que todos os sintomas de uma pessoa que parece estar vivendo um trauma podem não ser apenas relacionados ao que foi vivenciado na tragédia. “A gente precisa saber o que existia antes da enchente no psiquismo daquela pessoa. Pode ser uma ‘retraumatização’ de algo que já existia. Tudo aquilo que fica simbolizado em nós, fica decodificado e não vira sintoma. O sintoma é resultado de tudo aquilo que a gente não processou.”

Na psicanálise, abordagem utilizada nos atendimentos voluntários do projeto, o profissional busca ir na origem da dor e do sofrimento psíquico para tentar entender o que a somatização de fatores provoca na manifestação desses sintomas. “O processo psíquico é tão complexo que não dá para dizer que foi a enchente que traumatizou. A pessoa pode ter tido vivências traumáticas anteriores, e a enchente foi mais um elemento ali no processo.”

O atendimento psicoterápico foi importante, também, para que as pessoas tivessem encaminhamentos psicoterápicos direcionados, já que muitas, relata Cristina, tomavam medicação por conta própria. “Algumas pessoas chegavam com uma orientação, tomando medicações de forma desorganizada, e a gente encaminhava para a psiquiatra para poder medicar adequadamente”, afirma.

Uma vez que as pessoas tenham tido sintomas e dores psíquicas significativas após a enchente, Cristina reforça a importância de que atingidos procurem ajuda psicoterapêutica, entendendo que o auxílio não é só para quem está em estado crítico. “Muitas vezes as pessoas, infelizmente, ainda têm essa fantasia de que é só para quem está muito mal. Mas o processo psicoterapêutico é o que vai efetivamente ajudar a lidar com o que surgiu de novo a partir da enchente ou algo anterior à enchente, mas que foi reativado.”

Na análise, muitas pessoas precisam de medicação, mas sem abrir mão do processo de psicoterapia. “É o princípio de que o caminho supostamente mais rápido e mais fácil seria melhor. Sem negar que muitas pessoas precisam de medicação, mas muitas vezes a ideia de tomar um remédio como uma coisa mágica, como algo que, lá pelas tantas, vai resolver. Porque para fazer psicoterapia, a gente precisa se esforçar também. Precisa acessar algo que não está bem para depois melhorar. Então também exige da gente”, diz Cristina.

Ecoansiedade e ansiedade climática

O medo constante de ser impactado pelas mudanças climáticas ou por desastres ambientais decorrentes dessas interpéries, termo conhecido por ecoansiedade, tem impactado cada vez mais pessoas com a frequência e intensidade de eventos extremos, pontua Gibson Weydmann, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Neurociência Social e Afetiva (INCT-Sani).

Dentro da ecoansiedade, a ansiedade climática, outro termo, envolve o sentimento generalizado de angústia e preocupação, com dimensão clínica de ansiedade patológica, mas com uma ânsia de mudança por parte da pessoa, explica Gibson. “A ansiedade climática tem a ânsia da pessoa de ajudar, resolver os problemas da mudança climática, ‘impedir que o mundo acabe’”, diz. No entanto, a ecoansidade envolve, de maneira geral, uma sensação de impotência pelo receio de que as consequências das mudanças climáticas sejam piores e da sensação de exposição a desastres a qualquer momento. Ambos os termos acompanham os sintomas de ansiedade, que envolvem o foco excessivo no futuro e em coisas que ainda não aconteceram, acompanhados de incertezas e angústias.

Se tratando de ansiedade climática ou ecoansiedade, Gibson pontua três reações. “Tem essa pessoa que anseia por mudar o mundo, que sente que precisa fazer alguma coisa, precisa ajudar. Tem essa pessoa que se preocupa excessivamente, que fica receosa que algo ruim vai acontecer a qualquer momento. E um terceiro grupo, que fica paralisado, porque entra em uma sensação de desesperança, de ‘acho que não vou conseguir dar conta. A mudança climática vai acontecer de qualquer jeito, vou seguir minha vida’”, cita.

Os grupos sociais mais impactados por esses fenômenos pertencem a regiões mais marginalizadas e vulneráveis, lembra Gibson. “A gente tem, infelizmente, poucos estudos no sul global, com maioria dos estudos sobre a relação entre desastre climático e saúde mental do norte global. Mas, mesmo no norte global, quando se vai analisar as pessoas mais impactadas, são as pessoas com baixa escolaridade, baixa renda, baixas condições socioeconômicas de maneira geral, e com menor rede de apoio”, diz.

Um estudo ainda em andamento pelo grupo de pesquisa do qual Gibson pertence está indo até comunidades vulneráveis, epicentro da enchente, para compreender como está a saúde mental da população impactada. A pesquisa, que percorre escolas de Porto Alegre e Canoas, envolve entrevistas, coleta de dados e avaliação psicológica, desde sintomas psiquiátricos até questões socioeconômicas e de renda. A amostra, ainda pequena, demonstrou altos níveis de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e, em alguns casos, alcoolismo e ideações suicidas. “É o que a literatura internacional tem dito ser os principais resultados de um desastre climático”, analisa o pesquisador.

Outro estudo experimental estudou a percepção da população em relação às mudanças climáticas por meio da distância psicológica. “É aquela sensação de que um determinado problema está tão distante no tempo e no espaço que ele quase não é nosso”, explica Gibson. O estudo mostrou que as pessoas que apresentam mais sintomas relacionados aos impactos na saúde mental são, também, as que notam uma proximidade subjetiva maior do desastre. “Elas têm a sensação de que vão passar por isso a qualquer momento de novo”, completa Gibson. O estudo provou que vivenciar um desastre fez com que a distância psicológica diminua e a ecoansiedade contribui para a sensação de proximidade.

Para Gibson, um caminho para os que temem novas catástrofes climáticas não fiquem paralisadas diante dos alertas, mas, ao mesmo tempo, levem os efeitos das mudanças climáticas a sério, é falar da mudança climática como algo real que já está presente. “A solução ideal seria gerar um fenômeno chamado de resiliência comunitária, quando a comunidade começa a se preparar para eventos potencialmente desastrosos em conjunto. É quando um agente comunitário, um representante da comunidade, por exemplo, fala com os demais e os prepara para que, caso algum problema aconteça, tenham para onde ir.”

Silvia Fraga dos Santos, de 61 anos (esquerda) e Carolina Trapp, de 46 anos (direita), moradoras de Eldorado do Sul, passaram por duas enchentes | Foto: Pedro Piegas

A dor dividida

A psicóloga Cristina Kern ressalta a importância do papel do outro na legitimação de um trauma vivido. “Validar tanta dor e desamparo é muito importante. Tem um papel do outro nessa intimação do trauma e é fundamental para não retraumatizar”, afirma. Carolina Trapp e Silvia Fraga dos Santos são alicerces uma da outra, dividindo suas dores e aflições. Carolina também decidiu organizar um grupo no WhatsApp para reunir moradores do município para mobilização reivindicando atenção do poder público para solução às enchentes no município. O espaço é uma maneira que encontraram para compartilhar angústias e encontrarem, juntos, soluções para enfrentamento desse sofrimento. “Assim a gente faz com as outras pessoas, os outros vizinhos, a gente tá sempre se apoiando. Quando um cai, a gente levanta”, diz Carolina.

Entre tantos atingidos, comunidades buscam, no coletivo, uma oportunidade para se reerguerem juntas. Um grupo de mulheres atingidas pela enchente em regiões do Vale do Taquari testemunham o que passaram na agulha e na linha. Organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em parceria com a Universidade do Vale do Taquari (Univates), a iniciativa registra por meio do bordado os impactos das tragédias climáticas com a perda das suas casas, lavouras e animais, mas também produz a muitas mãos bordados de tecidos que retratam o trauma, a dor, resistência e reconstrução de mulheres de comunidades da região do Vale do Taquari. Os trabalhos foram inspirados na técnica têxtil de arpilleras, utilizada entre 1970 e 1990 por mulheres que registravam os problemas sociais e políticos enfrentados durante a ditadura chilena.

Para Juraci Padilha dos Santos, além de conseguir colocar para fora os impactos emocionais dessas perdas, a atividade é uma oportunidade de troca com pessoas que passaram pelo mesmo. “Para mim, é muito importante. Sei que para as outras mulheres também, porque elas falam muito: ‘é o que ajuda a sobreviver’.”

Margareth Augustini, que também participa de ações do MAB, acredita que escuta, acolhimento, abraço e troca entre a comunidade afetada contribui para o retorno da sensação de esperança em dias melhores.

“Eu vi tanta realidade, pessoas me abraçaram. A melhor coisa que aconteceu foi um abraço. O trauma deles não é só a falta de casa. Falta uma palavra, um carinho, uma atenção, porque os vizinhos se espalharam. Não estão mais morando um perto do outro. Isso faz falta, isso também é um trauma para as pessoas”, diz.