CAPÍTULO 1 – UMA NOVA E DESIGUAL REALIDADE
Nos últimos cinco anos, o futebol nacional passou a ter dois protagonistas quase absolutos: Palmeiras e Flamengo. A dupla dominou as principais competições com desempenho superior e, principalmente, um poderio financeiro que transforma qualquer adversário em coadjuvante. Desde 2018, dos 21 títulos disputados entre Brasileirão, Copa do Brasil e Libertadores, 12 ficaram com os dois (quatro Libertadores, três Copas do Brasil e cinco Brasileirões). Os demais foram espalhados entre os outros clubes — incluindo estrangeiros, no caso da Libertadores, claro.
Confira o especial completo “Acabou a grandeza?”
Enquanto isso, clubes “históricos” como Inter e Grêmio lutam para seguir relevantes, mas já não entram em campo com o mesmo respeito automático de outrora. Aquela frase otimista de início de temporada — “dá pra brigar por algo grande” — hoje soa mais como autoajuda do que análise realista.
“Há um desequilíbrio de forças, que foi aprofundado nos últimos anos. Alguns clubes ficaram ainda maiores, enquanto outros, inclusive por erros próprios, perderam o protagonismo e terão que se reinventar. Mas não vejo terra arrasada. Com trabalho, esses clubes podem recuperar terreno, mas não será de uma hora para outra”, analisa o advogado Bruno Chatack, especialista em finanças no futebol, em entrevista ao CP.
Para quem tem ao menos 15 anos de estrada como torcedor da dupla Gre-Nal, o incômodo é inevitável. Acostumados a Libertadores e Brasileiros, colorados e gremistas agora colecionam eliminação atrás de eliminação, rebaixamentos e — com sorte — um Gauchão. O favoritismo? Esse já mudou de endereço.
“É inevitável que exista essa diferença. São clubes de regiões diferentes, de histórias de crescimento distintas, com torcidas e mercados também diferentes. Essa diferença se consolidou ainda mais à medida que o futebol se transformou em uma indústria estruturada. Então, a realidade — que já se impõe há uns cinco ou seis anos, mas agora é ainda mais evidente — é a de uma enorme desigualdade de receitas, com clubes de perfis e níveis distintos competindo no mesmo campeonato. Isso não é exclusivo do Brasil. Só chegou mais tarde aqui”, observa o consultor Cesar Grafietti, economista especializado em gestão e finanças no futebol.
Os números escancaram o desnível quase insuperável. Enquanto Inter e Grêmio têm receitas anuais que oscilam entre R$ 400 milhões e R$ 600 milhões, dependendo da venda de jogadores, e ainda carregam dívidas milionárias, Flamengo e Palmeiras arrecadam mais que o dobro — em 2024, ambos ultrapassaram R$ 1,3 bilhão. A diferença econômica se traduz nas competições, sem piedade.
O Inter terminou 2024 com um déficit de R$ 34,4 milhões, o que ajudou a elevar sua dívida total para cerca de R$ 860 milhões. O Grêmio também teria fechado no vermelho, mas, ao assumir uma dívida relacionada à Arena, conseguiu um superávit contábil — ainda que sua dívida também tenha crescido, alcançando R$ 562 milhões.
O problema é que esses passivos elevados estrangulam o caixa, devido ao pagamento de juros. Rolar essas dívidas custa ao Grêmio cerca de R$ 50 milhões por ano. No caso do Inter, o impacto é ainda maior: aproximadamente R$ 80 milhões anuais.
“Com o valor que pagamos em juros, a gente poderia contratar um Suárez por ano”, lamenta o presidente do Grêmio, Alberto Guerra. “No Flamengo, eles vendem jogadores para reinvestir no time. Aqui, a gente precisa vender para manter o clube funcionando e pagar juros. É uma lógica perversa”, concorda seu colega do Inter, Alessandro Barcellos.
Ou seja, voltando à pergunta lá do topo: sim, acabou a grandeza — ou boa parte dela. Mas talvez, com muito esforço e sorte, algum brilho possa ser recuperado.