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De pai para filho: tradição familiar atravessa gerações pelas páginas do Correio do Povo

História de família em São Borja mostra como o jornal se tornou parte da rotina e até referência para a negociação de propriedades rurais

Este é o primeiro Dia dos Pais de Antônio com o pequeno Otto, de 8 meses
Este é o primeiro Dia dos Pais de Antônio com o pequeno Otto, de 8 meses Foto : Arquivo Pessoal / CP

A tradição de ler o Correio do Povo une gerações de pais e filhos por todo o Rio Grande do Sul. Um dos exemplos vem de São Borja, na Fronteira Oeste do Estado. Antônio Francisco Corrêa Pinto, 49 anos, é assinante do CP há cerca de 15 anos, e a principal influência para isso veio do pai e do avô. Uma tradição de família que atravessa gerações e que dita até o preço dos bois da propriedade.

Tudo começou ainda nos anos 1940, quando o avô de Antônio, Francisco Ribeiro de Lima, já era assinante do Correio do Povo em São Francisco de Assis, também no Noroeste do Estado. O produtor rural, nascido em 1899, recebia o jornal que chegava de trem à estação de Jacaquá, às margens do Rio Ibicuí.

“Daí, nos anos 1950, ele construiu uma casa, uma propriedade rural, e a planta da casa ele pegou do Correio do Povo. Vinha o suplemento rural na época, que até hoje aqui no interior, para nós, é uma referência. Na época, vinha a planta de uma propriedade rural de modelo não existente, era como um arquiteto. Ele pegou aquela planta e construiu a casa. E a casa existe até hoje”, conta.

Na residência, ainda estão guardados três almanaques do CP, um deles de 1969, que traz na capa o título “Centenário de nascimento do jornalista Caldas Júnior”. Os exemplares, destinados a assinantes, revelam o carinho da família com o jornal.

Almanaque de 1969 guardado pela família traz no título “Centenário de nascimento do jornalista Caldas Júnior” | Foto: Arquivo Pessoal / CP

De pai para filho

O avô morreu nos anos 1980. A tradição de ler o periódico, então, passou para o filho, Mário Luiz de Lima Pinto, pai de Antônio. Natural de Maceió, em Alagoas, Mário chegou a São Borja em 1970. Influenciado pela família da esposa, Ana Ester, mãe de Antônio, também se tornou assinante do Correio do Povo.

“Meu pai sempre lia o jornal diariamente. Ele parava, botava o jornal na mesa para ler. Fazia as palavras cruzadas, lia os esportes, tudo. Isso eu lembro bem”, conta Antônio sobre o pai, que era médico e faleceu em 2015.

Leitor fiel do Correio do Povo, afirma que, mesmo quando não sobra tempo para ler durante a semana, retoma as edições atrasadas no fim de semana.

“É um hábito. Quando eu estou lendo, estou fazendo coisas que eles faziam. Os meus tios também liam, então a gente acaba tendo esse momento em que tu está fazendo algo que já foi feito várias vezes pela tua família. Tu está repetindo uma coisa, dá uma sensação de enraizamento momentâneo”, reflete.

O avô de Antônio, Francisco Ribeiro de Lima, era assinante do Correio do Povo desde os anos 1940 | Foto: Arquivo Pessoal / CP

Referência na região

Atualmente, Antônio é arquiteto e junto dos dois irmãos administra a propriedade rural da família em São Francisco de Assis. Eles trabalham com atividade pecuária e o Correio do Povo serve de referência na precificação de áreas arrendadas.

“Eu tenho, além da propriedade lá onde tem a casa, outras áreas que a gente arrenda. E, para os pagamentos dos arrendamentos, eu pego o valor médio do preço do boi que sai no Correio do Povo. Tem a média ali do boi. Então eu pego no dia que tem que pagar, recorto, sublinho a média, tiro uma foto e mando para os proprietários das áreas que eu arrendo para mostrar: ‘Ó, está aqui o preço do Correio do Povo’. E daí ninguém discute. O preço que está no Correio do Povo ninguém questiona”, conta.

O preço do quilo do bovino gordo em pé é publicado diariamente na página Rural do jornal, com base na cotação da Emater.

No município, exemplares do jornal também aparecem em vários estabelecimentos. “Aqui no interior sempre tem jornal, sempre tinha um Correio do Povo em algum lugar que tu ia. Tu vai num escritório e está em cima da mesa, tu vai numa lanchonete e ele está em cima da mesa. Então, a gente sempre chega e pega o Correio do Povo para ler. É uma coisa comum aqui”, revela.

A página preferida do impresso é a Rural, lida todos os dias pelo assinante. Antônio destaca também as editorias de Cidades e o Editorial como seções que sempre lê.

“Acho que, para quem está na região da fronteira, eu não sei por que motivo, o Correio do Povo parece mais íntimo nosso, sabe? É um jornal que parece que tem mais um vínculo com a região aqui, do interior do Estado”, afirma.

O formato menor do periódico, com 16 páginas, também atrai a atenção do assinante, que vê no CP exatamente o que ele próprio reproduz na família: a preservação de uma tradição.

“O Correio do Povo é o jornal que o pai lia, que o avô lia, que todo mundo lia e que, quando tu está lendo, é como se tu estivesse em contato com essas pessoas. Tu dá um segmento, uma continuidade”, afirma.

Casa do avô de Antônio, Francisco, construída a partir de planta publicada no Correio do Povo | Foto: Arquivo Pessoal / CP

Futuro leitor

Este domingo, Dia dos Pais, será o primeiro de Antônio ao lado do filho, o pequeno Otto, de apenas 8 meses. Ele também pretende passar adiante a tradição da família.

“Eu vejo a importância de dar continuidade a certos hábitos. Quando eu digo hábitos, não é fazer isso, fazer aquilo, é o geral. A maneira que a pessoa pensava, que interpretava as coisas, a importância de uma geração para outra, manter algum elo. Acho que é isso, tu mantém algum elo. O Correio do Povo é um elo, é um pequeno elo, mas cada família vai ter vários elos importantes. E, para a sociedade como um todo, é importante que tenha sempre um elo de uma geração para outra”, conclui.

Este é o primeiro Dia dos Pais de Antônio com o pequeno Otto, de 8 meses | Foto: Arquivo Pessoal / CP

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