Derrubada de estátuas de figuras ligadas à escravidão provoca debate sobre reescrever o passado
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Derrubada de estátuas de figuras ligadas à escravidão provoca debate sobre reescrever o passado

Onda cresceu nos Estados Unidos em manifestações contra o racismo

Por
Carlos Corrêa

Mal sabia, mas no longínquo 13 de novembro de 1895, John Cassidy daria um passo importante para entrar na história, ainda que como coadjuvante. Naquele dia, o artista irlandês finalizava mais uma de suas esculturas, dessa vez homenageando o comerciante, filantropo e político inglês Edward Colston, falecido mais de um século antes, em 1721. Feita em bronze, era adornada por figuras de peixes, em referência à vida marítima do homenageado, e em sua placa principal, dizia: "Erguida pelos cidadãos de Bristol como um memorial de um dos mais sábios e virtuosos filhos da cidade". Só faltou contar que Colston também tinha um lado bem menos popular: era traficante de escravos. A reparação, que nunca veio por meios legais, acabou acontecendo exatos 45.497 dias depois quando, em 7 de junho deste ano, manifestantes que protestavam contra o racismo e a violência policial contra negros derrubaram o monumento e o arrastaram pelas ruas da cidade antes de jogá-lo no fundo do rio. Dias depois, as autoridades retiraram a estátua das águas e a guardaram em um lugar seguro. Pouco importava, o pavio já havia sido aceso e não demorou muito para que protestos semelhantes, tendo alvos parecidos, se espalhassem pela Europa e, principalmente, nos Estados Unidos, epicentro das manifestações após policiais terem assassinado o negro George Floyd ao sufocá-lo com o joelho no pescoço em uma abordagem.

Logo na sequência, foi derrubada a estátua de Jefferson Davis (presidente dos Estados Confederados durante a Guerra da Secessão, nos EUA), em Richmond, na Virgínia, e o monumento a Cristóvão Colombo, em Boston, foi decapitado. Destino semelhante teve a estátua ao rei belga Leopoldo II, em Bruxelas, queimada e coberta de tinta, e a de Winston Churchill, tanto em Praga como em Londres. A onda tomou proporção tão forte que no início dessa semana, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou ter ordenado às autoridades federais para que detivessem as pessoas que haviam vandalizado as obras. Em tom de ameaça, lembrou que a pena pode chegar a dez anos de prisão. Tudo indica, no entanto, que se trata mais de bravata do que uma ação efetiva e talvez a maior evidência neste sentido seja a manifestação de diversos governantes admitindo reavaliar homenagens a figuras que de uma forma ou outra tiveram um papel negativo no período da escravidão. Nos EUA, o governador da Virgínia, Ralph Northam, ordenou a retirada da estátua de Robert E. Lee, comandante-chefe do Exército Confederado. Na Inglaterra, o prefeito de Londres Sadiq Khan, adiantou que todas as personalidades homenageadas em forma de estátuas serão reavaliadas.

Na mesma velocidade com que as manifestações ganharam corpo, se estabeleceu um debate em torno tanto da legitimidade como da validade de ações contra peças que, de uma forma ou outra, fazem parte do patrimônio histórico. A discussão, no entanto, está longe de ser simples e envolve tanto aspectos educacionais e políticos, como também disputa de narrativa, revisionismo e, claro, escravidão e racismo. O que parece certo no momento é que os protestos a partir da morte de Floyd foram a gota d'água mais recente de uma tensão racial que é tudo, menos nova. "Todos os dias temos pessoas negras sendo mortas, a ponto de termos manifestações globais agora. Se não houver essa pressão social, não vai mudar nada", observa a cineasta Camila de Moraes. A escolha dos alvos, diga-se de passagem, também não é nada surpreendente. Não há aleatoriedade nos ataques, que são exclusivamente apontados para figuras com um passado inglório relacionado ao período escravagista. "São contas que queremos que sejam sanadas. Acredito que a derrubada está dentro de um contexto de uma energia que está presa, é uma forma imediata de derrubar símbolos que representam o passado, a colonialidade", aponta o historiador e mestrando em Educação pela Ufrgs, Maurício Dorneles.

Estátua do rei Balduíno da Bélgica (1930-1993) em frente à Catedral de São Miguel e Gudula, no centro de Bruxelas / Foto: Kenzo Tribouillard / AFP / CP 

Tudo começa a ficar mais complexo na medida em que os mesmos símbolos que representam o passado trazem consigo um valor histórico inerente. E de quebra uma questão: "o quanto vale reescrever o passado?". "Acho inadmissível a destruição de qualquer estátua, pois é um patrimônio cultural público, primeiramente. Existem outras formas de protestar sem destruir", afirma a vereadora Mônica Leal, do Progressistas, que em 2016 entrou na Justiça - e venceu - para impedir que o nome da Avenida Castelo Branco fosse alterado para Avenida da Legalidade e da Democracia. "Os acontecimentos históricos fazem parte de qualquer sociedade e, concordem ou não, eles devem ser conhecidos e lembrados e não retirados dos livros escolares e da memória do povo. A história não pode ser mudada porque centenas de anos ou décadas depois reconheceu-se os prejuízos causados", completa ela.

Mesmo entre quem compreende e apoia as recentes manifestações do movimento "Vidas Negras Importam" e as ações contra as estátuas, há um sentimento divisivo sobre o destino a ser dado aos monumentos atacados. "Compreendo o momento. Vibrei quando vi, mas racionalmente e em termos de defesa de história, sou absolutamente contra. Que se crie a polêmica, mas não se apague a história", prega Maria José Barreras. Mestre em História e Doutora em Comunicação, ela observa que por trás de cada homenageado, há uma série de possíveis aulas sobre o assunto, que seriam o melhor ambiente para que todo o contexto fosse estabelecido, desde quem foi o personagem até as razões pelas quais ele foi eternizado em metal. De forma geral, a saída que tem sido apontada como a mais racional por diversos especialistas acerca do tema é o deslocamento das estátuas das ruas para os museus. De imediato, resolveria uma questão institucional abolindo o caráter de homenagem por parte do Estado e tornando-o apenas um registro histórico. Além disso, seria o espaço ideal para contar a história da forma mais correta. "Falando como historiador que trabalha justamente nesse formato de conversar sobre patrimônio da cidade, do ponto de vista profissional, as estátuas são importantes. Claro que se é uma escolha pública, tem que ser removida. É preciso se discutir e encontrar um outro lugar mais adequado para receber essas obras. Elas são importantes para que a gente questione", afirma Maurício Dorneles.

O problema é que credibilidade não é exatamente um valor em alta por parte do Estado quando o assunto é a luta contra o racismo. Medidas como a transposição das obras das ruas para locais especializados seriam eficientes, desde que efetivamente feitas. Só que poucos apostariam todas as fichas nisso. "O problema do uso didático é que a gente reivindica e nunca acontece. A lógica dos museus não é diferente, uma vez que eles também não contemplam grande parte da população", pondera o professor do departamento de História da Ufrgs, Marcus Rosa. Para ele, a própria tentativa de caracterizar os atos como vandalismo é injustificável, uma vez que se trata de um movimento absolutamente politizado - e convém lembrar que não no contexto de política partidária, uma saída frequente dos críticos - de grupos que nunca se viram representados na História e estão se voltando contra símbolos que não os representam. E é justamente esse sentimento de não pertencimento e desconfiança que justificaria uma decisão mais drástica no atual momento. "Se preciso, eu ajudo a derrubar as estátuas por questões históricas. Quando a gente fala em mudar para um museu, onde possa ser melhor contextualizado, é muito improvável que isso aconteça na prática. Temos leis que não são cumpridas, debatemos, a gente fala, fala, fala e continuam matando pessoas negras. Sem pressão, não vai mudar", diz Camila de Moraes.

Trabalhadores removem uma estátua memorial da polícia coberta de tinta vermelha pelos manifestantes em 11 de junho de 2020 em Richmond, Virgínia/ Foto: Zach Gibson / Getty Images / AFP / CP 

Vontade de ver no fundo do rio estátuas de figuras ligadas ao escravagismo não falta para Marcelo Carvalho. No entanto, o idealizador e diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol lembra que é preciso ter capacidade de negociação para ir em frente. Ao longo de seis anos à frente do site que mapeia casos de racismo no esporte, ele revela que é possível obter avanços, mas dificilmente sem ceder em determinados pontos. "O melhor era jogar no rio, mas sempre vou ter que negociar. Nós sabemos como funciona o sistema, para ganhar uma tenho que ceder outra. A gente sabe quem defende as estátuas, mas também sabemos que tudo é negociável", afirma. Linha semelhante traça a professora do curso de História da Ufrgs, Fernanda Oliveira. Para ela, o sentimento de querer ver as estátuas no chão é legítimo. Por outro lado, não se pode abrir mão de colocá-las em um museu sob o pretexto de que haveria uma nova quebra de confiança por parte das autoridades. Ao invés disso, prefere reafirmar uma política de esperança por parte das mulheres negras. "Não podemos perder a esperança. Preciso acreditar no potencial da educação. Se eu for nivelar tudo por baixo, eu perco o potencial de transformação", lembra Fernanda, também idealizadora e mantenedora do "Atinuké - Grupo de Estudos sobre o Pensamento de Mulheres Negras". De mais a mais, há um outro elemento que nunca pode ser subestimado, que é a força do Estado. "Nem sei se em Porto Alegre haveria mobilização para a derrubada de qualquer monumento, acho muito difícil. Não sei o tamanho da mobilização, mas sei o tamanho da polícia. Jamais deixariam que sequer se pensasse nisso", observa Marcelo Carvalho.

Em meio a uma discussão sobre qual destino dar para monumentos de personalidades com ligações intrínsecas a períodos nefastos da história da civilização, um erro bastante comum, de acordo com os especialistas, é minimizar a importância dos símbolos no nosso cotidiano. Por mais que se trate de uma obra inanimada, uma estátua ainda assim tem muito poder em termos de imaginário. "É importante que as pessoas tenham em vista que a rua tem uma força gigante. A estátua é um ensinamento, ela te diz o que deve ser valorizado, é isso que se justifica. Então, precisamos revisar quais as homenagens estamos fazendo e pensar o que queremos de fato homenagear. A rua letra as pessoas e não é esse letramento que esperamos", afirma Fernanda Oliveira, referindo-se às peças com passado escravagista.

As contestações às acusações de tentativa de se apagar o passado também encontram certa dificuldade de parar em pé, principalmente quando se percebe que os processos de revisionismo histórico e todas as disputas de narrativas que estão no mesmo pacote são uma constante quando se olha pelo retrovisor da História. Até mesmo porque o que as manifestações têm proposto não são um apagamento por si só, mas sim uma readequação na importância atribuída a determinadas figuras, o que pode ser resumido por ampliar o conhecimento a respeito de certas personalidades, e não apenas destacar um suposto heroísmo. "Costumamos dizer que as estátuas têm mais a ver com o seu tempo do que com as pessoas que encarnam. E isso diz muito sobre a nossa história. O ensino de História é um processo dinâmico, que exige deslocamento, releituras. É extremamente acertado que se abra discussões pertinentes sobre o nosso passado", celebra Fernanda Oliveira. A professora cita o historiador francês Marc Bloch, que define História como "a ciência que estuda o homem e a sua ação no tempo". A partir dessa linha de pensamento, é preciso constantemente olhar para o passado a partir do presente, sem nunca renegar os valores atuais.

"O passado é uma invenção do presente. Cada época faz o seu julgamento do passado, com exageros e polêmicas. Mas é assim"

Um bom exemplo, de acordo com o historiador e escritor Juremir Machado da Silva, vem da França, onde ele lembra que praticamente a cada década surgem novas releituras acerca da Revolução Francesa, mesmo que tenha acontecido entre 1789 e 1799. "Cada época tem direito e mais do que direito de revisar as homenagens do passado. O passado é uma invenção do presente. Cada época faz o seu julgamento do passado, com exageros e polêmicas. Mas é assim, cada época faz o seu acerto de contas. E o acerto de contas com o nosso período de escravidão é necessário", afirma o também colunista do Correio do Povo. Juremir rechaça a ideia de que o passado não pode ser alterado no presente. "Se não pudesse, São Petersburgo então até hoje se chamaria Leningrado", contesta, citando uma das principais cidades da Rússia, que voltou a utilizar seu nome original em 1991, depois de também se chamar Petrogrado entre 1914 e 1924, e Leningrado, de 1924 a 1991. Além disso, o historiador faz outra observação a respeito dos grupos mais resistentes às alterações. "Geralmente são movimentos mais conservadores, de direita, contra as mudanças. Mas será que o dia em que Cuba virar, eles vão deixar em pé as estátuas de Fidel Castro e Che Guevara?", questiona.

Estátua de Edward Colston sendo recuperada do porto de Bristol, sudoeste da Inglaterra, onde foi jogada por manifestantes depois de ter sido derrubada. Foto: AFP PHOTO / Conselho da Cidade de Bristol / CP

Mais do que apenas um campo, a análise sob várias perspectivas seria o ideal para que cada geração compreendesse melhor o seu passado e como se relacionar com ele no presente. Neste sentido, Maria José Barreras observa que várias teorias e olhares são essenciais durante esses constantes processos de revisão. "Sou a favor da ideia de que várias áreas olhem a mesma coisa: a História, a Sociologia, a Antropologia e por aí vai". Desta forma, mesmo que permanecessem injustificáveis, alguns processos já ocorridos poderiam ser melhor compreendidos. "Me incomoda a homenagem (na forma de uma estátua) com esse meu olhar de hoje. Sonho que, se vivesse naquela época, também fosse me incomodar, jamais poderia aceitar que prendessem e tirassem a liberdade de uma pessoa como foi na escravidão. Sigo não concordando e posso não gostar da homenagem, mas a pergunta é: 'Quem homenageou?', 'Por que esse homem foi homenageado?'", indaga ela.

Um exemplo citado constantemente como a forma mais adequada em lidar com cicatrizes do passado é a Alemanha no pós II Guerra. É bem verdade que uma boa parte das referências e homenagens ao nazismo foi destruída em função dos bombardeios inimigos. Ainda assim, as autoridades alemãs tomaram uma série de medidas nos anos seguintes que evidenciavam as atrocidades do nazismo. Em 1949, por exemplo, o país criminalizou o uso da suástica. Mais do que isso, prédios que serviram de quartéis generais na época da guerra ao invés de serem simplesmente destruídos, foram transformados em museus e memoriais às mortes de milhares de judeus, enquanto oficiais nazistas foram presos. Não restou sinal de homenagens aos líderes nazistas. Mesmo assim, o processo não foi rápido e até os anos 1960, muitas opiniões eram controversas no país. Em 1955, pesquisas indicavam que 48% da população ainda considerava Adolf Hitler um dos maiores líderes alemães, "apesar da Guerra". Na mesma época, um terço dos entrevistados via injustiças nos julgamentos de Nuremberg. Nas escolas, nos primeiros 15 anos subsequentes ao final da Guerra, o nazismo foi banido do ensino. Só então, paulatinamente, retornou ao currículo escolar. Foi só a partir dos anos 1970 e 1980 que a política de longo prazo começou a surtir efeito e o passado nazista passou a ser enfrentado e repudiado com mais força. Um caso peculiar surgiu nos anos 1990. Em 1995, a exibição Wehrmacht percorreu 33 cidades da Alemanha e da Áustria mostrando as atrocidades cometidas pelas forças armadas alemãs durante a Guerra. Poderia parecer óbvio, mas naquele momento, ainda circulava com força no país o mito de que enquanto o nazismo era responsável por todos os crimes, as forças alemãs não tinham tanto envolvimento assim, o que era inverídico. Mesmo tendo sido vítima até de um atentado em 1999, a exposição, que teve uma segunda edição em 2001, alcançou um público de 1,2 milhão de pessoas.

Em 1949, a Alemanha criminalizou o uso da suástica. Antes disso, já havia abolido todo e qualquer monumento em homenagem ao nazismo

A forma como os Estados Unidos lidou com o seu passado escravista, por outro lado, caminha pelo sentido oposto, o que em parte explica as recentes manifestações do "Vidas Negras Importam". A começar pelo fato que a Guerra Civil se deu muito mais por questões ligadas ao federalismo e a direitos dos estados do que propriamente tenha sido um combate pelo abolicionismo. Ainda assim, mesmo tendo perdido no campo, os sulistas trataram de se recuperar fora dali, na batalha pela memória. Assim, entre os anos 1890 e 1920, formaram fileiras na literatura, nos livros escolares e mesmo no audiovisual. De quebra, ergueram centenas de monumentos aos Confederados, motivo de tanta polêmica até os dias de hoje. Organizações como United Confederate Veterans, United Daughters of the Confederacy e Sons of Confederate Veterans perceberam que defender abertamente a escravatura não levaria a lugar nenhum e passaram a se referir à Guerra Civil apenas pela questão do federalismo, apostando em um poder de união a partir da rivalidade com os nortistas. Desta forma, varriam para debaixo do tapete a escravidão, enquanto seguiam homenageando seus "heróis". Não por acaso, até hoje existem no país cerca de 1,8 mil monumentos dos Confederados. Só no Texas, são mais de 200, mas mesmo estados considerados mais liberais como a Califórnia e Nova York não são exceção.

O que nos leva ao caso do Brasil. Como o país tratou a sua memória em relação à escravidão? Ou melhor, tratou? "No Brasil, não nos deparamos com a força da escravidão. Não se falava sobre racismo nos cursos de História até os anos 1990, imagina se formos ampliar o espectro. Isso diz muito sobre o nosso passado", critica Fernanda Oliveira. A professora ressalta que há um senso comum bastante difundido de que o racismo está ligado à falta de inteligência, quando na verdade ele se vale muito mais da desinformação e de um processo institucional que o valida. "Ele autoriza que as pessoas façam as seleções dentro da História sobre o que falar", explica. Consequência direta disso é que a diversidade de povos que forma o Brasil não se reflete em nossas estátuas e monumentos. "A memória da escravidão é muito dolorida. Esse debate sobre qual patrimônio deve ganhar mais visibilidade é a versão mais conhecida de uma grande discussão. Não temos estátuas de africanos, de indígenas no Brasil. Enquanto isso, tem muito mais estátuas de colonizadores, de generais, de ex-presidentes. Não temos estátuas que deem conta da nossa diversidade. Não temos, por exemplo, monumentos homenageando mulheres como temos de homens. Há diversos grupos que não se sentem representados", enfatiza o professor Marcus Rosa.

O mesmo modelo que se percebe no Brasil é replicado no Rio Grande do Sul, onde a falta de representatividade também é criticada. "Esses monumentos pertencem a um coletivo, representam um grupo, isso se torna público. Só que aqui eles estão principalmente ligado às elites, militares, políticos homenageados. E aí aquilo se torna representante de uma cidade, só que a cidade é plural, ela não está representada ali", aponta Maurício Dorneles. A dificuldade de que exista mais reconhecimento e visibilidade por parte da cidade em relação aos negros, por exemplo, é evidenciada na própria trajetória do historiador. Em 2009, funcionários da Prefeitura de Porto Alegre fizeram uma atividade para celebrar o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. A ideia foi circular por lugares que tivessem a presença ou a marca simbólica dos negros na Capital. Oferecido a escolas, Dorneles percebeu a necessidade de ampliar o alcance do público e idealizou naquele momento o projeto "Territórios Negros", que tinha um caráter inédito e apostava na ideia de um Museu de Percurso, passando por vários lugares, principalmente na região do Centro. O trajeto incluía quatro obras: o monumento O Tambor, na Praça Brigadeiro Sampaio; a Pegada Africana, em frente à Praça da Alfândega; o Bará do Mercado, no Mercado Público; e por fim, um painel afrobrasileiro no muro do Chalé da Praça XV, representando a circulação dos negros na cidade. O projeto foi descontinuado em 2016 e, por mais que os monumentos permaneçam nos lugares, não há qualquer contextualização a respeito deles para quem visita. A própria linha Turismo, da Prefeitura, faz poucas menções à cultura negra da cidade. "Tu podes até passar pelos lugares, mas tu não vai ser informado", afirma Dorneles, que completa: "Por trabalhar essas questões, me sinto representado na cidade. Claro que não 100%. Em determinados lugares nos sentimos incomodados. Essa coisa de querer parecer europeia intimida. O Rio Grande do Sul tem essa coisa da belicosidade, de representar um passado bélico. Mas isso só representa um pequeno grupo da sociedade".

"Não se pensa, sob hipótese alguma, em alguém fazer festa num campo de concentração. E, no entanto, as pessoas acham válido fazer festa dentro uma charqueada" 

A sugestão de Marcus Rosa nessa direção é a criação de um Museu da Escravidão. Um local deste tipo daria conta não apenas de recontar como foi o período no Brasil e no Rio Grande do Sul, como também seria o destino com maior possibilidade de uma contextualização correta sobre as estátuas que homenageiam personalidades ligadas ao escravagismo. "Um museu que se possa abordar a resistência, como foi o processo, quem se beneficiou no passado e no presente, quem foi prejudicado. Ainda mais aqui no Estado, onde sempre se negou o peso da escravidão", critica o professor. Caso existisse algum lugar como o sugerido, talvez uma situação que Fernanda Oliveira classifica como "inaceitável" não acontecesse. A professora refere-se ao que ocorre nas charqueadas, localizadas principalmente na Zona Sul do Estado. Tratam-se de locais onde era produzido o charque (daí o nome) e intimamente relacionado à história dos escravos no Rio Grande do Sul. Os relatos da época são de que o tratamento por parte dos proprietários era o pior possível - basta lembrar que o vilão na lenda do Negrinho do Pastoreio era um estancieiro que maltratava os negros. "As charqueadas não podem ser descoladas das questões escravistas. E, no entanto, as pessoas acham válido fazer festa dentro uma charqueada", afirma, lembrando todo o sofrimento do povo negro ocorrido naqueles locais. Hoje em dia, os lugares não apenas permanecem abertos como pontos turísticos, como também locam o espaço para formaturas, aniversários e até mesmo casamentos. "Não se pensa, sob hipótese alguma, em alguém fazer festa num campo de concentração. Porque lá, aquilo foi constantemente falado, se cuidou para reparar. As pessoas, as vítimas, tiveram o direito à memória. No Brasil, não temos o direito à memória da escravidão. Isso ainda impacta, porque as pessoas defendem nomes de ruas de escravagistas", completa a professora.

Após protestos que acusavam o filme de ser racista, a HBO retirou de sua plataforma de streaming o clássico ‘E o Vento Levou” / Foto: MGM / Divulgação / CP

As discussões em torno do racismo nos últimos dias não ficaram restritas à onda de derrubada de estátuas. No dia 10 de junho, após protestos que acusavam o filme de ser racista, a HBO retirou de sua plataforma de streaming HBO Max (ainda indisponível no Brasil) o clássico "E o Vento Levou", de 1939. À época, um porta-voz da empresa explicou que a produção era "um produto do seu tempo e contém alguns dos preconceitos étnicos e raciais que, infelizmente, têm sido comuns na sociedade americana. Estas representações racistas estavam erradas na época e estão erradas hoje, e sentimos que manter este título disponível sem uma explicação e uma denúncia dessas representações seria irresponsável". A medida não é inédita em tempos recentes. No final do ano passado, quando lançou o Disney+, seu serviço de streaming nos Estados Unidos (também indisponível no Brasil), a companhia colocou avisos no início de diversas produções: "Este programa é apresentado como criado originalmente. Ele pode conter representações culturais desatualizadas". O alerta antecedeu filmes como "Dumbo", "Fantasia", "Mogli - O Menino Lobo" e "Peter Pan", todos direcionados ao público infantil. No caso da HBO, a retirada não durou muito tempo. A produção vencedora de oito Oscars, contudo, deve retornar antecedida de um vídeo no qual Jaqueline Stewart, professora da Universidade de Chicago explica o controverso legado da obra.

Como era de se esperar, a decisão da retirada por parte da HBO gerou polêmica. Há quem veja a medida como censura, há quem acredite que, da mesma forma como na questão das estátuas, é preciso de uma contextualização, e há quem ache que produções deste tipo não são mais aceitáveis em pleno 2020. Para a cineasta Camila de Moraes, entre a medida da HBO e a da Disney, a primeira é mais adequada. "Não vejo como censura. No caso da Disney, ela simplesmente coloca o aviso e continua exibindo sem uma reflexão maior. Ela não está disposta a debater e entrar no tema, engajar para o que está acontecendo e como isso pode mudar a realidade. Ela só está botando por botar, e não de fato para ter uma reflexão. Já no caso da HBO, só nessa ação o mundo inteiro já está debatendo sobre o tema. Isso é importante, causar essa reflexão, esse debate, mesmo que retorne", opina a diretora do filme "O Caso do Homem Errado", de 2017. Para ela, no entanto, seria saudável revisar a história do cinema em busca de outros filmes tão ou mais importantes, seja do ponto de vista de técnica ou narrativa, que não apresentem conteúdos de cunho racista. A partir do momento em que forem redescobertos mais autores negros, um novo viés deve surgir. "Por mais que sejam recontados fatos históricos, é sempre a ótica branca, um negro pode ter outra ótica. É como um velho ditado africano que diz: 'Até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça'. E só ouvimos os caçadores", justifica.

Ao contrário da discussão dos monumentos, há um elemento que torna o debate sobre a disponibilização dos filmes um tanto quanto diferente. Enquanto as estátuas estão em vias públicas e são, formalmente, uma homenagem, as produções cinematográficas têm muito mais um caráter de registro. "A estátua ocupa um espaço público inevitável, tirar ela dali faz mais sentido. Já o filme tu tens que ir lá ver, ele não pula em cima de ti, é uma opção. Se não quiser, não precisa", afirma Jorge Furtado, diretor de filmes como "O Homem que Copiava" e vencedor do Urso de Prata de melhor curta no Festival de Berlim de 1989, por "Ilha das Flores". Para o cineasta, é preciso assistir a "E o Vento Levou" com uma visão crítica, mas manter a sua disponibilidade. "Não pode esquecer que ele existe, não adianta apagar o passado que não é uma boa ideia, aliás, é uma péssima ideia, tem que aprender com ele. Talvez, se estudássemos mais o fascismo e como ele funcionou, não estivéssemos na situação que estamos hoje", aponta. Furtado observa que há casos em que o próprio autor da obra sente necessidade de uma atualização. Ele cita como exemplo quando, em 2002, o diretor Steven Spielberg lançou uma nova versão do clássico "E.T. - O Extraterrestre", de 1982, e digitalmente, trocou as armas que os policiais seguravam por rádios-comunicadores. "Ele se arrependeu de ter colocado armas nas mãos de pessoas em um filme infantil", lembra o diretor, que prossegue: "O mundo vai mudando e a gente aprendendo. Quando eu fiz o 'Houve uma Vez Dois Verões', um personagem tem uma piada gordofóbica, quando ele diz que 'hoje, eu comeria até gorda'. É do personagem, fazia sentido ali, mas talvez hoje eu não colocasse, talvez isso pudesse estigmatizar alguém". Para Juremir Machado da Silva, o exemplo da produção retirada - e depois recolocado - pela HBO pode ser estendido até mesmo a obras mais polêmicas. "O filme tem que estar disponível em algum lugar, assim como o "Mein Kampf" (a obra na qual Hitler expressa ideias antissemitas). Ele não pode ser proibido, tem que existir em uma biblioteca. Agora, se eu sou dono de uma livraria, eu me recuso a vender, não sou obrigado. Não quer exibir, ok, mas não pode ser proibido", afirma.

No campo oposto, há historiadores negros que não veem mais espaço para um filme como "E o Vento Levou" nos dias de hoje. E tampouco encaram essa negativa como censura. "É fundamental retirar um filme desses do catálogo. Ele precisa permanecer como obra estética, mas com mediação, com pessoas que têm formação para isso. Retirar é extremamente importante porque as pessoas consomem conteúdo. E em pleno século 21, não consigo me deparar com aquilo como entretenimento", justifica a professora Fernanda Oliveira. As afirmações encontram eco na linha de pensamento de Marcus Rosa. "Não é censura porque ele efetivamente fere uma memória histórica e de uma população e tem consequências no presente. Ele reatualiza o racismo, que mata, que nega direitos. A gente acha que um filme desses é inocente, mas ele leva o racismo para gerações futuras com uma leitura que é atualizada e orienta práticas políticas", afirma ele, para logo em seguida enfatizar: "As pessoas precisam entender que elas não têm o direito de serem racistas".

Trechos racistas de livros de Monteiro Lobato suscitam debate sobre destino mais adequado da obra do autor. Ilustração: J U CAMPOS 

Se a produção de Victor Fleming gera desconforto e levanta o debate sobre disponibilidade de conteúdos considerados impróprios, há um caso bem mais perto que deixa bem menos margens para dúvidas: Monteiro Lobato. O escritor, autor de clássicos como "O Sítio do Pica Pau Amarelo", considerado por décadas uma obra indispensável em qualquer coleção infantil, foi revisitado nos últimos anos com outros olhos, que passaram a destacar trechos que teriam conteúdo racista. "Não vai escapar ninguém, nem Tia Nastácia, que tem a carne preta", "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima". Esses são dois trechos de "Caçadas de Pedrinho", que em 2014 teve pedida no STF a sua retirada da lista de leituras obrigatórias em escolas públicas. Na ocasião, o ministro Luiz Fux julgou improcedente o pedido. Antes, em 2011, descobriu-se uma carta que Lobato havia enviado a Arthur Neiva em 1928 e publicada pela revista Bravo!, que dirime qualquer contestação sobre seu racismo: "Um dia se fará justiça a Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca", aponta um trecho.

O que se faz a partir de tais constatações? Para Jorge Furtado, a solução seria semelhante ao que sugere para os filmes. "Monteiro Lobato, pelo que se sabe, por cartas, era racista, eugenista. Os livros têm trechos que acho que deviam tirar ou colocar notas explicando. Não é recomendável. Mas negar o valor da obra e a importância, privar a leitura me parece absurdo", opina. Já Fernanda Oliveira pondera o quão nocivo pode ser a introdução da obra de Lobato justamente num público infanto-juvenil, sem capacidade crítica ainda formada. "É reproduzir para as crianças uma série de preconceitos da época. Não significa que vá deixar de existir, mas não pode acontecer sem mediação. Eu adoraria que saísse das lojas também, para mim seria o ideal. Adoraria que a sociedade avançasse a ponto de achar imoral vender Monteiro Lobato, não é o que queremos ensinar neste momento", explica.

A luta pela narrativa nas homenagens não fica restrita ao tema do racismo. Porto Alegre, aliás, é um bom exemplo neste sentido. Em 2014, a Câmara dos Vereadores aprovou um projeto de lei que alterava o nome da Avenida Castelo Branco para Avenida da Legalidade e da Democracia. Uma série de decisões jurídicas se sucedeu até que em 2018, o Tribunal de Justiça do RS decidiu que a mudança não tinha validade por ter sido feita baseada em um rito errado na Câmara. Nesse meio tempo, o debate sobre o significado das homenagens nos nomes de rua esteve constantemente nas manchetes, principalmente nas figuras de quem foi um dos autores do projeto de lei, o então vereador Pedro Ruas (Psol) e da vereadora Mônica Leal (Progressistas), uma das autoras do recurso que pedia a nulidade da alteração.

Entre 2014 e 2018, Porto Alegre acompanhou a discussão em torno de uma das suas principais avenidas. Enquanto, um lado buscava rebatizá-la de Avenida da Legalidade e da Democracia, outro defendia a manutenção do nome Avenida Castelo Branco

Para Ruas, a troca nada mais era do que uma reparação histórica. Inserida num conceito mundial mais amplo, chamado "desmonumentalização", ele pregava a necessidade de que toda e qualquer homenagem a figuras ligadas a períodos nefastos da história fossem retiradas. E neste contexto, o período da Ditadura Militar se encaixaria no conceito. "Sou favorável a que não se homenageie genocidas de qualquer maneira, sejam eles fascistas, nazistas, representantes do Apartheid, o que for", justifica ele, que prossegue: "O nome Castelo Branco representa a Ditadura Militar, tortura, prisão, morte. Não pode ter homenagem. Em contrapartida, a cidade que foi o epicentro da Legalidade não tinha nenhuma homenagem de porte a esse momento da nossa história". Do outro lado, Mônica rebate afirmando que os nomes das vias públicas não podem ser trocados apenas por questões políticas ou de crenças. "Não se pode simplesmente querer trocar o nome das ruas. Imagina uma pessoa que não é católica e acorda de manhã decidida a tirar o nome da rua Espírito Santo. Isso criaria uma insegurança jurídica", justifica. A vereadora alega ainda que as pessoas se referem aos nomes das ruas muito menos no sentido de homenagens e mais de algo já enraizado no cotidiano. "São referência para localizações, pertencem àquele local e ao município de forma arraigada. Podemos pensar isso vendo como chamamos certos logradouros de Porto Alegre, de forma quase afetiva, como a Cristóvão, a Osvaldo, a Duque, a Nilo, e assim é em todas as cidades. Nessa altura não pensamos essa denominação como alguém importante da história, mas na própria rua ou avenida", pondera.

Seja como for, fato é que, na segunda metade dos anos 1930, boa parte das ruas da Capital sofreu uma revisão histórica trocando de nome ao longo do tempo, servindo de homenagens para personalidades, na sua grande maioria políticos ou militares. Assim, vias como a Rua do Arvoredo virou Coronel Fernando Machado, a Rua da Praia virou Rua dos Andradas e o Beco dos Guaranis virou General Vasco Alves. Há ainda casos de figuras proeminentes que acabaram sendo homenageadas duplamente em vias que até hoje são de grande circulação, como Luís Alves de Lima e Silva, político e militar que até hoje é lembrado tanto pela Rua General Lima e Silva como pela Rua Duque de Caxias.

Quanto tempo levará até que um novo processo de revisão seja colocado em prática é uma pergunta sem qualquer indício de respostas. Não que faltem sugestões: "Por mim, a cada 50 anos revisam-se todos os nomes das ruas. Uns seriam confirmados, outros trocados. Tem muito nome que a gente não tem nem ideia de quem foi", aponta Juremir Machado da Silva. Uma vez que o ex-vereador Pedro Ruas adianta que a luta para transformar a Avenida Castelo Branco em Avenida da Legalidade ainda não acabou e que um novo projeto já está sendo gestado e deve ser apresentado em breve, o próximo capítulo pela disputa da narrativa das homenagens na Capital não parece tão longe assim.