O desastre climático que acomete o Rio Grande do Sul criou um cenário sem precedentes na história do estado, que coletivamente a população tem buscado enfrentar. A Defesa Civil aponta, até agora, 151 mortos e 104 desaparecidos. Além disso, há cerca de 732,5 mil pessoas fora de suas casas, seja por falta do fornecimento de água, luz, dificuldade de acesso, alagamento ou inundação total da propriedade, segundo a Confederação Nacional dos Municípios (CNM).
Embora as experiências e danos sejam diversos e pessoais, o estresse é coletivo, conforme avaliam especialistas. Maioria entre os voluntários da Secretaria Estadual da Saúde — dos 14 mil profissionais cadastrados, 70% são psicólogos —, a categoria trabalha para diminuir os impactos negativos que este cenário de destruição causa na saúde mental dos afetados, sobretudo das crianças. Vulneráveis ao medo, ansiedade e desenvolvimento de traumas, elas devem ser amparadas por pais e responsáveis, em conversas abertas e cuidadosas sobre o ocorrido. É o que orienta o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em publicação divulgada nesta semana (abaixo). Para ajudar a mediar o diálogo, psicólogas de vários municípios lançaram livros infantis que tematizam as enchentes. A proposta é que os materiais auxiliem os adultos a fornecer, às crianças, o suporte necessário neste momento.
Uma dessas publicações é “A tempestade passou o amor ficou”, de autoria de uma dupla de psicólogas: Marina Gusmão e Maihana Fonseca. Outrora professora e aluna — Marina ministrou um curso a respeito de regulação emocional em crianças, no qual Maihana participou —, as duas escreveram a história de Gu, “um elefante que ama morar na selva e brincar”. A escolha do elefante reporta à filha de Maihana, Rebeca, de 3 anos, que é apaixonada por eles. Na história, depois de uma tempestade muito intensa que alagou todos os rios da floresta, Gu, com a ajuda dos pais, precisou entender o que aconteceu e processar suas emoções frente a isso.
Marina, que atua com psicologia infantil há 30 anos, explica que o livro, também disponível em Libras, pretende dar valor às relações de amparo e zelo.
“Mas sem, em nenhum momento, invalidar as emoções que vêm junto com essa situação. Sem invalidar a tristeza pela perda de coisas importantes, sem invalidar o medo de que a chuva possa voltar, mas acolhendo essas emoções”, argumenta.
A ideia de elaborar o material surgiu a partir da atuação da psicóloga com crianças de um abrigo em Novo Hamburgo. “Eu via que algumas perguntavam, como se elas não estivessem compreendendo bem o que está acontecendo. ‘Ah, começou a chover, um tio nos tirou de barco de casa e eu vim parar aqui’”.
A literatura pode ser, desse modo, um bom instrumento para mediar o diálogo nesses casos, porém o seu uso requer cautela, adverte Marina. Os responsáveis devem ponderar sobre a leitura do material em relação ao tempo e necessidades de cada criança. “A gente tem que ter cuidado, nas primeiras semanas após um evento como esse, em relação a não forçar a criança a reviver uma coisa que possa ter sido traumática para ela”, orienta. A psicóloga afirma que, nesse momento, o ideal seria que o livro fosse utilizado por profissionais, mas, na impossibilidade do contato, os pais e responsáveis (ou voluntários, no contexto dos abrigos) também podem abordar o assunto tendo o livro como mediador. “Primeiro perguntando se elas gostariam que contassem o livro para elas, dizendo que é uma historinha que explica um pouco sobre o que está acontecendo, e respeitar caso a criança não queira falar sobre aquilo”, diz.
A orientação de Marina é endossada por outra profissional de mesmo nome, Marina Fim de Campos, psicóloga infantil em Antônio Prado, município da Serra gaúcha. Ela é autora de “Vicente e a enchente”, livro que também busca auxiliar o público infantil a compreender o contexto por que passa o estado. A ideia da publicação surgiu a partir das consultas de Marina com seus pacientes. Nenhum deles ficou desabrigado, mas sofreram os impactos da tragédia de diversas outras formas. A leitura do livro pode ser útil também nesses casos, afirma a psicóloga. “É importante que elas tenham conhecimento do que está acontecendo. A gente sabe que, às vezes, os pais ficam com medo de trazer essa questão para as crianças, de falar sobre as enchentes, porque não é algo que está acontecendo ali com elas, e as informações são muito pesadas”. No entanto, ela destaca que é preciso que os responsáveis filtrem os conteúdos que chegam às crianças, sem deixar de abordar a temática com elas, e sempre respeitando uma eventual negativa de falar sobre o assunto neste primeiro momento. Assim como a publicação de Marina e Maihana, “Vicente e a enchente” traz proposições lúdicas ao final da história, como desenhos para colorir. “São atividades leves, que a gente consegue deixar a mensagem de que se ela não quiser falar está tudo bem, que os sentimentos são confusos mesmo e que, se ela precisar de ajuda, ela pode solicitar”, ressalta a profissional.
Cuidado no manejo
Tal como a superexposição a notícias sobre essa catástrofe pode ser maléfica a adultos, o mesmo ocorre com as crianças, indica o Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse da Pontifícia Universidade Católica do RS (Nepte/PUCRS). “Esses livros podem ser muito interessantes em certos contextos de intervenção, porque auxiliam a criança a processar e elaborar o evento traumático. Entretanto, precisamos ter um certo cuidado. Não devemos sobrecarregar as crianças com obras desse tipo, porque, seja na apresentação de muitos livros sobre o tema ou na exposição repetida a um mesmo livro, corremos o risco de interferir e fazer uma reconsolidação da memória traumática de uma forma não desejável”, afirma Christian Kristensen, professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS, em material divulgado pelo Núcleo em uma rede social.
Luciana Barcellos Fossi, conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul (CRPRS), também considera que os livros em questão podem ser benéficos, mas devem ser utilizados com cautela e responsabilidade. No caso de crianças alojadas em abrigos, é preciso atenção às necessidades de cada uma delas em cada momento. “Talvez a demanda seja compreender a divisão de espaço e a privação que ela está tendo de muitas das coisas do seu cotidiano, mais do que falar sobre o ocorrido. Talvez elas estejam sofrendo mais, por exemplo, por não estarem indo na escola”, aponta Luciana. “É preciso manter essas crianças em atividades em que elas fiquem ocupadas, permitindo, razoavelmente, uma rotina organizada, que possam brincar livremente e ter vivências lúdicas mais direcionadas, que façam com que elas entendam aquele coletivo e qual o seu papel na coletividade”. A profissional considera que a brincadeira é uma das principais formas de comunicação das crianças. E lembra que, por vezes, é por essa via que elas vão expressar seus sentimentos e demandas em relação ao momento por que estão passando. Marina Gusmão, autora do livro que tematiza as enchentes por meio do elefante Gu, endossa a colocação. “Muitas vezes o que acontece é que a criança, necessariamente, não traz isso através de um relato. Inúmeras crianças, brincando ali comigo [nos abrigos], escolheram, de forma muito simbólica, o rodo e a vassoura para brincar. Elas derrubaram um pouquinho de água no chão e limpavam. É um espaço lúdico que também tem uma expressão do que eles estão passando”, revela.
Unicef orienta responsáveis
Nesta semana, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou uma lista de orientações para pais, responsáveis e cuidadores no acolhimento às crianças afetadas pelas chuvas nos municípios gaúchos. Confira as orientações:
- Quando conversar com a criança, procure manter a calma e respirar. As crianças sentirão o mesmo que veem em você.
- Em caso de evacuação, explique brevemente o que vai acontecer. Se as condições permitirem, deixe que fiquem com um objeto especial, como um brinquedo.
- Pergunte o que a criança sabe sobre o que está acontecendo e ouça com atenção o que tem a dizer. É provável que a criança repita muitas vezes o que pensa. Diga que suas perguntas e comentários são importantes.
- Se a criança não quiser conversar, não a pressione. Se a criança chorar, não a peça para parar ou reprimir suas emoções. O choro também é uma forma saudável de descarga emocional.
- Explique, de forma real e simples, o que está acontecendo. Evite mentir, como dizer que “isso não vai acontecer de novo”.
- Se estiver em abrigos, veja se é possível reservar um espaço em que as crianças possam brincar em segurança.
- Na medida do possível, tente retomar uma rotina e procure proporcionar espaços de brincadeira com outros meninos e meninas. Estimule que a criança desenhe, pinte, ouça música e brinque.
- Lembre-se de que você também está sob estresse emocional. Cuide-se para poder dar o apoio necessário aos meninos e meninas. Compartilhe o que você sente com outras pessoas.
- Crie oportunidades para que todas e todos se sintam parte das soluções, inclusive crianças e adolescentes com deficiência. Encontrar maneiras seguras de contribuir é um caminho valioso de fortalecimento.
- Ajude a identificar apoios em suas vidas, como amigos ou familiares. Incentive a reflexão sobre como conseguiram lidar com situações de dificuldade do passado, afirmando a habilidade que têm de lidar com a situação atual.
- Sempre forneça informações corretas sobre uma situação de crise. Se não souber responder, proponha descobrirem juntos e juntas.
Gabriela Sardi, sob supervisão de Maria José Vasconcelos