Especial

Destroços se tornaram objeto de disputa

O destino dos restos do encouraçado Graf Spee é o tema da quarta reportagem sobre a Batalha do Rio da Prata

Afundamento do Graf Spee
Afundamento do Graf Spee Foto : Miguel Rojo / AFP / CP Memória

Destruído por explosivos instalados por ordens do capitão, Hans Langsdorff, consumido pelas chamas durante dias, o encouraçado de bolso alemão Admiral Graf Spee insistia, no entanto, em não afundar. O navio de 186 metros de comprimento e 16,2 mil toneladas submergiu parcialmente no lodo da foz do Rio da Prata, em um ponto de apenas 11 metros de profundidade, uns oito quilômetros ao sul de Punta Yeguas, próximo a Montevidéu. Os destroços fumegantes e enegrecidos logo atraíram homens interessados na história e, principalmente, em busca de segredos da moderna tecnologia embarcada no navio.

Arlindo Pasqualini e Santos Vidarte, correspondentes enviados pela Folha da Tarde, vespertino da Caldas Júnior, estavam entre os primeiros a visitar o local, na manhã seguinte à explosão do navio, ocorrida no início da noite do dia 17 de dezembro de 1939.

“Conseguimos esta manhã navegar ao redor do ‘Graf Spee’. O navio está partido ao meio com todas suas partes fora da água. As chamas continuam cada vez mais fortes”, escreve Pasqualini. Vidarte, por sua vez, produz, naquele momento, fotografias definitivas dos restos do Spee.

A partir de então, peças e relíquias passaram a ser retiradas do barco. Somadas a itens entregues por tripulantes que permaneceram no Uruguai, formaram um acervo considerável, hoje exposto no Museu Naval de Montevidéu, onde se pode ver, por exemplo, um dos canhões de 150 mm que formavam o armamento secundário do encouraçado e um torpedo, além de uma infinidade de itens de menor porte. Também o museu do Quartel Passo do Rei, em Saradí del Yí, no departamento de Durazno, tem uma ala dedicada ao Spee. No quartel, parte da tripulação alemã permaneceu internada até 1946.

Afundamento do Graf Spee | Foto: Miguel Rojo / AFP / CP Memória

Entre 1942 e 1943, os destroços foram parcialmente desmontados, depois de adquiridos pelo governo britânico, disfarçado em uma empresa de fachada uruguaia. A Grã-Bretanha tinha interesse em vasculhar o navio para obter conhecimento sobre a formidável precisão de tiro do encouraçado. Mais tarde, o governo alemão comprou

os direitos de salvamento. Ainda assim, coube aos uruguaios a retirada de elementos importantes, como um dos telêmetros, de 27 toneladas, recuperado em 2004, e de uma águia de bronze que ornamentava a popa do navio.

Na segunda edição da Folha da Tarde no dia 18 de dezembro de 1939, Pasqualini informa que a águia havia sido salva do afundamento por Langsdorff. A recuperação da peça, porém, só ocorreu em fevereiro de 2006. Com cerca de dois metros de altura e peso aproximado de 400 quilos, a escultura é composta pela representação da ave, que segura sob suas garras uma coroa de louros emoldurando uma suástica. Trazida à tona por iniciativa privada, a peça foi exposta brevemente em um hotel de Montevidéu, antes de ser recolhida pelo governo diante de protestos da comunidade judaica. Seguiu-se uma disputa judicial encerrada em 2014, determinando que a águia fosse leiloada, e os recursos destinados ao ressarcimento dos que financiaram a retirada, gerando novas reclamações de entidades judaicas. No ano passado, o presidente do país, Luis Alberto Lacalle Pou, cogitou derreter a escultura e transformá-la em uma pomba, mas logo desistiu da ideia, em razão das críticas manifestadas. Até o momento, o problema permanece encaixotado e armazenado na Fortaleza General Artigas, no Cerro de Montevidéu.