Há 85 anos, no amanhecer do dia 16 de dezembro de 1939, havia mais de 48 horas que o encouraçado de bolso alemão Admiral Graf Spee lançara ferros na baía de Montevidéu, no Uruguai. Hans Langsdorff, o capitão do navio, e Otto Langmann, o embaixador alemão no país, percorriam as ruas da capital oriental, indo de uma reunião a outra com o governo do presidente Alfredo Baldomir e com empresários estabelecidos na região.
O objetivo da movimentação era expandir o prazo anunciado por Baldomir para que o Spee deixasse as águas territoriais e, ao mesmo tempo, conseguir combustível e ajuda para reparar danos sofridos na Batalha do Rio da Prata, no dia 13, no enfrentamento contra três cruzadores britânicos.
Naquele sábado, a manchete da Folha da Tarde anunciava que o encouraçado estava “Intimado a zarpar” e que partiria na noite de domingo para as águas do Atlântico, onde, provavelmente, seria interceptado por uma frota inimiga. Com pouca munição e combustível, com buracos no casco próximos à linha de flutuação, entre outras avarias, o Spee dificilmente poderia retornar à Alemanha e, muito menos, entrar em combate novamente.
Em todas as conversações, no entanto, os alemães só obtiveram um não, exceto para tratamento aos feridos nos hospitais da cidade, onde os marinheiros alemães recebiam visitas de moças uruguaias para animar seus espíritos e facilitar a recuperação.
Os jovens tripulantes estavam embarcados desde agosto, sem colocar os pés em terra firme até então. Assim, algum dos encontros nos hospitais resultaram em casamentos. Langsdorff também foi autorizado a enterrar os 36 mortos no Cementerio del Norte, a maior das necrópoles de Montevidéu.
O sepultamento dos homens da Kriegsmarine ocorreu na sexta-feira, 15. Langsdorff recebeu permissão para desembarcar uma tropa armada que acompanharia o longo cortejo ao distante cemitério, prestando homenagens militares. Nas fotos da cerimônia, diante dos caixões, a maioria dos presentes faz a saudação nazista, mas Langsdorff aparece batendo continência.
Apesar da condição de inimigo e de principal articulador britânico junto à diplomacia uruguaia para forçar a saída do Spee, o embaixador britânico, Eugen Millington-Drake, participa das exéquias, em trajes de gala. Encerrado o evento, Lansgdorff recebe a imposição de deixar o Uruguai no dia 17, no início da noite.
A alternativa à permanência do encouraçado no porto seria o internamento do barco e da tripulação, até o final do conflito, sob responsabilidade da República do Uruguai. Desde Berlim, a ordem era clara: nada de internamento. Langsdorff poderia tentar levar o Spee para Buenos Aires, um porto politicamente mais amistoso ao Terceiro Reich, mas corria o risco de entupir o sistema de refrigeração das máquinas nas águas lodosas do Prata. A determinação de Hitler era de que o capitão conduzisse o Spee e os 1,2 mil homens sob seu comando para o Atlântico e para o inevitável sacrifício. Langsdorff, porém, tinha outros planos.
Chegada dos correspondentes da Folha da Tarde
Ainda na manhã do dia 16, em Porto Alegre, o diretor da Folha da Tarde, Arlindo Pasquali, e o chefe de fotografia, Santos Vidarte, uruguaio naturalizado brasileiro, deixam a cidade rumo a Montevidéu, para dar início à cobertura internacional da Caldas Júnior, provavelmente a primeira promovida por um veículo de comunicação no Rio Grande do Sul.
“Os acontecimentos da costa uruguaia serão descritas por um enviado especial de Folha da Tarde”, anuncia uma chamada na contracapa da edição do dia 16 do vespertino. O texto salienta que o episódio continua “polarizando, pelo vulto, as atenções, não apenas da América do Sul, mas de todo o mundo, passando a ocupar o fato de maior destaque no noticiário do conflito europeu”.
Pasqualini e Vidarte embarcam em um voo de carreira da Varig até Jaguarão, no sul do Estado. De lá, a bordo de uma aeronave da Pluna, seguem para Montevidéu, onde desembarcam no fim da tarde daquele sábado. No dia seguinte, 17, o Spee e sua tripulação enfrentariam o próprio destino.