Rica de histórias, como o Centro Histórico de Porto Alegre, algumas passageiras, outras que remontam comportamentos de gerações, a linha C1 – Circular Centro – saiu de cena. Pelo menos por enquanto.
Ausente desde o dia 8 de agosto, já não é nada fácil encontrar usuários desavisados em uma das 29 paradas que percorria. Embora a reação de lamento, o estudante da Escola Técnica Parobé, Eduardo Lorenzi Cardoso, 18 anos, conta que já vinha optando por caminhadas, bicicletas, patinetes e até mesmo transporte por aplicativo para ir e voltar da escola, na Loureiro da Silva, e da residência, na Cidade Baixa. “Quando coincidia de passar no horário de saída de casa ou da escola, eu até usava. Não chegava a lotar, mas vazio também não estava”, compara.
Além da Loureiro, a linha C1 também percorria vias importantes do Centro Histórico, como General João Manoel, Sete de Setembro, Duque de Caxias, Loureiro da Silva, Borges de Medeiros e Fernando Machado. “Não percebi (a retirada da C1). Eu pego o primeiro que passa”, avisou a aposentada Lorena de Ávila, 72 anos. Moradora da Duque de Caxias, no Centro Histórico, ela conta com ofertas de outras linhas, como a C2.
DOS TEMPOS DOS BONDES
Operada pela Carris, a linha C1 foi assim batizada, mas herdou trechos do itinerário feito pelas primeiras linhas de ônibus movidas a diesel e também por bondes que serviam a região central de Porto Alegre. Um deles era o antigo bonde Duque, conhecido como “gaiola”, pelo formato de construção – fechado – e pelo sacolejar nos trilhos, de acordo com registros históricos.
A Duque foi também a única linha de bonde a transitar na madrugada, sendo a alegria dos boêmios do passado. Contudo, era também o pesadelo dos moradores que viviam próximos às rotas, por “ranger” as rodas nos trilhos, gerando um incômodo barulho a quem descansava.
Um cartaz de novembro de 1982 anunciava a novidade que viria com a implantação das linhas centrais C1 e C2. A responsável pelo empreendimento era a arquiteta Maria Lúcia Grau, da Assessoria de Planejamento e Programação da então Secretaria Municipal dos Transportes. As duas linhas substituíam a antiga linha 51 – Duque de Caxias, com a vantagem de cobrirem uma área maior. O projeto foi realizado segundo pesquisa que verificava o destino da maior parte dos passageiros, de acordo com registros históricos.
CAMINHO DAS INOVAÇÕES
A C1 também ficou marcada pelas inovações. Mais que carros movidos por eletricidade ou combustível fóssil, foi uma das primeiras linhas da Capital a implantar os “modernos” tickets que substituíam o dinheiro no pagamento da passagem. Estes passes, no formato de pequenos cartões de papelão e dotados de tarja magnética para validação na roleta, eram emitidos pelas empresas de ônibus e comercializados em bancas de jornal e outros pontos autorizados. Viu ainda a revolução das fichas plásticas e de tecnologias digitais, como os cartões de recarga eletrônica, monitoramento por câmera e acompanhamento do trajeto em tempo real por GPS.
Modas surgiram e desapareceram a bordo. Não apenas na vestimenta ou no comportamento dos passageiros. Do elegante terno ao prático tênis, fumando ou lendo jornal, do “radinho de pilha”, passando pelo Walkman e chegando ao smartphone, gerações percorreram o centro de forma diferente, mas é certo dizer que milhares viram a transformação da cidade pelas janelas de algum dos coletivos que faziam a linha C1.
FALTA DE PASSAGEIROS
A C1 é uma das quatro linhas desativadas pela prefeitura de Porto Alegre no início de agosto. Além disso, a administração municipal mexeu na frequência de viagens em outras 21. De acordo com a Secretaria de Mobilidade Urbana, “as mudanças fazem parte do processo de otimização do sistema”.
O critério utilizado considerou dados sobre a demanda de passageiros. A queda de passageiros no transporte coletivo causada por alternativas como os carros de aplicativo é uma das questões observadas pela pasta para promover reduções, suspensões, retomadas ou ampliações de itinerários.
Conforme a justificativa, a linha C1 – Circular Centro transportava, em média, 11 passageiros por viagem em dias úteis, em 19 partidas diárias. Aos sábados, a média seria de três passageiros por viagem.
Também foram desativadas as linhas C5 – Circular 4º Distrito/Moinhos de Vento e a A18 – Alimentadora Chácara do Banco/Noite. Esta primeira ofertava quatro horários diários e estaria carregando, em dias úteis, três passageiros por viagem e média de quatro passageiros aos sábados e dois aos domingos. Por sua vez, a linha A18 – Alimentadora Chácara do Banco/Noite, que possuía itinerário semelhante ao da linha A11, transportava, na média mensal, menos de um passageiro por viagem. A prefeitura alega que aproximadamente 50% das viagens destas linhas circulava sem nenhum passageiro aos domingos.
A linha 110 - Restinga Nova via Tristeza, que havia sido suspensa temporariamente, retornou à operação normal aos sábados e domingos.
GALERIA DE FOTOS: Era dos bondes e os primeiros ônibus a diesel
O transporte da Capital ao longo do tempo
Os primeiros ônibus movidos a diesel circularam em Porto Alegre a partir de 1932, conforme registros históricos da empresa Carris, responsável pelo transporte público na cidade. Antes disso, o transporte público era feito por bondes de tração animal e, posteriormente, elétricos.
A Carris, fundada em 1872, inicialmente operava com bondes puxados por animais. Com o avanço da tecnologia, a empresa começou a incorporar ônibus movidos a diesel em sua frota, marcando o início de uma nova era no transporte público da cidade.
Embora o primeiro ônibus a diesel tenha sido criado em 1895 por Karl Benz, a disseminação desse tipo de veículo para o transporte público em Porto Alegre ocorreu mais tarde, com a Carris sendo pioneira nesse processo. A década de 60 marcou o início do processo de retirada dos elétricos em Porto Alegre. Em 1966 seria a vez dos da linha Duque, que teria três bondes substituídos por ônibus a diesel.
5/01/1873 – Primeira viagem de um bonde da Carris em Porto Alegre, na linha Menino Deus.
10/03/1908 – Primeiro bonde elétrico entra em circulação.
1914 – Circula o último bonde puxado a mula.
1926 – Primeiro ônibus circula em Porto Alegre, de propriedade de Amador dos Santos Fernandes e Manoel Ramirez. A Cia Força e Luz Porto-Alegrense vende suas usinas para a CEERG, criada em 1923, de propriedade do grupo Electric Bond & Share, e passa a se chamar Cia. Carris Porto-Alegrense.
1952 – Sucessivas greves e desinteresse dos norte-americanos da Bond & Share em manter os bondes levam a prefeitura a intervir na companhia. Assume como interventor José Antonio Aranha, irmão do ministro Oswaldo Aranha.
29/11/1953 – Após o período de intervenção, a prefeitura, na gestão de Ildo Meneghetti, encampa a Carris, assumindo o controle acionário.
1956 – Carris encerra o serviço de transporte por ônibus e transfere seus veículos para o Departamento Autônomo de Transportes Coletivos (DATC).
1964 – Carris começa a operar sistema de trólebus (ônibus elétricos), inicialmente com cinco veículos e depois com mais quatro. No entanto, problemas de adaptação da voltagem na rede impediram o bom funcionamento do serviço.
29/09/1966 – Companhia retoma o transporte por ônibus. Três bondes da Linha Duque são substituídos por ônibus a diesel, iniciando o processo do fim dos bondes elétricos.
19/05/1969 – Circula o último trólebus.
8/03/1970 – Circulam os últimos bondes elétricos nas linhas Partenon, Glória e Teresópolis. Houve solenidade de despedida, à qual compareceram o prefeito e autoridades. Toda a população pôde viajar gratuitamente.
1982 – Inicia o tráfego das linhas circulares C1 e C2.
1989 – Criada a linha T5
1990 – Entra em operação a linha T6.
1995 – Implantada a linha T1 Direta.
1997 – Começa a circular a linha T2A.
1998 – Inicia tráfego da T7.
1999 – Criada a linha T8.
1999 – A Carris opera 24 linhas: 17 transversais, 4 circulares e 3 radiais. A frota atingiu 347 veículos, com 315 em operação e 32 reserva. 89% contava com acessibilidade e 82% com ar-condicionado.
1999 a 2001 – A Associação Nacional dos Transportes Públicos concede à Carris o prêmio de melhor empresa de ônibus urbano do país.
2003 – Conquistou o Prêmio Nacional de Gestão Pública do governo federal.
2007 – A frota da Carris passa a operar com o sistema de bilhetagem eletrônica. Começam a rodar os primeiros veículos com biodiesel.
08/09/2021 – Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre aprova a privatização da Carris.
23/01/2022 – Assinatura do contrato de concessão à Empresa de Transporte Coletivo Viamão.
05/05/2024 – Enchente em Porto Alegre. A Carris teve algumas linhas suspensas e outras tiveram desvios de rota, contudo, ajudou no transporte de desabrigados e frete de doações.
19/06/2024 – Carris celebra 152 anos, como uma das empresas de transporte público mais antigas do Brasil e da América Latina.
2025 – É retirada de circulação a linha Circular 1 (C1).