Especial

Em meio à cidade, a revoada das garças

O parque Marechal Mascarenhas de Moraes, em Porto Alegre, conta com área de preservação ambiental e abriga várias espécies

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. Foto : Alina Souza

Em uma tarde comum, quem olha para o céu no Parque Marechal Mascarenhas de Moraes pode encontrar tanto aviões que pousam e decolam do Aeroporto Salgado Filho, poucos quilômetros dali, quanto uma variedade imensa de pássaros que pousam próximo ao banhado para se preparar para a chegada da noite. Mas o que realmente chama atenção são as revoadas de garças de diferentes espécies que chegam sempre ao entardecer. Os grupos podem ser notados de longe, voando alto, pousam aos bandos entre os galhos após passarem a tarde nos arredores da região metropolitana de Porto Alegre, caçando alimento nas beiradas de cursos d’água. Quando chegam, é hora de se reunir e encerrar as tarefas do dia.

Com mais de 18 hectares, dos quais oito são de banhado e seis de reserva ecológica, o espaço é um reduto de natureza preservada que se mescla à vida urbana. Localizado em uma área predominantemente residencial, no bairro Humaitá, o parque é utilizado pelos moradores dos arredores como área de lazer, para prática de exercícios e também de socialização. Para quem frequenta o local, não é novidade a ecodiversidade observada ali.

Aves no Parque Marechal Mascarenhas de Moraes, na zona norte de Porto Alegre | Foto: Alina Souza

Entre as centenas de pássaros que circulam pelo espaço, o diretor científico do Clube de Observadores de Aves de Porto Alegre (CoaPoa), Lucas Nenes, destaca diferentes espécies de garças. “São várias aves que frequentam o parque. Posso citar a garça-branca grande – que é maior e mais vistosa –, a garça-branca pequena – que é muito parecida, mas bem menor –, e a garça-vaqueira – que também tem a coloração branca, mas nesta época, entre primavera e verão, ela adquire uma plumagem dourada”, explica o observador. De acordo com ele, o espaço fornece as condições ideais para que essas aves e outras dezenas de espécies que frequentam o parque escolham fazer ali seus ninhos na época reprodutiva e descansar nas demais estações do ano.

Para o professor do curso de Medicina Veterinária da Universidade Feevale, Marcelo Pereira de Barros, a existência de um espaço com acúmulo de água no parque, preservando organismos vivos, é determinante para a ocorrência de uma biodiversidade notável. Além das espécies citadas, o professor ressalta que outras aves, menos observadas, também frequentam o espaço. “Tem uma família de aves que se chama Ardeidae, que são espécies associadas a ambientes aquáticos. A gente tem outras espécies também que ocorrem ali no parque, como o socozinho e o sabacu, que são dessa mesma família das garças-grandes, mas eles não formam grandes grupos, são mais solitários e, sendo solitários, a gente tem mais dificuldade de observação”, pondera o especialista.

Quem, por hábito, frequenta o parque ao entardecer já conhece a rotina das aves. Alguns moradores dos arredores até se aventuram a indicar os melhores pontos para a observação do comportamento típico das garças, que chegam em revoadas todo final da tarde. Enquanto se escuta o movimento dos carros, aviões e da vida urbana que segue seu ritmo acelerado, é impossível não reparar nas dezenas de aves brancas que invadem o campo de visão logo acima do banhado e, em círculos, voam buscando os melhores galhos para pousar. O som da vida silvestre ganha o primeiro plano e quem passa pelo parque para o que está fazendo para observar o fenômeno.

Com mais de 18 hectares, sendo seis de reserva ecológica, o espaço é um reduto de natureza preservada | Foto: Alina Souza

“As garças chamam a atenção principalmente pelo fato de se agruparem. Elas se agrupam muito para a reprodução, a gente chama isso de ninhais, e elas têm pouseiro ou área de descanso. Isso é um comportamento resultado de um processo histórico de evolução de animais que andam em grandes grupos. Eles podem se dispersar em determinados momentos do dia e depois se juntam”, explica o veterinário. Segundo ele, a característica grupal dessas espécies de garças é justificada pela segurança que o bando fornece. Já o observador acrescenta que “o objetivo de se agregar é socializar, encontrar o parceiro reprodutivo e por proteção, principalmente. Porque são vários olhos atentos, então é mais difícil que um predador não seja detectado antes de conseguir chegar ali e predar alguma das aves”.

Essas características são comuns entre as três espécies de garças presentes no parque, que são as responsáveis pelo fenômeno das revoadas ao cair da tarde. A rotina é algo muito importante para os animais. As aves se destacam por iniciar o dia muito cedo e encerrar suas atividades do ciclo diário antes do sol se pôr. A padronização desses comportamentos é o que norteia a realização das atividades de busca por alimento.

Área usada para reprodução e construção de ninhos

As revoadas são muito mais comuns na primavera, que é a estação do ano em que essas garças se reproduzem. A paisagem toma uma coloração mais branca do que verde e o som das aves pode ser percebido de mais longe. “O parque, de todo modo, é um grande berçário. Um grande oásis no meio urbano, que oferece as condições para que essas espécies se reúnam”, explica o diretor do clube de observadores. Nessa época, o número de aves na vegetação que cerca a área alagada do parque é muito maior. O local é conhecido como uma área de reprodução e de construção de ninhos durante a primavera.

O espaço tem condições para a subsistência de espécies que tiveram habitats tomados pelo avanço urbano | Foto: Alina Souza

Embora seja possível encontrar no parque as três espécies de garças identificadas pelo comportamento de agregação em qualquer horário do dia, a maioria delas só utiliza o local para descanso. Durante o dia, buscam alimento em outras regiões. “Elas podem vir de lugares próximos ou distantes. Aves voam muito bem e muito rápido, é a característica mais marcante delas. Nem todos os membros do grupo têm o mesmo comportamento, têm comportamentos parecidos, mas, individualmente, também podem variar”, explica o veterinário.

Nenes relata que esses indivíduos passam o dia buscando alimento próximo de rios, riachos e outros corpos hídricos na região metropolitana de Porto Alegre. “Elas não surgem do nada ou de longe, elas ficam pelos arredores onde cada uma caça seu alimento e vive sua vida. No final do dia, elas voam em direção ao parque para pernoitar e, na época reprodutiva (primavera), para fazer seus ninhos, criar os filhotes e se reproduzir.”

Apesar de o verão não fazer mais parte da temporada de ninhais, elas seguem pernoitando no parque | Foto: Alina Souza

Apesar de o verão já não fazer mais parte da temporada de ninhais, essas espécies seguem percebendo o local como apropriado para pernoitar. “Ao longo do ano todo, é possível ver garças ali porque é um banhado que, apesar de ser dentro do meio urbano, conserva ainda fauna e flora, árvores que elas julgam adequadas para pousar, passar a noite e reproduzir. Além de ainda ter as presas: peixes, anfíbios e pequenas serpentes no banhado, que elas consomem”, argumenta.

Animais acabam se adaptando a um local que não é o ideal

O professor adverte, no entanto, que a região com aquele acúmulo de água no interior do parque não é exatamente um banhado e sim uma área alagada, uma vez que a vegetação do entorno não é característica deste tipo de curso d’água. Ele destaca a característica adaptativa dos animais que costumam frequentar o parque. “Os avanços urbanos estão espremendo a fauna cada vez mais em pequenos locais. Isso é bem grave. Hoje existe um ramo da biologia e da zoologia que se preocupa muito com essas interações de animais silvestres com seres humanos. Isso acontece cada vez mais não só com aves”, salienta Marcelo de Barros.

De acordo com o veterinário, as aves são o grupo de animais que mais tiveram facilidade ao se adaptar à urbanização dos espaços, em especial, as diferentes espécies de garças que ocorrem em Porto Alegre. Ele defende que esse aspecto contribui para o grupo ser notado com mais frequência nos centros urbanos. “Se tem essa diversidade, significa que elas estão encontrando alimento e um habitat seguro para reprodução. Não é o ideal, mas elas ainda resistem. Algumas espécies de aves estão se tornando basicamente urbanas”, defende.

Estimativas indicam que há cerca de 65 espécies no Parque Marechal Mascarenhas de Moraes | Foto: Alina Souza

Publicações científicas de 2024, que catalogam a ocorrência de espécies em determinadas regiões geográficas, dão conta de que, no Rio Grande do Sul, ocorrem entre 270 e 280 espécies de aves. Conforme o especialista, deste montante, estima-se que cerca de 65 espécies estão presentes no Parque Marechal Mascarenhas de Moraes, o que é considerado “um bom número” pelo especialista, tendo em vista que a região é cercada por edificações.

O parque é aberto ao público e conta com quiosques e quadras esportivas, além da área de vegetação utilizada pelos animais silvestres. O movimento das colônias reprodutivas de garças, assim como as revoadas, pode ser acompanhado na primavera, sempre ao entardecer. O espaço é um dos raros locais que oferecem as condições mínimas necessárias para a subsistência de diversas espécies de animais, que tiveram seus habitats tomados pelo avanço urbano e se mostra como refúgio do ritmo acelerado do dia a dia.