Enchentes no RS: registros de um cenário de guerra

Enchentes no RS: registros de um cenário de guerra

No dia 2 de maio, o rio Taquari atingiu 33,35 metros em Lajeado, causando a maior cheia da história do vale e devastando regiões ribeirinhas

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Correio do Povo

No dia 2 de maio, o rio Taquari atingia 33,35 metros em Lajeado naquela que seria a maior cheia da história do vale. Regiões ribeirinhas foram devastadas, principalmente nos municípios de Arroio do Meio e Cruzeiro do Sul. Muitas outras cidades da região, como Roca Sales, Encantado e Muçum, ainda sofrem com as cheias de 2023 e voltaram a registrar estragos. Pouco menos de 60 dias depois da enchente histórica, o cenário seguia como sendo o de uma guerra, com escombros, lodo e poucos vestígios de construções que um dia já foram palco de histórias de vida.

Cenas de destruição em Lajeado

No centro de Lajeado, nas proximidades da orla do Taquari, os primeiros de andares de prédios construídos na beira do rio apresentam o cenário de destruição. Apenas os andares superiores ainda possuem um resquício de vida por não terem registrado devastação. Já nas proximidades da avenida Beira Rio, o cenário é de guerra. Restos de tijolo, concreto e madeira que um dia já foram base para casas no bairro Colinas hoje se tornam um amontoado de entulho.

Para dentro do pátio das casas, é possível identificar que há uma camada de mais de 30 centímetros de lodo ocupando aquilo que um dia já recebeu brincadeiras em família ou mesmo um momento de lazer em um fim de tarde. Em uma das casas, na esquina com a rua Itajaí, uma mensagem escrita com barro no vidro de uma porta de uma casa reforça o prejuízo além do material ocasionado pela enchente: “Aqui tinha história”.

Ainda na avenida Beira Rio, no sentido a Cruzeiro do Sul, um veículo bloqueia a pista. Entretanto, o motivo não é falha mecânica, mas sim a destruição que a Renault Scenic sofreu com a força do rio. Seu chassi retorcido aponta que o carro pode ter sido arrastado pela água e colidido com estruturas no caminho. No trecho, a camada de asfalto também foi arrancada da pista, parando alguns metros ao lado.

Lajeado, no Vale do Taquari, cerca de 60 dias depois da enchente histórica de maio | Foto: Pedro Piegas / CP

Em Cruzeiro do Sul, pedidos de socorro

Na localidade de Passo Estrela, em Cruzeiro do Sul, um morador deixou um aviso para quem passa pelo local: “Oi gente. Não mecha (sic). No pouco que sobrou vou tentar reconstruir. Aceito material”, aponta a mensagem de socorro da família. O muro que protegia a casa caiu inteiramente sobre a pista, restante apenas o portão estreito que dá acesso ao pátio. Na base do muro, outras placas pediam para que intrusos não entrassem na propriedade para roubar o pouco que restou.

Esta localidade ficou conhecida depois de circularem vídeos de resgates de famílias inteiras por helicóptero, depois de os moradores angustiarem por horas aguardando socorro. Infelizmente, alguns destes vídeos registram também a tragédia de casas sendo arrastadas.

Ainda em Cruzeiro do Sul, próximo da beira do rio, uma casa de madeira (foto) obriga os carros a desviarem pela contramão. O motivo: ela foi arrastada pela força da água e parou em cima do muro da propriedade ao lado, cerca de 10 metros do ponto original da casa. Onde ela ficava, restou apenas o banheiro, fabricado em concreto, e uma parte da parede de madeira pintada de amarelo.

No Centro, o cenário de guerra se repete, principalmente na beira do Taquari. Em vez de algumas poucas casas, um quarteirão inteiro foi varrido do mapa, restando apenas os escombros acumulados sobre o terreno ribeirinho.

Em Cruzeiro do Sul, casas foram arrastadas | Foto: Pedro Piegas

Arroio do Meio: escombros de até 4 metros de altura

Rumo ao norte de Lajeado, depois da ponte de ferro refeita por empresários da região, a cidade de Arroio do Meio dá boas vindas com lama na lateral da estrada e resíduos carregados pela correnteza para o topo de árvores, indicando a altura que o Taquari atingiu. No bairro Navegantes, próximo ao balneário, muitas casas foram varridas.

Paredes estão no chão, com portas e janelas quebradas. Moradores relatam que, em alguns pontos do bairro, havia escombros de até 4 metros de altura, formado por lixo e restos de árvores, trazidos pela forte correnteza do rio. A marca barrenta nas paredes é o indicativo concreto de até onde a destruição chegou.

Prédio símbolo da resiliência no RS, Casa do Peixe de Arroio do Meio passa por obras de reconstrução | Foto: Pedro Piegas

Encantado – Subindo a ERS 130 em direção à região do Alto Taquari, o cenário se mantém. Em Encantado, o bairro também chamado de Navegantes foi um dos mais atingidos. Entretanto, a maioria das casas não possui marca barrenta. Em vez de atingidas parcialmente, elas ficaram submersas.

Roca Sales – Roca Sales também vive em meio a escombros. Logo na entrada, uma grande área destruída, repleta de pedras e tijolos mostra a gravidade da situação. De norte a sul, o Vale do Taquari convive com reflexos de quatro grandes enchentes em menos de um ano e busca forças para se reconstruir.

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895