As inundações e deslizamentos que assolaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 modificaram para sempre a vida de muitos gaúchos, assim como o funcionamento de diversos setores da economia. De acordo com dados publicados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), apenas esse evento climático, considerado como um dos maiores da história do Brasil, provocou mais de 57 mil saques de seguros, com um volume de indenizações que superam R$ 6 bilhões.
A maior parte destes saques foram relacionados a sinistros em imóveis residenciais, contabilizando 29.831 casos, responsáveis por R$ 594 milhões em ressarcimentos. Em segundo lugar em quantidade estão os sinistros em automóveis, pagos para 18.097 segurados, mas com soma de recursos indenizatórios que ultrapassa R$ 1,2 bilhão.
Entretanto, o maior volume pago está relacionado a danos em empreendimentos de grande porte atingidos pela inundação, como estádios e estruturas aeroportuárias. Ao todo, foram 708 sinistros que somaram cerca de R$ 3,18 bilhões. Já no agronegócio, apenas 1.358 indenizações haviam sido pagas, com ressarcimentos de aproximadamente R$ 167 milhões, conforme a CNseg.
Para a entidade, mesmo que o valor de mais de R$ 6 bilhões aportado pelas seguradoras para as indenizações seja o maior já pago pelo segmento no país em apenas um evento, ele compreende menos de 10% das perdas registradas durante as cheias, com valores estimados de R$ 90 bilhões pela Superintendência de Seguros Privados (Susep). Isso porque uma enorme parte dessas perdas não possuía cobertura de seguro.
Para o presidente do Sindicato das Empresas de Seguros Privados, de Resseguros e de Capitalização do RS (SindsegRS), Ederson Daronco, um dos principais potenciais do mercado está justamente no aumento da percepção de risco por parte da população. Essa discussão fomentou, após a cheia, o debate acerca da necessidade de políticas públicas sobre o tema. “A repetição de eventos extremos no Rio Grande do Sul, como enchentes, enxurradas e vendavais, tem aumentado a percepção de risco da população. Aos poucos, as pessoas estão entendendo que o seguro não evita que esses eventos aconteçam, mas pode fazer uma diferença enorme na capacidade de uma família ou empresa se recuperar financeiramente depois de uma perda”, considerou.
CRESCIMENTO E POLÍTICAS PÚBLICAS
Nos meses seguintes à tragédia de 2024, a própria CNseg registrou aumento no ritmo de contratações de seguros. Para o presidente da entidade, Dyogo Oliveira, isso foi fruto justamente do crescimento da percepção de risco e de como os seguros ajudam a sociedade a se precaver a este tipo de situação. Apenas no segmento de seguros patrimoniais, o aumento foi de 16,3%. A alta nas contratações seguiu ao menos até o início de 2025.
“De maneira geral, a cultura de contratação de seguros no Brasil pode avançar bastante. Logo após as enchentes de 2024, percebemos aumento na procura por seguros que oferecessem cobertura para alagamentos e outros eventos climáticos. Contudo, com o passar dos meses, essa procura perdeu parte do impulso inicial e se aproximou dos níveis anteriores à enchente”, avaliou o presidente do SindsegRS, Ederson Daronco.
Neste sentido, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) do governo federal criou um grupo de trabalho chamado de “Seguros Catástrofe” justamente para debater como o mercado de seguros pode contribuir na resposta a sinistros relacionados com eventos climáticos. O relatório, assinado pelo superintendente da Susep, Alessandro Serafin Octaviani Luis, aponta que a magnitude dos impactos contrasta com o grau de proteção financeira securitária disponível à sociedade brasileira.
“Estima-se que apenas cerca de 9% das perdas econômicas decorrentes de desastres climáticos no Brasil sejam cobertas, de algum modo, pelo mercado de seguros, índice substancialmente inferior à média mundial de 45% e às taxas observadas em mercados maduros, que oscilam entre 20% e 55%. Na catástrofe do Rio Grande do Sul, a lacuna de proteção foi de cerca de 93%”, destaca o estudo.
Ainda assim, de acordo com a Susepe, a lacuna de proteção nos estados do Norte e do Nordeste, por exemplo, é ainda mais expressiva, obrigando o poder público a empenhar recursos para a retomada das regiões atingidas por algum evento climático. “A cobertura securitária para esse tipo de risco é praticamente residual e impõe sobre o erário a quase totalidade do ônus de financiar a resposta emergencial e a reconstrução pós-desastre”, completou o relatório.
O grupo de trabalho do órgão discutiu sobre os instrumentos de proteção financeira e securitária contra desastres aplicáveis à realidade brasileira e elencou propostas sobre subsídios técnicos voltados ao fortalecimento da resiliência dos entes federativos, à proteção do patrimônio público e privado e à ampliação da cobertura securitária da população. Para a Susepe, a ocorrência das catástrofes oferece também a oportunidade para ajudar a fomentar o crescimento do mercado e do país. “O conjunto de proposições configura agenda ambiciosa, mas factível, de transição da atual lógica reativa e estruturalmente incentivadora de má qualidade no gasto público para um modelo de proteção financeira e securitária estruturada, sustentável e resiliente, estruturalmente incentivadora de boa qualidade do gasto público. A janela de oportunidade aberta configura cenário propício à transição”, conclui o relatório assinado por Octaviani Luis.
MUDANÇA DE MENTALIDADE
Para o presidente do SindsegRS, Ederson Daronco, a principal mudança no mercado de seguros após as enchentes de 2024 no Estado tem relação com o reflexo da tragédia na mentalidade da população. Isso ocorre a partir do entendimento de que as perdas econômicas provocadas por um evento climático podem ser menores quando a família, as propriedades ou a empresa possuem coberturas de seguro adequada vigente
“Depois das enchentes, as seguradoras e os corretores passaram a dar ainda mais atenção às coberturas relacionadas a eventos climáticos. Houve uma intensificação na oferta e na divulgação desses produtos, e mais companhias passaram a disponibilizar ou destacar a cobertura para alagamentos. A enchente também reforçou a importância de o consumidor entender exatamente quais proteções está contratando”, explicou.
Outra entidade que atua neste setor no Estado é o Sindicato dos Profissionais Corretores de Seguros e das Empresas Corretoras de Seguros no Rio Grande do Sul (Sincor-RS). Para o presidente André Thozeski, as tragédias registradas desde então estão acendendo o alerta na população sobre a necessidade de proteção. Por conta disso, o principal desafio para o mercado de seguros é a cultura de proteção para os riscos.
“Os riscos na residência e no veículo são os mais percebidos. O maior desafio é que as pessoas tenham consciência da importância do seguro. Mesmo com a tragédia, ainda vê-se muita gente que não sabe que o seguro custa pouco. Os corretores estão mais didáticos, explicando mais para os clientes, e isso certamente vai criar novos consumidores”, entende Thozeski.
Atualmente, o Rio Grande do Sul representa cerca de 7% da arrecadação de seguros do Brasil, ocupando a quinta posição nacional em volume de arrecadação, colocando-se como um dos mercados de maior relevância para o setor no país, conforme a SindsegRS. O seguro veicular possui a liderança no Estado em número de contratos. Apesar disso, Daronco aponta que outros tipos de produtos estão apresentando potencial no RS.
“O mercado não se resume ao automóvel. Temos observado crescimento em segmentos como seguro viagem, seguros marítimos e aeronáuticos, responsabilidade civil, fiança locatícia e seguro de crédito. Isso mostra que o consumidor e as empresas estão começando a olhar para outros tipos de risco e que existe bastante espaço para diversificação do mercado de seguros no Estado”, comentou.
Além destes segmentos, Daronco entende que há margem para expansão também no seguro rural, no seguro de transportes, de pessoas e previdência privada. “São segmentos que têm uma relação muito forte com as características econômicas e produtivas do Estado e que ainda podem avançar bastante”, disse.
Para fomentar o crescimento do seguro rural, por exemplo, Daronco cita que um dos pontos fundamentais é ampliar e dar maior previsibilidade aos mecanismos de subvenção, tanto em nível estadual quanto federal. Nas demais áreas, ele entende que existe um trabalho importante de conscientização dos empresários e da própria população sobre a necessidade de proteger patrimônio, renda e atividade econômica.
Para o presidente do SindsegRS, o fator econômico também influencia as mudanças no mercado de seguros. “Quando famílias e empresas têm maior capacidade financeira, há mais espaço para investir em proteção. Por isso, o crescimento do setor passa por uma combinação de maior conscientização, políticas que incentivem a contratação em áreas estratégicas e um ambiente econômico favorável.”
De acordo com o Sincor-RS, dados apontados pelas apólices contratadas estimam que menos de 30% da frota de veículos no RS possui proteção, assim como cerca de 27% das residências e menos de 20% das empresas. Já com relação aos seguros pessoais, como de vida, saúde e previdência, menos de 10% da população possui contratos vigentes. Para o presidente do sindicato dos corretores, os dados apontam para um “enorme oceano por navegar”.
“Um bom seguro para o automóvel pode ser contratado por menos de 3% do valor do veículo. Um bom seguro residencial pode custar menos de 0,2% do valor da casa. Nos seguros de proteção à família, existem apólices muito amplas, com cobertura para acidentes, para diagnóstico de doenças graves como câncer, esclerose, Alzheimer e muitas outras. Se o cidadão avaliar seriamente a relação custo-benefício de qualquer desses exemplos, ele contrata na hora. Precisamos conversar mais com a população para mostrar isso”, considerou Thozeski.
O SindsegRS atua há mais de 130 anos e representa as empresas de seguros privados, resseguros e de capitalização que atuam no RS, sendo o sindicato mais antigo do setor no Brasil. Já o Sincor-RS, fundado em 1988, conta com mais de 6 mil profissionais corretores e mais de 4 mil empresas corretoras afiliadas e atuando em praticamente todos os municípios do Estado. Mesmo após a tragédia, ambas entidades garantem que não houve aumento generalizado no preço dos seguros no Estado.
“O preço de uma apólice depende de uma série de fatores, como o perfil do risco, o bem segurado e as coberturas contratadas. O que pode acontecer é o segurado optar por ampliar sua proteção, incluindo, por exemplo, uma cobertura para alagamento que antes não fazia parte da apólice. Quanto maior o conjunto de coberturas, maior pode ser o custo do seguro. Mas isso é diferente de dizer que houve simplesmente um aumento de preços provocado pela enchente”, afirmou Daronco.
“O mercado entendeu que não seria justo simplesmente repassar aos custos de venda das apólices os prejuízos que foram pagos por ocasião da enchente. Quem tinha contratado seguro com coberturas para alagamento, desmoronamento, enchente, inundação recebeu imediatamente. Quem contratou uma apólice com cobertura exclusivamente para roubo de veículo, por exemplo, jamais terá cobertura para acidente, alagamento, enchente etc. Contratar corretamente custa muito mais barato do que alguns imaginam”, completou Thozeski, do Sincor-RS.
Em ambos sindicatos, o entendimento é de que o RS é um mercado importante para o setor segurador brasileiro, especialmente por apresentar um potencial expressivo de crescimento. “Um dos nossos principais objetivos é justamente aproximar cada vez mais o seguro da população e das empresas, mostrando que ele não deve ser visto apenas como uma despesa, mas como um instrumento de proteção do patrimônio, da renda e da própria atividade econômica”, concluiu Daronco.
TECNOLOGIA DE PREVENÇÃO
As mudanças do setor não ficaram restritas à comercialização de apólices pelas empresas, mas também pelo investimento em ferramentas tecnológicas relacionadas com a prevenção de riscos climáticos. De acordo com o Arthur Moraes, jornalista e sócio-fundador da Sul Seguro, uma plataforma de informações e notícias dedicada exclusivamente ao setor, as empresas passaram a utilizar plataformas de monitoramento meteorológico, sistema de alertas e ferramentas que esboçam cenários para apoiar na tomada de decisões.
“O que percebemos foi um movimento maior das seguradoras em direção à tecnologia e à prevenção de riscos climáticos. Nesse contexto, também ganhou espaço o desenvolvimento de startups especializadas em previsão do tempo e análise de eventos climáticos extremos. Mais do que uma resposta aos prejuízos, esse movimento demonstra uma mudança de postura do mercado, que busca ampliar sua capacidade de antecipação, aprimorar a gestão de riscos e se preparar melhor para eventos cada vez mais desafiadores”, relatou.
Segundo ele, esse movimento não se restringe ao mercado segurador no RS. Empresas que atuam no Paraná, em Santa Catarina e em outros estados do Brasil também passaram a ampliar a preocupação sobre a gestão e prevenção de riscos. Isso ocorre pelo registro de prejuízos causados por enxurradas, enchentes e deslizamentos, como nos estados do Sul, ou por secas prolongadas e queimadas, em outras regiões. “Esse cenário tem levado as empresas do setor a olhar para a questão climática de forma mais abrangente, investindo em tecnologia, monitoramento e estratégias de prevenção. A experiência gaúcha serviu como um alerta importante, mas a necessidade de se preparar para eventos extremos é uma realidade nacional.”
A ATUAÇÃO DAS SEGURADORAS
No Radar de Eventos Climáticos e Seguros no Brasil, publicado pela CNseg, a entidade ainda destacou que, durante as ações de resposta aos efeitos da cheia histórica, as seguradoras tiveram de implementar medidas para agilizar a resolução dos sinistros comunicados, incluindo a ampliação do número de vistoriadores e a otimização e automatização dos processos de aviso e regulação de sinistros.
Algumas destas ações que as empresas e entidades que fazem parte do mercado de seguros promoveram durante a tragédia no Rio Grande do Sul em 2024 foram destacadas no documentário “Águas de Maio”, produzido pela Sul Seguro. Moraes destaca que a obra nasceu com o propósito de mostrar como seguradoras, corretores e outros profissionais do mercado se mobilizaram durante o evento a partir do registro humano da história.
“Mais do que retratar o atendimento aos sinistros e o cumprimento das obrigações previstas nas apólices, buscamos evidenciar uma atuação que foi além do contrato. Profissionais que se envolveram diretamente com as comunidades atingidas, empresas que mobilizaram recursos e pessoas que colocaram a solidariedade em prática. O filme é também um registro histórico de como o mercado se uniu, revelando a dimensão humana de um setor que existe para oferecer proteção e amparo nos momentos mais difíceis”, afirmou Moraes.
Ele destacou ainda a busca do mercado e das plataformas que atuam com seguros em fomentar uma aproximação cada vez maior com a população, principalmente a partir de uma perspectiva mais humana. Os materiais de comunicação do setor com a sociedade passaram a abordar que, por trás de cada apólice, existe uma relação de compromisso que vai além da contratação do seguro.
“Acreditamos que essa aproximação é fundamental para desmistificar o seguro e demonstrar sua importância não apenas na proteção de patrimônios e pessoas, mas também na estabilidade financeira das famílias, na continuidade das empresas e no desenvolvimento econômico. Existe, sim, uma necessidade crescente de fortalecer a conexão entre seguradoras, corretores e segurados, e a comunicação tem um papel estratégico nesse processo”, concluiu Moraes.