Até o ano 2100, há uma projeção de aumento médio do nível do mar entre 28 e 110 centímetros, segundo o coordenador-geral da Expedição Internacional de Circum-Navegação Costeira Antártica (ICCE), o glaciologista Jefferson Cardia Simões do Centro Polar e Climático (CPC) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), ao voltar de 70 dias de uma missão internacional em torno da Antártica. A elevação afetará a costa brasileira e deve também impactar Porto Alegre.
A bordo do navio Quebra-Gelo russo Akademik Tryoshnikov, 57 pesquisadores de sete países (Argentina, Brasil, Chile, China, Índia, Peru e Rússia), sendo 27 deles brasileiros, percorreram mais de 29.316 quilômetros para fazer coleta de amostras e realizar estudos para compreender os impactos das mudanças climáticas no planeta. O embarque ocorreu em 22 de novembro de 2024, no Porto de Rio Grande, e o retorno no mesmo lugar em 31 de janeiro. Durante a missão, foram realizadas atividades em 19 estações para determinar temperatura, salinidade e acidez do oceano Austral em diferentes profundidade.
Retração de geleiras
O trabalho de campo começou com a visita às estações Novolazarevskaya e Maitri, duas das 19 visitadas pela equipe durante os 70 dias. O primeiro local, pertencente à Rússia, está ativo desde 1961 e é conhecido por seus estudos meteorológicos. Enquanto o segundo, de domínio indiano, existente desde 1989, contribui com estudos nas áreas da biologia e glaciologia. Segundo o professor Jefferson Simões, a retração de geleiras já pode ser observada em algumas regiões, mas os sinais de mudanças climáticas são mais intensos na Península Antártica, próxima à Estação Antártica Comandante Ferraz, última estação visitada pela equipe. “A cooperação internacional foi fundamental para esta expedição, uma vez que usamos o conhecimento e as necessidades em comum através do intercâmbio entre pesquisadores.”
Nas paradas, foram coletadas amostras da superfície do oceano e lançados 43 balões atmosféricos equipados com radiossondas, que coletaram dados sobre pressão, temperatura, ventos e composição da atmosfera. “Essas informações foram essenciais na compreensão da formação de frentes frias e ciclones extratropicais que impactam diretamente o sul do Brasil”, destacou Simões. Amostragens de solo, água do mar e neve também foram feitas, com análises microbiológicas e estudos de biodiversidade costeira.
Conforme Simões, estes materiais serão analisados por diferentes laboratórios ao redor do mundo, contribuindo para uma visão mais ampla das transformações ambientais na região. “O Brasil demonstra mais uma vez sua capacidade de liderar missões científicas de alta complexidade. A expedição nos permitiu coletar dados inéditos sobre as mudanças climáticas e ampliar nossa compreensão sobre os ecossistemas costeiros antárticos e os seus efeitos diretos no Sul global”, afirmou.
Foi possível observar algumas ocorrências que sinalizaram os efeitos da mudança climática: formação de córregos de derretimento sobre geleiras e plataformas de gelo; a redução da salinidade e aumento da acidez no oceano Austral; a presença de microplásticos em amostras da neve; a intensificação do derretimento das geleiras na ilha Rei George e a expansão dos campos de musgo.
Riscos ao RS
O aumento do nível do mar foi o primeiro indicativo visível de mudança climática aos pesquisadores durante a missão. A cientista Venisse Schossler, que fez parte da expedição, afirmou que esta elevação já está ocorrendo e que afetará a costa brasileira. “É preciso lembrar que Porto Alegre está geograficamente na planície costeira”, disse. Segundo ela, em longo prazo, a região será afetada também pelos ventos mais fortes que atuam no represamento das águas dos rios.
Com o vento Nordeste mais forte no Litoral, devido à alta pressão do Atlântico, a previsão é que os efeitos de altitude gerem mais ciclones extratropicais na costa do Rio Grande do Sul, com ressacas intensas.
Conforme o climatologista Francisco Aquino, em 30 anos deve se repetir a enchente de maio de 2024. Ele lembrou ainda que o primeiro caso identificado de evento climático extremo em sociedade, e em que foi considerado que a Antártica foi a motivadora, ocorreu em 29 de janeiro de 2016, na Capital.
Jefferson Cardia Simões destacou ainda que o aquecimento das águas marítimas, que vem provocando o derretimento das geleiras, pode causar danos irreversíveis.
“Porto Alegre pode ficar embaixo d’água daqui a 300 anos se não frearmos o aquecimento global. Isso porque a água do mar elevaria o nível da Lagoa dos Patos”, afirmou.
O coordenador da expedição citou ainda que o derretimento da glaciar Thwaites, conhecida como “Geleira do Juízo Final”, representa um perigo para o mundo. “Teríamos danos catastróficos, uma vez que ela tem aproximadamente 120 quilômetros de diâmetro, o mesmo tamanho da Grã-Bretanha”, pontuou.
Consequências identificadas pela missão internacional ameaçam vida marinha
O oceano Austral, ou oceano Antártico, está menos salino e mais ácido por causa da água doce liberada pelo derretimento do gelo marinho. Essa foi uma das constatações dos pesquisadores que estiveram na expedição liderada pelo Brasil. “À medida que as temperaturas sobem, a água doce do gelo derretido da Antártica entra no oceano, reduzindo a salinidade e a densidade da água da superfície e diminuindo o fluxo descendente para o fundo do mar”, destacou o pesquisador Jefferson Cardia Simões. A acidez, contudo, é um fator ainda mais preocupante por ameaçar gravemente a vida marinha. Os oceanos frios atuam como amortecedores das mudanças climáticas, absorvendo grande parte do dióxido de carbono (CO2) emitido em nível mundial. “A acidificação dos oceanos ocorre quando há uma redução do pH das águas por longos períodos de tempo. Essa redução é causada principalmente pela dissolução do dióxido de carbono (CO2) atmosférico nos oceanos, isto é, a água do mar absorve CO2”, explicou.
Com a retração de geleiras em muitos locais da Antártica, há exposição de novas áreas livres de gelo e o desenvolvimento de sistemas lacustres. A investigação por sensoriamento remoto e a expedição em campo revelam um aumento de 114% na área de lagos nas ilhas Rei George. Os lagos são associados a processos físicos e químicos causados pelo derretimento da neve e do gelo. O aquecimento global também tem provocado o crescimento de musgos na Antártica, o que é chamado de “verdejamento”.
As informações trazidas pelos pesquisadores reafirmam ainda o que já se previa: a fuligem das queimadas e o microplástico chegaram ao gelo antártico. O pesquisador Filipe Lindau apontou que o alto consumo de plástico no mundo associado ao descarte nos oceanos fez com que a água e o vento levassem micropartículas para longas distâncias. “Grande parte do que chega à Antártica vem pelas correntes e o vento sobre o oceano.”
Conforme Lindau, a equipe analisará o material para entender como ele tem evoluído nos últimos anos. Durante a missão, foram coletados mais de 90 metros de testemunhos de gelo, amostras em formato cilíndrico, resultantes de perfuração da geleira, que contêm estes resíduos. Os pesquisadores também destacaram a presença de compostos químicos de queimadas. “Ao analisar essa pequena escala diluída na neve conseguiremos ver quais são os verdadeiros impacto das queimadas”, explicou Lindau.
É consenso entre os cientistas que participaram de uma coletiva para expor os primeiros resultados da expedição que são necessárias políticas públicas de proteção ambiental, ações de mitigação de emissão de gás carbônico, transição de manejo e produção agrícola e pecuária, além da conscientização social sobre a relevância individual para reduzir o consumo e melhorar o descarte, em especial do plástico. “Estamos vendo que o clima está apresentando pontos de mudanças rápidas que podem desestabilizar o sistema e esse é o desafio: as informações científicas estão aí, mas as decisões são políticas”, salientou Jefferson Cardia Simões.
A reitora da Ufrgs, Márcia Barbosa, complementou, salientando que são necessárias medidas de combate às queimadas no país como também a aplicação de uma agricultura de baixo carbono. Ela ainda destacou a importância do papel de cada cidadão. “Além das medidas públicas, precisamos reconhecer que é preciso mudar o patamar do que fazemos no dia a dia, como separar o lixo, por exemplo.”
Conforme o pesquisador Francisco Aquino, é possível frear o aquecimento global com a proteção das áreas de nascentes, margens de rios e com leis ambientais adequadas e respeitosas. “Isso seria uma política pública estratégica e, se combinada com estratégias de outros países, seria um enorme benefício.”
Desafios de pesquisar em ambiente congelante
Os pesquisadores que participaram da Expedição Internacional de Circum-Navegação Costeira Antártica (ICCE) enfrentaram vento de cerca 50 km/h, além de -10°C. “Não é possível se expor sem vestir ao menos três agasalhos no tronco e nas pernas, calçar botas impermeáveis, usar meias de lã, luvas e pescoceiras”, contou o professor Jefferson Cardia Simões. Muitas vezes as condições do tempo dificultaram o trabalho. “Os fortes ventos exigiram que os pesquisadores permanecessem no navio, atrasando a logística de descer para recolher as amostras e retornar para planejar as próximas etapas”, disse Simões.
Em paralelo ao cotidiano desafiador imposto pelas características atmosféricas, os expedicionários ainda ficaram expostos durante 24 horas aos raios solares, uma vez que o Sol incide em ângulo reto, entre outubro e março, nas localidades posicionadas abaixo do Círculo Polar Antártico. “A gente não conseguia ficar de olhos abertos sem os óculos de neve. A luz refletia muito, mesmo quando estava nublado”, pontuou o cientista Filipe Lindau.
O grupo ainda precisou lidar com a náusea, causada pelo movimento intenso do navio. Segundo a médica pós-graduada em Medicina de Expedições e Áreas Remotas no Royal College of Physicians and Surgeons of Glasgow Daniela Silvestre, o enjoo é comum nas primeiras 48 horas de viagem, devido ao desequilíbrio entre o que o passageiro está vendo e o que o seu sistema vestibular, que atua no equilíbrio, está percebendo. “Eles passaram por esse momento desagradável, mas foi tudo transitório e melhorou a partir do momento em que labirinto, ouvido e olhos começaram a entrar num mesmo compasso”, explicou.
Rotina estratégica
Diante de um céu que nunca escurece, a manutenção de hábitos que compõem a rotina dos pesquisadores se tornou fundamental para que o dia e a noite não se confundissem. Além do esforço em preservar os horários das refeições, o grupo se empenhou na elaboração de cardápios semelhantes aos que usualmente consumiam em seus respectivos países. Em geral, comidas enlatadas só são utilizadas quando os cientistas estão instalados em barracas, distantes das estações de pesquisa. Conforme Daniela, no navio, foi possível preparar batata frita, arroz, feijão e até ingerir bebidas alcoólicas, como cerveja e espumante, durante a celebração de final de ano.
Apesar das paisagens deslumbrantes e da vida animal extraordinária, os pesquisadores também precisaram lidar com a falta de privacidade, o enclausuramento, a dificuldade para dormir e a sociabilidade limitada. Conforme Paola Delben, doutora em Psicologia Organizacional do Trabalho pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), toda viagem nessas condições adversas pode causar tensão constante e ansiedade. “A saúde mental da equipe é afetada, por conta da restrição social. Não é que eles não tenham acesso a interações sociais, mas elas são limitadas somente àquele grupo que está ali presente”, afirmou.
O Navio
O navio russo do Instituto de Pesquisa Ártica e Antártica de São Petersburgo (AARI), usado na expedição, é um dos seis existentes no mundo. O Akademik Tryoshnikov, construído em 2012 tem 134,5 com de comprimento e pesa cerca de 12.701 toneladas. “Aqui no Brasil não temos este tipo de embarcação. Ele permite que naveguemos bem próximo da costa, porque foi projetado para atravessar águas congeladas. O casco super-reforçado quebra o gelo à medida que o navio avança, permitindo acesso a regiões antes inexploradas”, afirma Simões. O quebra-gelo possui recursos como ponte móvel, guincho de serviço e heliporto, que facilitam o manuseio e transporte das amostras recolhidas pelos cientistas. Dentro do Tryoshnikov existem 75 quartos: 28 camarotes individuais, 33 duplos, 10 quádruplos e quatro cabines em bloco, que acomodam de seis a oito pessoas.
No navio estão disponíveis ainda dez laboratórios fixos, subdivididos em duas categorias. Os laboratórios de via seca servem para armazenamento de instrumentos e equipamentos eletrônicos e os de via úmida, que são usados para analisar amostras de gelo e do mar. Também há espaços comuns, como lavanderia, enfermaria, restaurante e salas de reuniões.
Uso de tecnologia avançada
A expedição foi 97% financiada pela fundação suíça Albédo pour la Cryosphère, dedicada ao estudo e à preservação da massa de neve e do gelo planetário. E contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs). A missão também possibilitou a exploração de novas áreas da Antártica sob uma perspectiva brasileira. “O Brasil nunca havia participado de pesquisas na Antártica Oriental. Isso demonstra que a comunidade científica brasileira tem capacidade não apenas de conduzir pesquisas de ponta, mas também de organizar logisticamente suas próprias missões”, destacou Simões.
Conforme Simões, durante a expedição, que recebeu cerca de 6 milhões de euros da entidade suíça e mais R$ 400 mil do Brasil, o grupo também esteve equipado com a tecnologia avançada do satélite Starlink, permitindo que os cientistas compartilhem informações via texto, áudio e vídeo com acesso ilimitado à internet durante todo o percurso antártico. Esse recurso facilitou a comunicação e a transmissão de dados em tempo real.