Se a palavra enchente passou a fazer parte do vocabulário recorrente dos gaúchos, foi muito graças aos fatos ocorridos em setembro de 2023, quando a primeira das três grandes inundações históricas teve lugar no território gaúcho em menos de um ano. Dois anos depois, essa tragédia em particular ainda causa comoção no Vale do Taquari, região mais atingida pelas águas, embora tenha sido superada em número de óbitos, feridos, desaparecidos, prejuízos econômicos e, principalmente, volume de atenção global e ajuda humanitária, em maio de 2024.
“Daqui para o futuro, certamente esses eventos podem voltar a acontecer”, resume o coordenador geral de Operações e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Seluchi. Ele explicou que a bacia do Rio da Prata é uma das áreas com maior número de ciclones no planeta.
Ao todo, 54 pessoas morreram, o maior número de óbitos por desastres naturais no Rio Grande do Sul, pelo menos desde 1980. Mais de 400 mil pessoas foram afetadas e 107 municípios registraram danos, com 79 deles decretando estado de calamidade pública.
Os prejuízos econômicos somaram R$ 1,3 bilhão, segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM). Do total de cidades afetadas e reportadas junto à Defesa Civil Estadual, estiveram 16 das 36 do Conselho Regional de Desenvolvimento (Corede) do Vale do Taquari, região onde cerca de 13% das empresas turísticas perderam tudo, de acordo com levantamento feito na época pela Secretaria Estadual de Turismo (Setur). Mas todos estes números eram apenas o prenúncio do que viria em maio do ano seguinte.
Já em setembro de 2023, bairros inteiros foram deletados do mapa e abandonados, embora, em muitos casos, seus moradores tenham sido realocados para outros lugares. “A enchente de setembro ainda acabou salvando muitas pessoas em maio”, afirmou a prefeita de Estrela, Carine Schwingel, resumindo, de certa maneira, a opinião geral em relação a esta cheia. Para ela, durante a inundação da metade do ano passado, as pessoas já haviam passado pelo trauma em setembro e, em menor medida, novembro de 2023. Portanto, sabiam o que fazer e para onde ir quando as águas mais altas do ano seguinte chegaram.
O bairro Moinhos, em Estrela, foi devastado em 2023, destruído em 2024 e permanece assim até hoje. Um silêncio trágico toma conta da área que, um dia, foi a mais densamente povoada do município. Próxima do rio Taquari, a região é hoje uma área fantasma, em que são proibidas ligações de água e luz. Na cidade, houve um óbito de um homem eletrocutado. “Todo início de semana, sempre tem algum material para retirar. A cidade não se recuperou. Emocionalmente, nem se fala. A limpeza acabou entrando na rotina das pessoas desde então”, disse a prefeita, que não estava na gestão durante a primeira enchente.
A sede da Brigada Militar (BM) no município não foi refeita desde 2023, tampouco o foram a antiga EMEF Leo Joas e o posto de saúde do Moinhos. A atual gestão municipal diz ter 23 obras em andamento, nove concluídas e 20 a serem licitadas. Há uma defasagem de 1,3 mil famílias que perderam suas casas e terão algum benefício. Carine afirma que Estrela tem R$ 100 milhões em recursos federais para convênios, entre eles, 800 casas em conjunto com a iniciativa privada ainda não aprovadas pela Caixa.
A Secretaria Estadual da Habitação (Sehab) aprovou outras 108 unidades, mas somente 20 estão em construção. No entanto, segundo Carine, deveriam estar prontas há três meses. As 88 restantes dependem de um convênio de R$ 8,5 milhões do governo do Estado, em que só falta a assinatura, prometida pelo Executivo estadual para final de agosto.
“É um absurdo você lidar com uma burocracia de três a quatro meses. Em oito meses que estamos aqui, não temos aprovação dos projetos”, comentou ela, defendendo o envolvimento mínimo da prefeitura apenas para conceder autorização das áreas para construções.
Cerca de 500 famílias estão em aluguel social bancado pelo município. O Compra Assistida já entregou 300 unidades habitacionais e Estrela tem uma modalidade própria de entrega de terrenos urbanizados, com 56 lotes adquiridos e 50 em negociação com loteadores. Alguns destes projetos estavam “parados” quando ela assumiu a gestão, disse, justificando, por exemplo, a EMEI Arroio do Ouro, na área rural de Estrela, restaurada por iniciativa da atual gestão.
Muitos moradores do Moinhos foram transferidos para lugares como o Loteamento Nova Morada, onde há a construção de uma unidade básica de saúde (UBS), cujas obras do governo federal começaram em maio deste ano e devem terminar em outubro de 2026. Entre os moradores, há um sentimento comum da falta do antigo lar. “Aqui a gente está sobrevivendo, somos senhores do nosso próprio destino”, disse o reciclador Adelino Bueno, que vive sozinho em uma das residências.
“Lá no outro bairro, pelo menos umas duas vezes por semana, vinha uma equipe olhar a gente, com medicação controlada. Aqui não tem isso. Sobrevivi à enchente graças ao Criador. Tenho saudade do portão da minha casa, onde a gente conversava com os vizinhos”, comentou ele, cuja estrutura é a única da área com uma horta em frente. Para sobreviver, ele atravessa a cidade para coletar fios no seu antigo bairro. “Alguém me disse: ‘Coloca a cabeça no lugar’. Mas como? Se uma parte dela está lá e outra aqui.” A Prefeitura afirma que as visitas de agentes de saúde e assistência social são recorrentes no novo local.
‘A vontade foi pegar minha família e voltar para o Amazonas’
As enchentes de setembro de 2023 afetaram quase metade do território de Cruzeiro do Sul, com 1,3 mil pessoas desalojadas, mais de 10% da população. Ao todo, houve a condenação de 108 casas pela Defesa Civil e 105 empresas foram atingidas pela então maior cheia da história. Em maior medida na cheia de maio de 2024, bairros como Glucostark, Vila Zwirtes e a área central viraram escombros. O Passo de Estrela foi varrido do mapa.
O servente de obras Romário Lima de Souza e sua esposa, a cuidadora Solange Santos de Castro, vieram há seis anos de Manaus, no Amazonas, com as duas filhas, Stephany, 22 anos, e Tiffany, 19. O casal mora ainda no local com o neto Apolo, 5 anos, filho de Stephany. A família cruzou o Brasil, convencida por uma cunhada de Romário, que já morava em Cruzeiro do Sul havia 11 anos.
O sonho de uma vida melhor foi acompanhado por uma série de desafios. Inicialmente, eles pagavam cerca de R$ 800 de aluguel. A muito custo, logo conseguiram comprar uma casa na Vila Zwirtes, atrás da antiga associação de moradores do bairro. Logo vieram as enchentes, que cobriram a casa e a vila toda, inclusive a creche onde o menino estudava.
“Quando a gente estava querendo melhorar, elas destruíram tudo, e tivemos de comprar tudo de novo. Minha vontade foi pegar minhas filhas, meu neto e minha esposa e voltar para o Amazonas. Mas, depois de conversar com o pessoal daqui, disseram que isso acontecia. Veio essa primeira, a segunda e depois a terceira, que acabou com tudo. Ficamos muito desanimados.” Durante as inundações, eles chegaram a permanecer alguns dias no Ginásio Municipal. Hoje recomposta na residência reformada, a família de Romário vive com o trauma.
Outrora pujante, a Vila Zwirtes hoje é um cenário de guerra, com somente a família de Romário e mais uma no local. “Não sei quantos anos que não tinha dado uma enchente assim aqui, e foram três em um ano. É desesperador. Até hoje tenho Deus, com muito sacrifício, estamos conseguindo voltar.”
O coordenador de Habitação da Secretaria Municipal de Assistência Social, Antônio Marciano Duarte, morava no Passo de Estrela durante as inundações de 2023 e viu a tragédia de perto. “A gente viu a enchente daquele ano como uma espécie de aviso, de que a água não estava para brincadeira. Ela veio de uma forma assustadora. Quando baixou, as pessoas começaram a limpar suas casas naquilo que se tornou rotina”, contou ele. Já na cheia de 2024, tudo foi diferente, com mais de mil casas destruídas, e ajuda governamental e demais órgãos de maneira mais célere. “Admito que fiquei surpreso, não achei que as casas iriam embora daquele jeito. Hoje, dentro do quadro da prefeitura, a maioria das pessoas perdeu suas casas. Sabemos que precisamos ajudar porque a gente está no lugar deles”.
Das 437 famílias convocadas para o Compra Assistida, mais de 250 já assinaram com a Caixa. Segundo o coordenador, mais de 80% delas se mudaram de Cruzeiro do Sul pela escassez de imóveis. Cerca de 600 famílias ainda aguardam a convocação do programa ou novas unidades habitacionais. Existe um projeto para a construção de 500 no Novo Passo de Estrela, 97 no bairro São Gabriel e 26 no Rosa — este último, projeto ainda de 2023.
Pessoas com renda per capita de até R$ 706 recebem também aluguel social. Cruzeiro do Sul, no âmbito da habitação, enfrenta dois problemas, diz o coordenador: quem recebe entre R$ 4.700,01 e R$ 8,6 mil, a faixa 3 do Minha Casa, Minha Vida, recebe um subsídio de apenas R$ 40 mil, requerendo financiamento bancário, o que é inviável para idosos, pela dificuldade na contratação.
O outro é que, quem financiou de fato, perdeu o benefício ao Compra Assistida. “O governo federal precisa olhar com mais atenção para estas pessoas, ou terão uma dívida eterna. Não depende da prefeitura.” Cinquenta e oito famílias vivem em módulos habitacionais provisórios, 28 no São Gabriel e 30 no Novo Passo de Estrela. Entre eles, o casal Danilo Heidt, autônomo, e Eliane Maria de Quadros, aposentada.
Antes das cheias, eles, mais o cãozinho Veloz, moravam na localidade de Linha Lotes. O animal foi destaque por brincar com o vice-governador Gabriel Souza na ocasião da entrega das estruturas. “Agora está bem, mas antes estava bem ruim. Ficamos em três ginásios e viemos de pulo em pulo. Não imaginava que teríamos essa mudança de vida”, diz Danilo.
Enchente de setembro não foi a primeira tragédia climática de 2023 em Muçum
José Lotário Marques da Silva tinha 76 anos quando faleceu, cerca de 15 dias depois das enchentes de 2023. Então terceiro sargento aposentado, ele hoje é uma lembrança na mente e coração da esposa, a aposentada Jovilde Almeida da Silva, que vive na área central de Muçum. A moradia está localizada em frente ao antigo Colégio Alternativo, escola municipal devastada pelas cheias de 2023 e 2024. “Acho que teve alguma relação mental com a enchente. Ele estava acostumado a caminhar na rua, mas perder tudo e depois ficar isolado deixou ele assim”, disse um dos filhos, o autônomo Diego André Marques da Silva, que também vive em Muçum. A casa dela, atingida até o telhado pela água, hoje está reformada, mas, nas palavras do filho, “não é mais a mesma coisa”. “Tu podes estar bem, mas aquilo fica na cabeça. A mente nunca mais volta ao que era antes. As más lembranças sempre ficam. Por isso, tenho que visitar minha mãe enquanto ela está viva. Depois que as coisas acontecem, não adianta mais.”
Em outro ponto do município, o casal Fernando Filippon, microempresário, e Valderez Maurina, dona de casa, reformou a residência onde ambos vivem com o buldogue Buster. “Tínhamos feito uma casa nova em 2020, estava toda organizada, planejada, com tudo o que sonhamos. E aí perdemos tudo. As economias de duas vidas foram postas fora em 24 horas”, disse Filippon. Na cheia de setembro, pouco além de uma caixa de documentos foi salva pelo casal, que se refugiou em um carro, mas o fator complicador foi o resgate de Buster, cuja raça não sabe nadar. Passadas as tragédias, tudo se ajeitou novamente. “Fizemos reformas, porém não é a mesma coisa quando se volta”, complementou Valderez.
O prefeito Mateus Trojan, reeleito com mais de 80% dos votos, lembra que, antes das cheias de setembro, Muçum passou por outra tragédia climática: uma chuva de granizo em 23 de agosto de 2023 destelhou mais de mil casas, além de todos os prédios públicos. Já as inundações sequenciais atingiram igualmente 80% do território do município. As enchentes de setembro de 2023 causaram prejuízo de R$ 231 milhões ao município, mais de seis vezes o orçamento para aquele ano, estimado pela prefeitura em R$ 34,9 milhões. “Se compararmos com a situação de um ano atrás, logo depois que aconteceu a cheia de maio de 2024, já tivemos uma grande evolução, seja na infraestrutura, dos prédios, residências e mesmo das pessoas, embora tenhamos um caminho muito longo pela frente”, disse ele. “Temos de entender que, mesmo nas crises extremas, temos oportunidades, e o que visualizamos aqui foi a chance de fazer melhor.” Algo em Muçum de fato mudou. A 34ª Semana Farroupilha de Muçum está garantida, de 12 a 21 de setembro.
Considerada uma das maiores da região dos Vales, a festa gratuita, com mais de cem espaços para piquetes e CTGs, ocorre pela primeira vez desde 2023. O Ginásio Municipal foi reformado e reaberto para eventos esportivos há poucas semanas. A ponte Brochado da Rocha, cuja parte foi levada nas inundações de dois anos atrás, está reinaugurada. Os governos federal e estadual avançaram em projetos, porém há “certa morosidade” em outros.
Um exemplo é um programa habitacional da Defesa Civil Nacional para 177 novas casas, cada uma de até R$ 150 mil, teto este que a prefeitura pleiteia um aumento. “Há a exigência de que tenhamos de entregar a casa e toda a infraestrutura do loteamento com este valor, algo inviável para nossa realidade geográfica regional, bem como custos da construção civil”.
O Colégio Alternativo não retornará por problemas estruturais. Há em andamento um projeto para construir um memorial na área, mas aventou-se que ele poderia inundar em uma nova enchente. A tendência, portanto, é que o local seja leiloado. Já o Cemitério Municipal, às margens do Rio Taquari, continua devastado desde as enchentes. Uma área não inundável para um novo já está licenciada, mas a construção, segundo Trojan, depende de o Estado limpar e terraplanar o local.
“Caos do caos”, resume prefeito de Roca Sales
A Prefeitura de Roca Sales pretende zerar o déficit habitacional existente após as enchentes de 2023 e 2024, disse o prefeito Jones Wunsch, o Mazinho, admitindo o tamanho do desafio, no entanto. Entre as obras ainda não superadas, está a da Escola Estadual Padre Fernando, cujo ginásio foi devastado pelas enchentes. O interior do colégio segue até hoje coberto de lama. De acordo com Wunsch, o município tem uma área em que busca construir dois colégios próximos, um para substituir o estadual e outro municipal.
Dezoito famílias seguem vivendo em moradias provisórias em Roca Sales e há pessoas que foram para outros municípios, mas que, segundo o prefeito, desejam retornar. “Em 2023, foi o caos do caos. Habitação é um assunto que realmente nos tira o sono. Estamos sendo cobrados e precisamos dar esta resposta aos moradores. Roca Sales hoje tem emprego para todo mundo, mas nós precisamos dar condições de moradia para estas famílias.”
Há outra área no Loteamento Sete de Setembro com 45 lotes, onde o Estado ficará responsável pela infraestrutura e construirá casas definitivas. Tramitam na Defesa Civil Nacional planos para a construção de 242 residências e mais 200, aguardando a publicação de portarias. Cinquenta casas foram autorizadas pelo programa Financiamento à Infraestrutura e ao Saneamento da Caixa e 190 estariam destinadas ao Compra Assistida. “Estimamos que, ainda ao longo deste ano, pelo menos consigamos iniciar alguma obra, tanto de infraestrutura, quanto de habitação”, acrescentou Wunsch, dizendo que o município conseguiu, na metade de agosto, sair do Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal (Cadin). “Por oito meses, ficamos impedidos de assinar convênios. Agora, estamos habilitados para andar para a frente”, salientou o prefeito.
No último dia 18, a Câmara Municipal aprovou a abertura de créditos especiais, somando R$ 1,5 milhão, sendo R$ 198 mil para a compra de equipamento para monitoramento e alerta de riscos de desastres naturais e R$ 19 mil para a recuperação da EMEI Cantinho da Amizade, ambos valores oriundos do governo federal. Já o governo do Estado encaminhou R$ 100 mil para a recuperação de estradas atingidas pelos eventos climáticos.
Vias como a rua 31 de Março e a entrada principal do município estão recuperadas, enquanto a General Daltro Filho, que dá acesso a partir da ERS 130, ainda precisa de melhorias. O proprietário de um dos maiores mercados de Roca Sales, Aliceu Isotton, contou ter perdido cerca de R$ 1 milhão somente em novos equipamentos na cheia de 2023. Ele contou que não estava na cidade durante esta inundação, mas seu irmão e ex-sócio sim. O único filho de Isotton tinha 4 anos na enchente de setembro.
“Depois que a água baixou e tudo havia ido embora, ele veio me perguntar: ‘Não existe mais o mercado?’ Corremos atrás e construímos de novo.” A sociedade foi desfeita porque, segundo Aliceu, o irmão foi embora de Roca Sales após a enchente, e, 15 dias depois, chegou a segunda, em novembro. Em maio de 2024, a perda não foi tão significativa devido ao aprendizado.
Hoje vivendo na casa do filho, Neiva de Lourdes Lorenzon disse sentir falta de seu material de cozinha e, ao ver o prefeito, cobrou diretamente a ele uma casa nova. “Eu queria ter uma e pretendo ficar em Roca Sales. Pode ser uma casinha de seis por seis metros. Se não ganhar, vou acabar indo embora.” Segundo o prefeito, a moradora já está contemplada em um programa da Caixa, mas não soube dizer qual, porém, o processo de validação é demorado.
A maior enchente em Lajeado em 150 anos
No maior município do Vale do Taquari, que teve 16% de seu território afetado pela inundação de 2023, o nível medido pela estação fluviométrica no rio Taquari, referência para a região, chegou a 29,53 metros em 5 de setembro daquele ano, mais de 10 metros superior ao nível de enchente, de 19 metros, conforme a Defesa Civil Municipal. Nesta marca, a água do Arroio do Engenho, na esquina da avenida Décio Martins Costa com a rua Alberto Torres, no bairro Hidráulica, começa a atingir as primeiras casas.
Um grupo de pesquisadores das universidades do Vale do Taquari (Univates), Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Serviço Geológico do Brasil revelou que a cheia de setembro de 2023 foi a maior no município em 150 anos, e provavelmente antes. Para o coordenador de Proteção e Defesa Civil de Lajeado, Marcelo Maya, todas as inundações ocorreram em dimensão e intensidade “inimagináveis”.
“Fomos pegos de surpresa e pudemos verificar que nossas medidas preventivas estavam insuficientes, como os planos de contingência, monitoramentos do clima e nível dos rios”, disse. “Hoje já estamos melhor preparados.” A maior escola pública do Vale, o Colégio Estadual Castelo Branco, o Castelinho, com cerca de 800 alunos, fechado desde setembro de 2023, foi reaberto neste mês, enquanto a Escola Estadual Fernandes Vieira, localizada em uma área mais baixa, está em reformas.
Completando 100 anos em 2027, ela chegou a reabrir depois das enchentes de 2023. Tanto esta obra quanto a do Castelinho são de responsabilidade da Cetus Engenharia, de Porto Alegre. Responsáveis pelos trabalhos disseram que, antes mesmo do início dos mesmos, todas as aberturas, como portas e janelas, foram furtadas, o que exigiu um documento aditivo de serviços. Também houve o furto de toda a entrada de energia, que precisou ser reinstalada pela RGE.
Na Fernandes Vieira, serão preservados alguns pisos e patamares das escadas, enquanto parte do telhado será reposto, além dos pisos dos corredores e construídas lajes de concreto leve. A primeira etapa tem o custo de R$ 1,1 milhão, indicada por uma placa no muro em frente ao colégio, mas haverá uma segunda, com ações como drenagem e troca de 25 metros quadrados de telhas, que não estariam previstas na primeira. Procurada, a Secretaria Estadual de Obras Públicas (SOP) disse que os técnicos trabalham na definição dos itens que serão executados em uma segunda etapa do processo em curso.
Os fatores climáticos que contribuíram para as cheias de setembro
O planeta passava por um período de El Niño entre 2023 e 2024, fazendo com que houvesse um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. De acordo com nota técnica do Cemaden de 9 de setembro de 2023, de modo geral, este fenômeno altera o comportamento dos sistemas frontais, “que se tornam mais frequentes e persistentes sobre a Região Sul, provocando aumento das precipitações nessa região”.
Em 30 de agosto, o Cemaden já havia alertado para o risco de chover 200 milímetros entre 1º e 4 de setembro, quando um sistema frontal permaneceu sobre o RS, avançando a partir da Argentina como frente fria no dia 1º e se tornando estacionária nos dois dias seguintes. O Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS também alertou para o “aumento exponencial” da vazão da Usina Hidrelétrica Castro Alves, que poderia potencializar o evento.
No dia 4, uma área de baixa pressão nos altos níveis da atmosfera aumentou a precipitação, causando um ciclone extratropical que se afastou rapidamente do continente, mas que não foi a causa principal do excesso de chuvas. No centro-norte gaúcho, choveu cerca de 300 milímetros, em Vacaria, o órgão federal registrou 293 milímetros em três dias, ambos mais de 100% da média mensal.
E, nos dias seguintes, entre 5 e 7 de setembro, o rio Taquari atingiu os picos nos municípios por onde corre. O primeiro alerta da Defesa Civil Estadual foi em 31 de agosto, enquanto o governo do Estado afirma que 17 alertas preventivos foram enviados via SMS. O Cemaden diz ter identificado a situação com cinco dias de antecedência e, em 4 de setembro, cerca de 48 horas antes do pico de inundação, foram emitidos 40 alertas, sendo 22 de risco hidrológico e 18 de risco geológico.
Entre os dias 4 e 5, 11 deles foram atualizados para nível alto e dois para nível muito alto. “Este evento de setembro de 2023 surpreendeu pela rapidez com que o nível do rio Taquari subiu, e a ocorrência do pico na madrugada fez com que mais pessoas fossem pegas. Os relatos são de que aguardariam o dia amanhecer para sair de casa com a claridade, mas foram atingidos antes”, disse o doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental e professor do IPH/Ufrgs, Fernando Dornelles.
Críticas e defesas à atuação pública
Em novembro de 2023, entidades locais, com apoio da Associação de Municípios do Vale do Taquari (Amvat), elaboraram a Carta do Vale do Taquari, com propostas para mitigar os efeitos climáticos sobre a Bacia Taquari-Antas, com propostas como melhorias nos sistemas de monitoramento, prevenção e alertas, além de projetos de construção de estruturas para reservar água e reduzir a velocidade das enchentes.
Mas houve críticas à atuação do poder público após 2023. Em carta, nove professores do IPH/Ufrgs disseram que “a cadeia de ações de prevenção, preparação e alerta dos impactos da inundação não funcionou adequadamente. As pessoas permaneceram nas suas casas até o instante em que já era tarde demais para sair”. Para o instituto, “talvez as pessoas não soubessem que moravam em local perigoso, ou permaneceram porque não foram avisadas, ou ainda porque consideraram que os avisos não tinham credibilidade”.
O vice-governador e presidente do Conselho do Plano Rio Grande, criado como resposta do governo do Estado às enchentes de 2024, Gabriel Souza, contou que permaneceu no Vale do Taquari por 15 dias durante as inundações de 2023, vivendo de perto a situação dos municípios. “Foi realmente a primeira, depois não sabíamos o que enfrentaríamos em novembro e, depois, de maneira ainda pior, em maio de 2024. Perdemos 54 vidas naquele primeiro episódio. Então, realmente, foi um episódio muito marcante, e que certamente não esqueceremos tão cedo”, comentou Souza.
Já o secretário nacional de Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul, Maneco Hassen, que, na época, estava na Secretaria de Comunicação (Secom) do governo federal, disse ter permanecido 60 dias na região, baseado em Lajeado, onde o governo federal montou um escritório dedicado com uma equipe da Caixa. Para ele, essa experiência em 2023 no Vale do Taquari foi o embrião do que, depois, seria o Ministério da Reconstrução, criado após as enchentes do ano seguinte. A gestão dos projetos de moradias também mudou de um ano para o outro.
Em 2023, geridas pela Defesa Civil Nacional; em 2024, passaram ao Ministério das Cidades. “Temos várias obras de escolas e postos de saúde de 2023 que ainda não iniciaram em vários municípios, assim como de 2024. Já liberamos o recurso para a reconstrução de todas”, destacou Maneco. Segundo ele, no Vale do Taquari, apenas Putinga e Arroio do Meio já começaram os trabalhos. O Correio do Povo pediu à secretaria um detalhamento de quais obras faltam iniciar nos municípios visitados, mas o material não foi disponibilizado a tempo do fechamento desta reportagem.
O fato de as licitações dos projetos de habitação serem de responsabilidade dos municípios em 2023 foi um fator de atraso nas obras, segundo Maneco, devido à sobrecarga das prefeituras, mas isso foi alterado em 2024. “Foi uma lição. Mesmo assim, o Vale do Taquari ainda tem o ritmo mais acelerado do que as outras regiões (onde há obras)”, completou. Para o prefeito de Sério e presidente da Associação dos Municípios do Vale do Taquari (Amvat), Sidinei Moisés de Freitas, a enchente de 2023 fez com que a região perdesse muitas estruturas, como pontes e outros equipamentos, isolando comunidades inteiras durante dias.
“Graças a Deus, em 2024 tínhamos uma certa expertise e conseguimos, entre aspas, nos defender melhor deste novo impacto das cheias”, comentou ele, confirmando que a enchente de 2023 degradou estruturas posteriormente colapsadas pelas águas do ano seguinte. “Muita coisa foi executada pela organização das prefeituras, com a participação do Estado e da União, mas muita coisa ainda resta. Quem vem para o Vale do Taquari acaba nem percebendo que se fez uma recuperação, mesmo que parcial, uma solução paliativa. Precisa haver obras com maior resiliência, para justamente conseguir se manter caso ocorra uma nova enchente”.
Como atua escritório de universidade que ajuda na reconstrução do Vale do Taquari
Sobre a mesa principal do Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo (Emau), no prédio 11 da Univates, em Lajeado, um punhado de mapas e diagramas de municípios do Vale do Taquari demonstra o trabalho executado pela equipe de cerca de 40 profissionais, entre arquitetos, urbanistas, hidrólogos, biólogos, engenheiros ambientais e discentes. Após as enchentes de setembro de 2023, o time mapeou milhares de habitações em 11 municípios diretamente atingidos, começando por Roca Sales, em uma parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedur).
Segundo a arquiteta e urbanista Bruna Zanoni Ruthner, membro do Emau, o prazo de conclusão do mapeamento foi definido em até 90 dias, para ser encaminhado à Defesa Civil Nacional e subsidiar o envio de recursos federais. A partir de maio de 2024, o projeto foi consolidado em 95 cidades com decreto ativo de calamidade pública, com mais diretrizes, como o zoneamento de risco e áreas de ocupação prioritária.
“Em um geral, a maioria do Vale já estava um pouco mais estruturada em maio em relação a setembro. Se formos comparar, por exemplo, com a região Metropolitana, foi muito diferente. A dinâmica das águas é diferente, assim como a geografia”, disse ela. Enquanto na área de Porto Alegre a água sobe e desce mais lentamente, por ser uma região mais plana, no Vale do Taquari a subida e descida são muito mais rápidas. Hoje, o projeto da Sedur com a Univates busca atualizar os Planos Diretores dos sete municípios mais afetados do Vale: Arroio do Meio, Colinas, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Muçum e Roca Sales, em um investimento de R$ 3,1 milhões. Mas o chamado Estatuto da Cidade obriga o Plano Diretor apenas a municípios acima de 20 mil habitantes, portanto muitas cidades da região do Taquari não o tinham, como Colinas e Roca Sales. Já para aquelas que já possuem, a atualização deve ocorrer a cada dez anos, mas a legislação é frequentemente descumprida.
Em Encantado, o Plano revisado era de 2012. Muçum tinha um datado de 1968, com revisões pontuais - e insuficientes - em 2011. Lajeado, que não está na lista, contratou a Univates separadamente para fazer o zoneamento de risco. Um dos trabalhos desenvolvidos foi mapear lugares com riscos de movimentos de massa, ou deslizamentos, e hidrológicos, de inundações. Cruzando as informações, é possível apresentar às prefeituras locais onde há maior probabilidade de desastres.
“A pessoa morando em um determinado lugar, ela pode estar vivendo em uma área de risco”, comentou Bruna. Em tese, habitações em áreas de alto risco não devem ser permitidas nas chamadas zonas vermelhas, e convém a realocação, quando possível. Mas, em Muçum, por exemplo, praticamente toda a área central está nesta zona, fazendo com que o município pense em estratégias de mitigação. “Naturalmente o comércio já está migrando para locais mais altos”, disse o prefeito Mateus Trojan. O mesmo ocorre com o novo loteamento Cidade Alta 3, com 177 moradias, que também está em uma zona vermelha.
Mas, neste caso, a Prefeitura contratou laudos geológicos específicos e estudos de adaptação do terreno às condições adversas. Os Planos Diretores deverão ser entregues até o final do ano para votação nas Câmaras Municipais, e os demais, como de Habitação de Interesse Social, Código de Obras e Edificações, Plano de Mobilidade e Lei de Parcelamento do Solo, até março de 2026. “É um desafio muito grande, principalmente o de falar com os sete municípios ou com todos os demais com os quais lidamos. Acho que um dos maiores foi conseguir uma rede de contatos que fosse contínua conosco”, disse a coordenadora do Emau e desta parceria entre Sedur e Univates, Jamile Weizenmann, doutora em Arquitetura e Urbanismo. “O grupo é muito grande e o trabalho, bastante complexo. Precisamos repensar sete cidades para os próximos 20 anos, com suas diferentes particularidades, mas, ao mesmo tempo, com suas convergências. Elas contornam o mesmo rio, mas ele toca de forma diferente cada uma delas. Temos aqui uma ação de resiliência inovadora frente às mudanças climáticas”, acrescentou.