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“Há momentos que preciso me afastar da tela”: como fica a saúde mental de quem trabalha com a violência extrema

Foto : Leandro Maciel

Imagine que seu turno de trabalho está prestes a começar. Você já se alimentou, está de banho tomado e acabou de ligar o seu computador para reiniciar o que faz diariamente. Mas também imagine que pelas próximas horas, quase que de forma ininterrupta, você vai testemunhar todo tipo de violência que acontece no ambiente virtual, principalmente envolvendo adolescentes. Ao contrário dos filmes de terror, no entanto, você não tem a opção de virar para o lado ou fechar os olhos. Isso porque é justamente o seu monitoramento que terá um papel fundamental em mapear casos que possam significar uma ameaça iminente. Agora, dê um passo para trás no tempo e tente vislumbrar como fica a sua saúde mental a médio e a longo prazo.

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“Há momentos em que simplesmente preciso me afastar da tela”, conta a pessoa do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve) responsável pelo monitoramento - nesses casos, o anonimato é essencial para resguardar os profissionais. “Você está diariamente exposto a conteúdos muito pesados: sadismo, crimes de ódio, abuso e sofrimento de vítimas e animais. Então, é fundamental estabelecer limites e entender que não dá para consumir esse material de forma indiscriminada”, conta, para logo em seguida completar: “É preciso sempre ter o cuidado de não internalizar e nem perder as esperanças porque a sua visão de mundo e do próprio ser humano é modificada brutalmente quando você trabalha nesse campo.”

Não se trata de um caso isolado. Desde que assumiu o controle do Núcleo, Fábio Costa Pereira teve a rotina alterada. “Eu não durmo mais. Minha vida virou uma eterna vigilância”, revela. O procurador de Justiça faz um paralelo com o futebol para explicar por que se vê em uma pressão constante. “É como se eu fosse o goleiro na final de um campeonato. O jogo está 0 a 0 aos 46 minutos do segundo tempo e eu tenho que defender um pênalti”, compara. Contudo, questionado se gostaria de estar atuando em outra área, o “não” vem quase de bate-pronto.

"Precisei chegar nessa função para saber que existe outro fosso da maldade humana”, diz o promotor Rodrigo Mendonça

É de se imaginar que para autoridades que trafegam na área da segurança, lidar com casos de violência extrema não é o bastante para abalar a rotina de quem foi treinado para esse tipo de situação. Não necessariamente. “É um outro degrau na direção do subsolo da maldade humana e isso nos impacta, claro”, descreve Rodrigo Mendonça, titular da Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Extrema e ECA Digital (Proeve). Mesmo com décadas de atuação no Ministério Público do RS, ele admite que a gravidade dos casos tem chocado até os mais experientes: “Precisei chegar nessa função para saber que existe outro fosso da maldade humana.”