De um lado, os reflexos da pandemia de Covid-19 na oferta de alimentos e na economia como um todo. De outro, o retorno amargo da inflação, que deixou itens como alface, repolho, tomate, batata-inglesa e cenoura de 34% a 83% mais caros nos últimos 12 meses. Essa combinação transformou o preço da alimentação em queixa recorrente dos brasileiros e deu visibilidade às práticas de agricultura urbana, vistas como uma saída para garantir o acesso a produtos agrícolas básicos do dia a dia. Aplicado aos mais variados ambientes, de cantos de apartamentos a espaços públicos ociosos, o conceito ganha força no Estado principalmente com a criação de hortas comunitárias.
Além de segurança alimentar, o cultivo na cidade proporciona educação ambiental e oportunidades de geração de renda, observa a professora Tatiana Silva Duarte, do Programa de Pós-graduação em Fitotecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Coordenadora de um programa de extensão universitária de horticultura urbana, ela diz perceber um interesse maior dos estudantes de agronomia pelo tema. “É algo crescente que veio num momento de crise e insegurança alimentar, e enxergar esse movimento é interessante, porque não há um estímulo por parte do governo para isso”, afirma.
Entre outras iniciativas, o programa da universidade gaúcha deu suporte técnico à Horta Comunitária da Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, e a uma horta implantada na Penitenciária Estadual do Jacuí (PEJ), em Charquedas, onde introduziu a técnica de aquaponia – cultivo de plantas sem uso de solo associado à piscicultura. A meta, segundo Tatiana, é ampliar o atendimento a escolas e a unidades de saúde. “Também desenvolvemos protótipos de produção, sistemas simples para aquele agricultor de sacada, que não tem terra ou um pátio, mas tem um local que recebe no mínimo seis horas (diárias) de luz”, complementa a professora.
A Emater-RS/Ascar incentiva a prática em ações como o curso de Horticultura Agroecológica, oferecido em seu Centro de Treinamento de Montenegro (Cetam), que ensina técnicas de adubação orgânica, manejo de plantas e certificação da produção. O engenheiro agrônomo e extensionista Marcelo Biassusi destaca que a agricultura urbana fortalece as economias locais ao promover a colaboração em cadeias curtas de abastecimento de alimentos. “Tu podes vender o teu produto para o vizinho ou para o mercadinho da esquina. Muitos agricultores fornecem para a Ceasa, então o estímulo a essas redes é importante, principalmente num cenário de crise econômica”, avalia.
Para a pesquisadora Mariella Uzeda, da Embrapa Agrobiologia, a horta urbana acompanha a valorização cada vez maior dos produtos agroecológicos. A greve dos caminhoneiros de maio de 2018, que causou a escassez de alimentos essenciais, foi um dos grandes “motores” da prática no Brasil, segundo a especialista. “A paralisação mostrou às pessoas a importância de você ter o básico na sua casa”, diz.
Em seu trabalho, a pesquisadora busca popularizar o cultivo das chamadas plantas alimentícias não convencionais (Pancs), espécies nutritivas e de fácil manejo, mas pouco conhecidas pelo consumidor, como ora-pro-nóbis, bertalha e peixinho-da-horta. “Com a escalada da fome, precisamos de cultivos rústicos, que não sejam exigentes quanto a tratos culturais”, explica.
Um dos exemplos bem-sucedidos de horticultura urbana no Estado, a Horta Comunitária Neide Vaz (foto acima), em Santa Maria, nasceu de uma mobilização da Associação de Moradores Dom Ivo Lorscheiter, do bairro Diácono João Luiz Pozzobon, para a ocupação de um terreno ocioso. O coordenador do projeto, Juarez Felisberto, conta que o espaço começou a ganhar forma em 2018, com o apoio do Fundo de Incentivo à Extensão Universitária (Fiex) da Universidade de Santa Maria (UFSM). Atualmente, envolve 18 famílias no cultivo de hortaliças, plantas medicinais e Pancs e está sendo ampliada. “A gente espera, até o final do ano, estar com 30 famílias”, afirma Felisberto, que é técnico-administrativo zootecnista do departamento de Zootecnia da universidade.
Para a capacitação dos agricultores, produção de mudas e aquisição de insumos e equipamentos, ele observa que foi decisiva a participação de outras áreas da UFSM, como o Museu dos Solos do Rio Grande do Sul, o Centro de Ciências Rurais e o Colégio Politécnico, além de empresas do agronegócio. A produção da horta é destinada à subsistência das famílias, e o excedente é vendido dentro da própria comunidade, explica Felisberto.
O mestre de capoeira e líder comunitário Luiz Antônio Loreto diz que, com a disparada dos preços de alimentos, o impacto do projeto se mostrou ainda maior. “Mesmo sem carne, as famílias estão aprendendo a fazer alimentos com um grande nível nutricional com os produtos da horta”, comenta. Outro saldo positivo da horta, segundo Loreto, é o “encantamento” natural que provoca nos participantes. “Muitas pessoas também passaram a produzir alimento no fundo do pátio, fazer hortas suspensas, mesmo que para um temperinho”, relata.
Os bons resultados da iniciativa inspiram ações semelhantes pela cidade, segundo o coordenador do projeto. Também com a assistência da universidade, foram implantadas hortas no loteamento vizinho Zilda Arns e no conjunto habitacional Cipriano da Rocha, no Bairro Pinheiro Machado. “A gente crê que Santa Maria vai se tornar um polo nessa questão”, comemora Felisberto.
Hibisco é protagonista em horta da Capital
Mantido há 11 anos, em terreno na Lomba do Pinheiro, na zona Leste de Porto Alegre, projeto inclui o cultivo de hortaliças, frutas e plantas fitoterápicas, entre as quais se destacam a alcachofra, a alfazema, a alfavaca e a estévia
Com alto valor nutricional e resistência a problemas climáticos, hibisco se consolidou entre os cultivos da Horta da Lomba do Pinheiro. A produção da comunidade é destinada prioritariamente ao consumo das famílias, que também vendem mudas da planta para ajudar na manutenção do projeto social. Foto: Lurdes Ágata Guiconi
Com propriedades antioxidantes e diuréticas, o hibisco ganhou fama graças ao chá avermelhado recomendado em dietas de emagrecimento. Ao contrário do que geralmente se imagina, a infusão é feita não com as flores vistosas, mas com o cálice dos frutos jovens da planta – semelhantes a um pinhão –, que é colhido, separado e colocado para secar. A versatilidade do vegetal, porém, não se limita às suas partes coloridas, usadas na produção de sucos, xaropes, geleias e outros doces. Folhas e caules têm valor nutritivo, podendo ser aproveitados no preparo de saladas. A planta é uma das espécies comestíveis cultivadas na Horta Comunitária Lomba do Pinheiro, projeto social desenvolvido na zona Leste de Porto Alegre. Mantido há 11 anos, o espaço prova que o conceito de horticultura urbana pode ir muito além dos canteiros de alface.
Coordenadora do projeto, a líder comunitária Lurdes Ágata Guiconi diz que o hibisco acabou virando o protagonista da horta, conhecida pela produção das chamadas plantas alimentícias não convencionais (Pancs). O cultivo deu tão certo que as mudas de hibisco são vendidas fora do bairro para gerar renda e ajudar na manutenção do coletivo. “O objetivo da horta é a segurança alimentar e que as pessoas comam comida de verdade. Trabalhamos muito com as Pancs porque, na mudança climática que hoje temos, são plantas que resistem à estiagem e a enchentes”, explica Lurdes.
Famílias da comunidade são responsáveis pelo plantio e pela colheita do hibisco, usado na produção de chás, sucos e geleias. A bebida quente é preparada com o cálice do fruto imaturo da planta, que lembra um pinhão, mas outras partes, como o caule e as folhas, também podem ser consumidos. Foto: Lurdes Ágata Guiconi
Estabelecida em um terreno de 7 mil metros quadrados, doados pela Prefeitura de Porto Alegre, a horta da Lomba do Pinheiro foi reconhecida como área de proteção do ambiente natural (Apan) por meio de lei municipal em 2016. A iniciativa ganhou impulso com o apoio da Emater-RS/Ascar, do Centro Agrícola Demonstrativo (CAD) da Prefeitura de Porto Alegre e de um projeto de extensão da UFRGS, além de outros parceiros. Em sua relação com a terra, a comunidade abraçou com determinação a diversidade – no local, a dedicação das famílias produz desde hortaliças tradicionais na mesa do brasileiro, como repolho, alface e cenoura, até espécies frutíferas e plantas fitoterápicas, entre as quais alcachofra, alfazema, alfavaca e estévia.
Com forte apelo ecológico, o projeto inclui ainda a preservação da mata nativa em seu entorno e a revitalização do Arroio Taquara. Mas foi na inclusão social que o coletivo construiu um de seus pilares mais representativos, oferecendo cursos e atividades educativas voltadas não apenas a crianças e jovens, mas também a grupos de terceira idade, desempregados e vítimas de violência doméstica. “Temos várias oficinas (de preparo de alimentos). A gente parou por causa da pandemia de Covid, mas estamos retomando”, afirma Lurdes.
Capuchinha (acima), uma das plantas alimentícias não convencionais da Horta da Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, e canteiros da Horta Comunitária do Bairro Figueirinha (abaixo), implantada há um ano em Xangri-Lá. Foto: Lurdes Ágata Guiconi
A horta serve de modelo a outras iniciativas em Porto Alegre e no interior do Rio Grande do Sul. Criada há um ano, no município de Xangri-lá, como um projeto conjunto da prefeitura, do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e da Emater/RS-Ascar, a Horta Comunitária do Bairro Figueirinha é uma dessas ações. No espaço, trabalham 15 famílias, a maioria delas formada por mulheres, que se especializam no plantio de beterraba, brócolis, couve, alho-poró, batata-doce, milho, espinafre, acelga, pepino, ervilha, tomate e amendoim, entre outros cultivos. “O destino dos produtos é a alimentação das famílias, a distribuição na comunidade, e alguns os comercializam nos mercados e na vizinhança”, relata o extensionista da Emater Cláudio Todeschini, que participa do projeto.
Horta comunitária em pelotas resgata agricultores afastados da área rural
Situado na periferia do município de Pelotas, o bairro Pestano abriga uma das hortas agroecológicas implantadas na Região Sul sob a assistência técnica do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (CAPA), organização vinculada à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Com dois hectares, o espaço proporciona alimentação saudável a famílias de agricultores que deixaram a zona rural em busca de melhores perspectivas de renda na cidade e acabaram fazendo parte dos números da vulnerabilidade social. “Muitas dessas pessoas da periferia já tiveram um contato com a colônia, então a gente resgata esse conhecimento e orienta”, diz o agrônomo Fábio André Meyer, coordenador do núcleo do CAPA em Pelotas.
Sob a orientação do núcleo do CAPA em Pelotas, área situada no bairro Pestano investe na produção de hortaliças, temperos e plantas alimentícias não convencionais, alimentando famílias que deixaram o campo em busca de oportunidades e entraram para as estatísticas da vulnerabilidade social. Foto: Fábio André Mayer / Divulgação
Criada em 2002, a Horta do Pestano agora está sendo ampliada para uma nova área de dois hectares, onde a produção de hortaliças será reforçada com o cultivo de temperos e plantas alimentícias não convencionais (Pancs). O método de trabalho com a comunidade, explica Meyer, é baseado em rodas de conversa, e as famílias são direcionadas às atividades com que mais se identificam. Para o preparo de estufas e canteiros, são organizados mutirões com a participação de estudantes e instituições de ensino locais.
Segundo Meyer, o projeto recupera a dignidade dos moradores, especialmente aqueles impactados pelo desemprego desde o início da pandemia de Covid-19. “Em um primeiro momento, a horta é para a segurança alimentar. E, quando ele (o morador) consegue, por exemplo, vender um molho de couve para outra pessoa em vulnerabilidade ou num mercadinho, é muito legal”, diz.
Foto: Carlos Todeschini / Divulgação
Com o retorno do Brasil ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a equipe do CAPA vem percebendo um aumento do interesse por práticas de agricultura urbana, afirma o agrônomo. “Temos na nossa base social um viveiro para a produção de mudas de hortaliças orgânicas, que estão sendo muito procuradas, não só pelos agricultores familiares ecológicos que a gente acompanha e são certificados”, destaca Meyer.
Delicadeza e paciência para produzir cogumelos shimeji no Litoral Norte
Com mais de duas décadas de trabalho dedicadas à apicultura, Frederico Kellermann herdou dos pais agricultores a conexão com o campo. Mas foi em plena zona urbana de Capão da Canoa que, há cerca de dois anos, ele decidiu se aventurar em um terreno inusitado, a produção de cogumelos comestíveis da espécie shimeji. Iniciada dentro de um contêiner, com o auxílio de dois parceiros, a empreitada foi motivada pela necessidade de criar uma nova fonte de renda para a família, explica o fungicultor. “Tu pode fazer venda direta (ao consumidor). No mel, tem uma cadeia de atravessadores muito complicada”, compara.
A técnica é delicada e envolve várias etapas, que começam com a preparação de um substrato com serragem de madeira. Esse material, fracionado em blocos de 1,5 quilo, é embalado em sacos plásticos e submetido a um processo de pasteurização a 95°C por 10 horas, ensina o produtor. O composto, então, é inoculado com as “sementes” do fungo escolhido e depois transportado para uma sala de incubação, onde permanece em estantes entre 15 e 25 dias.
Frederico Kellermann vende a produção de cogumelos, de 10 a 20 quilos diários, para mercados, restaurantes, público em geral e em feiras de agricultores familiares promovidas em Capão da Canoa. Foto: Frederico Kellermann / Divulgação
A última etapa do processo ocorre em outra sala e leva de 35 a 40 dias. É a chamada frutificação, o desenvolvimento dos cogumelos brancos, que emergem em pequenos buquês – o ponto de colheita depende do tamanho preferido pelos compradores da produção. “A gente errou muito até acertar. Fizemos cursos, demoramos um pouco para aprender”, conta Kellermann, destacando o apoio recebido dos extensionistas da Emater-RS/Ascar.
Segundo o fungicultor, os primeiros resultados foram animadores. A produção diária já soma de 10 a 20 quilos de cogumelos, vendidos ao preço de R$ 50 reais a mercados, restaurantes e ao público em geral nas feiras de agricultores familiares promovidas aos sábados pela Prefeitura de Capão da Canoa. O Instagram e o Whatsapp ajudam na divulgação do produto e na organização das telentregas. Agora, Kellermann quer consolidar a atividade e, para isso, está ampliando as salas de cultivo. “Temos um público fiel ao produto, então a gente está se reestruturando porque no verão (a demanda) é maior no litoral”, diz.