Especial

HPS busca recursos para expansão

Com oito décadas de funcionamento na Capital, estruturas do hospital recebem intervenções em telhado, fachada e andares internos, enquanto planejamento de anexo avança em busca financiamento

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. Foto : Fabiano do Amaral

Do alto do telhado do Hospital de Pronto Socorro (HPS), a diretora-geral, Tatiana Breyer, contempla a Porto Alegre do passado, do presente e do futuro. Diante do característico letreiro, feito com cimento e pintado na cor verde, que materializa a vocação daquela casa de saúde criada há 80 anos, ela recorda fases distintas atravessadas pela instituição.

Por aquele prédio histórico localizado no cruzamento das avenidas Osvaldo Aranha e Venâncio Aires e que mantém suas portas abertas 24 horas por dia desde 1944, passaram muitos trabalhadores e pessoas com as mais diferentes histórias e destinos. Aliás, sequer a Capital é a mesma, visto que cresceu exponencialmente ao seu redor – eram pouco mais de 272,2 mil habitantes na década de 1940, hoje são 1,3 milhão.

Tatiana Breyer, Diretora do HPS | Foto: Fabiano do Amaral

Ao observar os diferentes recortes de tempo, é possível dizer que a estrutura do HPS nem sempre acompanhou a relevância da instituição que abriga. Nos últimos anos, o hospital que é referência no atendimento de traumas, urgências e emergências para todo o Rio Grande do Sul e com 100% dos atendimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) sentiu o passar dos anos e a demora na execução de reparos.

O resultado foi o agravamento de danos estruturais, que afetaram tanto o atendimento aos pacientes quanto o trabalho dos profissionais. O caso mais emblemático foi a desativação de parte do quinto andar por conta de infiltrações no telhado, o que obrigou a transferência da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de Queimados para o quarto pavimento. Reboco se desfazendo, problemas elétricos, mofo e falhas hidráulicas completam um cenário que cobrou respostas.

Dois grandes movimentos foram iniciados em 2019. O primeiro visou a captação de recursos para executar as reformas estruturais urgentes. Em paralelo, ganhou corpo a ideia de expandir o HPS, mirando o futuro.

Após anos articulando recursos oriundos de emendas parlamentares e abrindo espaço no orçamento da prefeitura, em abril de 2025, as obras começaram. Neste mês de setembro, ao mostrar os avanços obtidos no telhado, a diretora-geral não escondia o sorriso. “Foram anos difíceis, com uma pandemia e uma enchente, com tudo aquilo que sabemos que aconteceu”, recordou Tatiana, enquanto caminhava sobre a laje da cobertura, recém-impermeabilizada, reforçando a importância do gesto.

Resta pouco trabalho lá no alto. Telhas antigas e suas sustentações foram substituídas por materiais mais leves e resistentes sem interferir na arquitetura original. Poucos metros de impermeabilização restante no trecho em concreto separam a obra de seu fim. “São telhas de metal, mais resistentes, e esperamos que durem por décadas. A expectativa é concluir tudo já em outubro, mas isso depende do clima”, conta a gestora.

Obras de reforma no Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre (HPS) | Foto: Fabiano do Amaral

Vencida a etapa considerada crucial, o trabalho se concentrará na recuperação do quinto andar, sanando os estragos deixados pela infiltração da água. Já há trabalho em boa parte das áreas interditadas. Na ala destinada a pacientes, uma nova central de ar-condicionado já foi instalada. Pintura, pisos e divisórias também ganham forma.

A reabertura da UTI de Queimados em seu lugar de origem é tida como um passo importante para que seja possível realizar melhorias estruturais nos demais andares. As propostas de intervenções contemplam a substituição das redes elétrica, hidráulica, de climatização e de oxigênio do terceiro e do quarto andar.

A meta, conforme Tatiana, é transformar os espaços em quartos que atenderão até três pacientes. As instalações serão equipadas com banheiros e atenderão a até três pacientes, modelo já adotado no segundo andar, que passou por reforma anterior. “Essa melhoria muda significativamente o trabalho das equipes e traz mais conforto aos pacientes”, afirma a diretora.

Recuperação da fachada

De volta ao presente, tapumes e andaimes circundam boa parte do exterior do hospital. Nesta frente de atuação, o objetivo é recuperar a fachada, bastante deteriorada, como indicam as rachaduras no revestimento e também o desgaste da pintura de paredes e marquises.

O serviço na fachada, em estilo Art Déco e considerada patrimônio arquitetônico da cidade, começou em abril com a retirada de detalhes estruturais que apresentavam risco, como partes da marquise e peças de cerâmica originais. O projeto prevê que esses elementos sejam restaurados e reinstalados, mantendo a preservação histórica.

Obras de reforma no Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre. | Foto: Fabiano do Amaral

A previsão é que a troca do reboco esteja concluída até dezembro. “Teremos também a colocação de esquadrias modernas”, explica a diretora do HPS.

Tal conjunto de reformas, segundo ela, resgatam a importância da instituição. É uma espécie de ajuste de contas com o passado e o presente de quem fez e quem faz o dia a dia da casa de saúde.

“Há muito aguardamos estas obras. Um hospital não é feito só de cama. A rede hidrossanitária, datada da época da inauguração, precisa ser substituída. As tubulações ainda são de ferro”, ressalta.

Projeto de expansão

O projeto de expansão lançado em 2019, chamado de HPS do Futuro, não avançou. Tatiana avalia que fatores como a pandemia de Covid-19 e a enchente de 2024 foram decisivos, tanto para dificultar a captação de recursos quanto para a revisão da proposta. “Não abandonamos o projeto, mas redimensionamos tudo, adequando às demandas de serviço e às transformações sociais que vivemos”, explicou a gestora, enquanto contemplava do alto o terreno com frente para rua José Bonifácio. Esta área de 19 mil metros quadrados que hoje faz fundos com a sede atual é tida como o marco do HPS que os gaúchos terão nas próximas décadas. “Quando começamos a pensar na expansão, havia casas, elas foram demolidas”, recordou Tatiana sobre o passo dado. Pequeno, porém simbólico, diante do desafio que se encaminha.

O plano discutido há quase uma década previa a construção de um prédio com sete andares. Agora, há estudos para oito pavimentos, com a possibilidade de um subsolo, totalizando 11 mil metros quadrados. A ordem de início para a elaboração do projeto executivo, primeira etapa para viabilizar a obra, foi dada em março deste ano, e o trabalho deve ser finalizado até o fim de 2025. “Estamos trabalhando no projeto executivo, definindo como será e como se dará a ocupação de cada espaço. São premissas deste projeto a viabilidade, soluções baseadas em custo e benefício, a parte de conforto ambiental, eficiência energética, a flexibilidade, que é pensar como estará a cidade daqui a 100 anos. Não conseguimos fazer todas as previsões, mas precisamos ter alguma flexibilidade em relação à adaptação daquilo que existe hoje e do que existirá no futuro”, reforça.

Obras de reforma no Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre (HPS) | Foto: Fabiano do Amaral

A ideia é criar um anexo com 95 novos leitos, dobrando a capacidade de atendimento da instituição. Serão dois andares destinados a internações. Estão previstas as transferências de setores administrativos e também da UTI de Queimados para as futuras instalações, abrindo espaço para uma nova UTI Geral e abertura de leitos extras no prédio histórico da instituição. Há ainda a previsão de um auditório para eventos.

A modernização também deve dar espaço para a aquisição de novos equipamentos, como aparelhos de ressonância magnética – serviço que atualmente não é oferecido pelo hospital. “Nossa maior força é a prontidão. Temos 14 especialidades médicas e equipes competentes para atuar em urgências e emergências. Qualificar a estrutura certamente fará diferença entre a vida e a morte”, destaca Tatiana.

Criar um Pronto Socorro preparado para as próximas décadas não é desafio barato. Em valores atuais, gira na casa dos R$ 150 milhões. Assim, a proposta é dividir a expansão em etapas com aportes de R$ 50 milhões em cada fase.

Para tirar o projeto do papel, o município pretende, além de apoio da população e dos governos federal e estadual, captar financiamento junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em 28 de agosto, a direção do HPS esteve reunida com o presidente da Assembleia Legislativa, Pepe Vargas (PT), para obter apoio político.

De acordo com Paulo Guimarães, diretor de Relações Institucionais e Captação de Recursos da Secretaria Municipal da Saúde, a estratégia inclui a captação de verbas por meio de emendas parlamentares de senadores, deputados e vereadores, além de contribuições da sociedade civil e da iniciativa privada. “Já estamos com uma pessoa designada para dialogar com grandes entidades e atores políticos”, afirmou Tatiana.

A diretora-geral revelou a campanha institucional “O HPS cuida da gente, a gente cuida do HPS”, que será lançada nas próximas semanas, também com o objetivo de sensibilizar a população e potenciais doadores. A expectativa da direção é de que a licitação para a obra possa ocorrer em 2026, desde que os primeiros recursos estejam, enfim, garantidos.

O HPS em em número

Atualmente, o HPS conta com 19 mil metros quadrados de área construída, aproximadamente mil servidores e um volume expressivo de atendimentos: cerca de 150 mil pacientes por ano, além de 78 mil exames e 12,5 mil internações, conforme dados de 2024.

Todos os dias, passam pelo hospital entre 350 e 400 pacientes, sendo um terço dos atendimentos relacionados à traumatologia. Entre seis e oito idosos chegam diariamente com fraturas de fêmur e as cirurgias eletivas são absorvidas pelo Hospital Independência, reaberto em 2013.

O HPS também é o único no RS a dispor de UTI pediátrica exclusiva para casos de trauma, consolidando sua importância para o sistema de saúde.