As indústrias de erva-mate vivem em um encruzilhada diante do atual momento do setor. Reflexo da pandemia do novo coronavírus, o consumo do produto aumentou desde o início do isolamento social. Mas as empresas alegam que não conseguem repassar a variação do custo. Além disso, estão apreensivas diante da possibilidade de escassez de matéria-prima porque a previsão de nova estiagem durante o verão, se confirmada, vai prejudicar o desenvolvimento dos ervais. “Se isso ocorrer, teremos problemas, pois a planta não reage”, prevê o presidente do Sindicato da Indústria do Mate no Estado do Rio Grande do Sul (Sindimate), Álvaro Pompermayer.
O dirigente admite que as empresas estão com uma “dor de cabeça”, pois todos os preços dos produtos usados no processo de fabricação e embalagem – como a própria folha, caixas de papelão, papel, chás utilizados em alguns compostos e combustíveis – subiram. O crescimento nas exportações também impactou no preço da matéria-prima.
Segundo Pompermayer, os produtores de Santa Catarina e parte do Paraná também tiveram problemas com a escassez de chuvas do ano passado, assim como os de outros países produtores do Mercosul. “Com este cenário, não sabemos o que vai acontecer a partir de fevereiro ou março, pois podemos ter dificuldades para abastecer o mercado”, comenta o presidente do Sindimate, torcendo para que as chuvas voltam ao normal e evitem este quadro.
Na contramão da queda na produção, o consumo aumentou com a pandemia do novo coronavírus, principalmente diante da campanha para as pessoas ficarem em casa e as recomendações de não compartilharem o chimarrão. Pompermayer diz que ainda não é possível quantificar o crescimento na demanda, que é atendida por 250 empresas do Estado.
As exportações para a Argentina, em consequência da estiagem no País vizinho, provocaram a antecipação da colheita em muitos ervais no Rio Grande do Sul, pois o preço estava atrativo para o produtor. Pompermayer calcula que os argentinos levaram entre 12 mil e 13 mil toneladas de erva-mate do Rio Grande do Sul em 2020, volume considerado elevado em um período de redução da oferta da matéria-prima. “Os estoques existentes foram para as indústrias ou para o consumo e as reservas foram para a exportação. Agora dependemos da reação da planta para poder trabalhar amanhã.”
A comercialização de erva-mate para a Argentina tem sido atípica, pois não vinha ocorrendo em períodos anteriores. Conforme Pompermayer, o setor ervateiro argentino colheu apenas 40% da estimativa para 2020 em função da estiagem. “Isso é muito em quantidade e fez com eles comprassem no Brasil e no Paraguai para repor seus estoques, o que encolheu muito o nosso”, analisa.
Por outro lado, a introdução de novas tecnologias avança cada vez mais no setor. Pompermayer afirma que houve muita evolução nas indústrias da área de equipamentos, com aparelhos de ponta, tanto de secagem como de moagem e empacotamento. “Em algumas empresas ninguém mais põe a mão na erva-mate na linha de produção. Tudo é feito por máquinas, até o enfardamento”, revela o presidente do Sindimate.
Apesar de reduzir a ocupação de mão de obra humana, o menor manuseio na indústria alimentícia é importante. “Estamos tentando vender erva-mate para a Europa e eles são bastante exigentes em qualidade”, explica.
Pompermayer ressalta ainda que em pouco tempo o setor adotará o rastreamento do produto, confirmando que algumas indústrias já estão com a implantação deste processo em fase adiantada. “Tudo isso faz com que aumentem os custos das empresas”, reitera.
Indústria vê custo crescer sem poder repassá-lo