Especial

‘Jornal-museu’ preserva tradições no Vale do Taquari

Também centenário, O Taquaryense mantém viva sua circulação por meio da técnica da tipografia em maquinário que pertenceu ao CP

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. Foto : Alina Souza

A história de um veículo de comunicação do interior do Rio Grande do Sul se entrelaça com a trajetória do jornalismo e do Correio do Povo. Um legado que resiste à força das décadas e séculos. É em uma casa simples, com um pequeno gramado em frente e poucos cômodos no interior que reside uma parte importante do jornalismo e da história do Rio Grande do Sul.

O Taquaryense, jornal semanal sediado na rua Sete de Setembro, em frente à Praça São José, na área central do município de Taquari, no vale homônimo, é possivelmente o único da América Latina e um dos três no mundo todo produzidos manualmente pela técnica da tipografia. É assim desde sua fundação, em 31 de julho de 1887, pelas mãos de Albertino Saraiva, cuja herma repousa na praça citada desde 1969. A sede e o maquinário do jornal, o segundo periódico mais antigo do estado, são tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do RS (Iphae).

“Todas essas páginas importantes da história brasileira e mundial estão gravadas nas nossas edições. O Taquaryense, em sua humildade, contribui muito mais para a parte histórica, à medida que ele se tornou através dos tempos uma espécie de 'jornal-museu'. O objetivo principal do jornal é justamente a preservação histórica”, conta Pedro Harry Dias Flores, jornalista e atual redator-chefe do jornal, integrante da sexta geração de proprietários da mesma família.

Jornalista Pedro Harry Dias Flores conta sobre a história do jornal O Taquaryense. | Foto: Alina Souza

Graças a isso, a sede recebe com frequência pesquisadores, historiadores e acadêmicos de diferentes áreas, tendo sido condecorado por associações de imprensa em diversas ocasiões. Em tempos de digitalização, IA e redes sociais, O Taquaryense teve oportunidade de se modernizar, porém, preferiu manter sua essência, circulando todos os sábados com quatro páginas e tiragem de até 500 exemplares, exclusivamente para assinantes. Oitenta por cento deles residem em Taquari e o restante é da diáspora pelo Brasil, que recebe a edição pelo correio.

Há duas cópias de seu extenso acervo, apenas físico. Uma está preservada no próprio jornal, encadernada em dezenas de cadernos, enquanto a segunda pertence a uma família do município de Taquari que mora em Porto Alegre, essa abrangendo desde as edições do século retrasado, até por volta de 2020. Há ideias em curso para digitalização do material, buscando preservar este importante patrimônio histórico gaúcho.

A história do jornal de Taquari está diretamente ligada ao Correio do Povo. Em 1910, Saraiva adquiriu de Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior, fundador do CP, a impressora plana francesa Marinoni Universelle, número de série 14.335, produzida no final do século XIX e que havia sido comprada por Caldas Júnior para imprimir o diário porto-alegrense. A venda foi efetivada ao jornal de Taquari após o Correio renovar suas rotativas. Junto a ela, o chamado motor Crioulo também foi para Taquari. Projetado por Joaquim Alcaraz, então chefe das oficinas e diretor do Correio do Povo, e construído pelo estaleiro Só & Filhos, foi o primeiro motor a querosene fabricado no Brasil e medalhista de ouro na Exposição Estadual em 1901. Ambos seguem em funcionamento, recebendo manutenções periódicas.

O linotipo, a máquina que revolucionou a imprensa na virada para o século 20, que pertenceu ao Correio do Povo, foi revitalizado recentemente. | Foto: Alina Souza

Constam ainda no acervo um prelo manual, considerado a primeira impressora do jornal; uma linotipo, que funde as linhas de texto, uma guilhotina para o corte do papel e uma impressora Minerva, para impressão de documentos comerciais. Outros nomes estão ligados à história de ambos os jornais. Leonel Teodorico Alvim foi correspondente e agente do Correio do Povo em Taquari até 1928 e liderou a redação do Taquaryense entre 1927 e 1945.

Linotipo transforma chumbo em linhas de texto, que depois são utilizadas na impressão das páginas. | Foto: Alina Souza

Autor do livro “O Correio do Povo e Eu”, o articulista Francisco Pereira Rodrigues, que escreveu nas páginas do CP por mais de 50 anos, entre 1937 e 1988, era colaborador assíduo do jornal de Taquari e considerado seu assinante mais antigo. Sérgio de Gouveia, ex-diretor-secretário do Correio do Povo, escreveu para O Taquaryense. Lideranças políticas e personalidades escreveram no periódico do Vale do Taquari.

O ex-presidente da República Artur da Costa e Silva, nascido em Taquari, estreou a coluna Crônicas do Rio em 1923, sob o pseudônimo Raul D’Alva, enquanto era tenente no Rio de Janeiro. Visitou o jornal em 1966, quando era ministro da Guerra do governo do general Castelo Branco, e em 1968, já na presidência, acompanhado do então governador do estado, Walter Peracchi Barcelos. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o poeta Carlos Nejar escreveu crônicas para o Taquaryense enquanto era promotor em Taquari, na década de 1960.

Também naturais de Taquari, o “príncipe dos poetas do Rio Grande do Sul”, Zeferino Brasil colaborou com o periódico em seus primeiros anos e o advogado e político Adroaldo Mesquita da Costa, ministro da Justiça do presidente Eurico Gaspar Dutra, foi um de seus articulistas mais assíduos na década de 1940.

UM POUCO DA HISTÓRIA

O caráter histórico do Taquaryense permite prescindir da velocidade, de maneira inversa a um jornal dos tempos atuais, mas sem descuidar da apuração e seleção de notícias. A “redação”, que fica no mesmo ambiente das máquinas, conta apenas com dois funcionários fixos: Pedro e o tipógrafo João da Rosa Rodrigues.

Além disso, há uma equipe de cerca de seis articulistas, que escrevem frequentemente para o periódico. Albertino Saraiva tinha apenas 22 anos quando fundou o jornal, permanecendo à frente até 1928. Depois, vieram os filhos Palemon, diretor temporário nas décadas de 1910 e 1920, Mário, gerente da empresa gráfica entre 1923 e 1945, e Plínio, o mais longevo, ingressando como entregador ainda com 8 anos de idade, gerente a partir de 1947 e diretor de 1956 a 2004, quando faleceu aos 101 anos.

A terceira geração foi composta por Peri Saraiva, filho de Mário, e Flávia Therezinha Saraiva Dias, filha de Plínio, que atuou por anos como revisora e assumiu a direção após a morte do pai, estando à frente da publicação até hoje. O jornal teve ainda outros diretores, como o médico João Carlos Bizarro Teixeira, casado com uma neta de Albertino, de 1947 a 1985, e o ex-prefeito de Taquari Nardy de Farias Alvim, codiretor entre 1949 e 1966. Pedro, trineto do fundador, formado em Jornalismo pela Universidade do Vale do Taquari (Univates), mas que inicialmente pretendia cursar Direito, afirma que dentro da família existe uma espécie de “mística da continuidade”, mantendo acesa de pai para filho a trajetória do Taquaryense ao longo de seus quase 140 anos.

Xilogravuras são utilizadas para ilustrar O Taquaryense. | Foto: Alina Souza

Ao longo das décadas, o Taquaryense reportou muitos dos principais acontecimentos locais, nacionais e globais, figurando em um panteão de grandes jornais supercentenários, ao lado do Correio do Povo. Lançado no apogeu da imprensa político-partidária no Rio Grande do Sul, posicionou-se inicialmente como “imparcial e neutro” e, segundo registrado no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Pedro, que mergulhou na história do veículo de sua família, o jornal engajou-se na luta pela libertação dos escravizados, colaborando também com a articulação das forças republicanas gaúchas na Revolução Federalista de 1893.

Em 1902, mudou de postura e assumiu o apoio ao Partido Republicano, de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, até 1935, quando, às vésperas do Estado Novo, que extinguiu a agremiação, declarou-se folha independente, permanecendo assim até os dias atuais. Engana-se, no entanto, quem pensa que o jornal de Taquari é totalmente avesso ao mundo digital. O Taquaryense possui uma página no Instagram, sem atualidades, apenas para divulgação de seu acervo histórico, e há projetos para a publicação de um site.

Há ao menos duas placas com homenagens do governo do Rio Grande do Sul ao jornal, fixadas na parede de sua sede aos 95 anos, em 1982, e no centenário, em 1987. Diante do legado de O Taquaryense e o peso da responsabilidade de gerenciar um dos jornais mais antigos do estado, cuja trajetória praticamente se manteve incólume em 140 anos, Pedro afirma que a imprensa profissional permanece insubstituível, mesmo perdendo terreno para as plataformas digitais e a lógica dos algoritmos.

“Claro que não se compara ao que foi no passado, pois a imprensa exercia um papel muito mais presente antes da Internet e dos meios tecnológicos. Hoje é uma imprensa diferente, mas ainda muito importante, porque o jornalista se preocupa em checar a informação e disponibilizar um conteúdo de qualidade, com texto bem escrito e verídico”, disse o gestor. “A importância da imprensa profissional é fundamental nos tempos atuais, em que circula muita informação sem veracidade e sem qualidade”.

Tipos ainda usados no jornal O Taquaryense. | Foto: Alina Souza

Como é montado o Taquaryense

  • As matérias são digitadas na linotipo, que funde linhas inteiras em liga de chumbo. Títulos e cabeçalhos são compostos manualmente, letra a letra, com tipos móveis soltos. Fotos e ilustrações entram por meio de clichês — gravuras em relevo de metal ou borracha —; no caso do Taquaryense, produzidos em clicherias encomendadas de São Paulo ou Porto Alegre.
  • Com a volandeira (régua/suporte de apoio manual), o tipógrafo alinha fisicamente as linhas de chumbo, os tipos de título e os clichês, organizando as colunas.
  • Os blocos compostos são transferidos para a rama (chassi plano de ferro). As páginas internas são montadas na sexta-feira, capa e contracapa de segunda a quarta-feira.
  • Inserem-se réguas e espaçadores entre os textos e apertam-se cunhas metálicas nas bordas da rama. A pressão transforma as peças soltas em um bloco sólido e rígido.
  • Na quarta-feira, aplica-se tinta sobre a matriz montada para rodar a prova de redação, onde o redator realiza a checagem e a correção ortográfica.
  • A rama travada é fixa na impressora plano-cilíndrica Marinoni, que prensa o papel contra a matriz, imprimindo duas páginas por vez.
  • Às quintas, as folhas são dobradas manualmente e distribuídas aos assinantes. Logo após, a matriz é desmanchada: tipos manuais voltam para as caixas organizadoras e o chumbo da linotipo é separado para ser derretido e reutilizado.