Largar tudo e ir viajar

Largar tudo e ir viajar

Talvez grande parte das pessoas já tenha tido essa ideia, que normalmente fica só no plano da imaginação. Porém, há aqueles que a colocam em prática

Por
Christian Bueller e Henrique Massaro

Foi com poesia que Marauê Nunes disse adeus ao antigo emprego. “Me despeço da hora marcada, da camisa engomada, do relógio e do computador/Me despeço daquela tela brilhante que refletia minha tristeza, e daquela cadeira bonita que sustentava a minha fraqueza/Mas me despeço feliz pra um dia poder contar que fui viver a vida que eu quis.”

Quantas vezes você já pensou em largar tudo para viver outra história, dar um novo rumo ao seu cotidiano, deixar para trás o peso que parece atrasar o futuro? A insatisfação com a vida que se leva é democrática, afeta pessoas de diferentes gêneros, classes sociais, credos, etnias, preferências clubísticas ou partidárias. Do desempregado ao concursado da Petrobras, como Marauê. Aos 34 anos, após nove anos na estatal, o engenheiro mecânico largou o emprego e prepara as malas para cair na estrada com a esposa, a cirurgiã-dentista Raquel Pinto, 31. E não qualquer itinerário: é uma volta ao mundo que deverá durar três anos a partir de março de 2020.

Nascido em Jaciara, no Mato Grosso, ele tem no gene o espírito da mudança. A mãe, de Bagé, e o pai paranaense já rodaram o Brasil algumas vezes, fazendo o pequeno Marauê se acostumar com as mutações que as experiências promovem. “Fico incomodado de ficar muito tempo no mesmo lugar”, confessa, inquieto. A relação com Raquel já durava cinco anos quando o nome do companheiro apareceu na lista dos aprovados no concurso que traria tranquilidade e estabilidade. “Ele poderia ir para qualquer capital. Foi chamado para trabalhar em Porto Velho, Rondônia.

O Marauê já viajava bastante, mas eu nunca tinha saído da casa da minha mãe”, conta Raquel. Formada apenas 15 dias antes, embarcou com o engenheiro para o norte do país, onde viveram dois anos, um mês, cinco dias e quatro horas, como a dentista contabiliza. Ele brinca sobre esta passagem. “Quando passei no concurso, mentalizava: ‘Quero ir para Porto ou lugar com praia’. Acabou sendo Porto, só que Velho, onde tem praias de rio.”

A transferência para a capital gaúcha trouxe certo alívio devido à proximidade da família, mas três anos depois Marauê percebeu que o problema não era o lugar. Faltava gostar do que fazia. Afeito às letras e palavras, sempre gostou de escrever poesias, mas a carreira de engenheiro saltou na frente, de paraquedas. E o prazer das boas coisas da vida despencou em queda livre. “Concurso é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, é bom pelo salário e segurança financeira, é ruim porque, mesmo se a pessoa não gostar mais de fazer aquilo, é raro sair deste tipo de emprego porque é difícil entrar”, pontua. 

Marauê Nunes e Raquel Pinto, antes da viagem. Foto: Alina Souza

O casal começou a pensar sobre uma guinada. Para Raquel, que sempre teve o pé no chão e não teve uma criação instigada a mudanças, era mais complicada a ideia de um caminho que poderia parecer incerto. “Quando eu passava o final de semana com os pais em Bagé, levava duas malas, uma só de sapatos. Mas o primeiro presente de Natal que ganhei do Marauê foi um mochilão. Logo fomos fazer uma trilha de nove dias em Torres Del Paine (Chile). Foi a melhor coisa que fizemos.” Mas, com o tempo, os pensamentos convergiram.

De que forma que a mudança aconteceria, ainda não se sabia. Os dois tinham consciência, no entanto, de que seria preciso ter algo além da coragem para largar tudo: organização. “Não iríamos fazer ‘a la louca’. Aproveitei que ganhava bem e trabalhei para quitar o nosso apartamento, financiado, para viajar sem dívidas”, explica Marauê. A maior fonte de renda da empreitada será com os valores mensais resultantes do aluguel do imóvel. O lucro com a venda do carro que tinham também virou recurso. Os últimos três anos serviram para os preparativos, com calma e muito planejamento. 

“Decidimos que queríamos nos transportar por terra, para acompanhar de perto as diferenças entre lugares que visitarmos. No avião, tu sai de um ponto e aterrissa no outro, totalmente diferente”, diz o engenheiro. Mas qual seria o veículo? Um motorhome novo seria caro demais. Aí apareceu uma ambulância para salvar a pátria. “Era agosto de 2017. Eu comecei a procurar leilões on-line atrás de uma caminhonete e encontrei um veículo do Exército. Uma Toyota Bandeirante.” Até o nome remetia à expedição, mas faltava muita coisa para deixar a “CasaCarro”, como foi apelidada a ambulância, pronta para sua mais nova missão. “Estava em um depósito, não tinha painel nem caixa de marchas, o eixo da frente estava trocado. Levamos para uma oficina conhecida de um amigo que conhecemos no Chile.”

Parte mecânica resolvida, a carroceria com suportes para maca e outros apetrechos médicos deram lugar ao lar do casal aventureiro. “Tinha que ter, pelo menos, duas coisas: uma cama para que eu pudesse esticar as pernas e um banheiro”, conta Marauê. Mas a CasaCarro tem bem mais do que isso. É equipada com bancada com pia e fogão, geladeira para caminhão, armários aéreos e até um sistema de ar-condicionado projetado pelo engenheiro, com dois coolers de computador (ventiladores) que se encarregarão de levar embora o ar quente para refrescar o local durante as noites. “A nossa maior preocupação, na verdade, era o frio. Então conseguimos fazer um isolamento acústico e térmico, com spray de poliuretano em todas as paredes internas da ‘casa’, feitas de compensado naval. De alguma coisa teria que valer a Engenharia”, brinca. Tomadas e luzes não faltam à moradia ambulante, que tem um teto solar devidamente instalado.

Marauê questiona o modelo que a sociedade, com o passar dos tempos, desenvolveu para determinar o conceito de felicidade. “A gente abandona o que gosta de fazer depois dos 15, 16 anos porque nos ensinam que isso é hobby. No meu caso, era escrever. A partir daí acabou a brincadeira, tem que trabalhar. A fase mais produtiva é justamente entre os 20 e os 60 anos e, normalmente, estamos fazendo algo que não gostamos”, diz, defendendo que trabalhar no que as pessoas chamam de hobby deveria ser a regra, e não a exceção. Apesar de adorar sua profissão, Raquel concorda com o marido que trabalhar um ano inteiro em busca daquele mês de férias não é o que vislumbra para a sua vida. “Além disso, percebi que não era valorizada. Sempre primei pela saúde como fator principal, mas as pessoas se preocupam, cada vez mais, com a estética.”

Os dois resolveram parar, juntos, no final do ano passado. Marauê ainda teve outra coincidência a seu favor. “Na mesma época, a Petrobras ofereceu um plano de incentivo à demissão. Então, não saí sem nada. Não foi muito, como se poderia pensar, mas esse recurso antecipou (a viagem) em quase um ano, nós só iríamos lá por outubro.”

Jornalistas em visita a Vulcão Chimborazo, no Equador. Foto: Carina Furlanetto/Divulgação

Para aqueles que “têm a faisquinha”, mas temem mudar suas vidas, Marauê diz que é possível, mesmo que seja mais fácil para alguns e nem tanto para outros. Ele dá três dicas que seguiu e resultou na viagem. “Primeiro, retomei tudo o que eu gostava, mas não fazia mais. Voltei a me dedicar à poesia. Depois, abandonar o que não gostava. Mas tem que pensar de maneira racional, pois pode envolver o trabalho. Tem que se preparar para isso. Aí, vem o último ponto, eliminar as dívidas, que é o que aprisiona as pessoas nos empregos”, ensina. Raquel tem visto muitas pessoas doentes, deprimidas, estressadas e infelizes com os seus cotidianos e que tentam compensar com situações desnecessárias. “Acabam gastando um dinheiro que não precisam, por exemplo, em um grande jantar caro em uma noite porque tiveram uma semana ou mês difícil. Ou comendo mal ou bebendo porque ‘eu mereço’.”

O casal pretende pegar a estrada dia 9 de março, para conhecer novos lugares e tirar fotos, que serão publicadas no perfil do Instagram @algumlugarnaterra, já no ar. A viagem começa por Bagé, uma homenagem à terra da mãe de Marauê e ao pai de Raquel, já falecidos. A dentista se emociona ao lembrar da perda, recente. “Ele deu um jeito de nos ajudar nesse ano em que não esteve aqui. O início terá um simbolismo”, conta. Eles passarão pelo Uruguai, descerão até Ushuaia, cidade turística na Argentina, no extremo sul da América do Sul, conhecido como “fim do mundo”, e pretendem subir até as Américas Central e do Norte. “A ideia é entrar no Brasil pelo Paraguai, ir até a Colômbia e mandar o carro de barco até o Panamá”, diz Marauê, lembrando que Haiti, Cuba e Jamaica são ilhas que não querem deixar de ver, viajando por avião. Depois, EUA e Canadá.

“Vamos até o Alaska. De lá, queremos mandar o carro via navio pela Rússia. Como o translado demora, queremos aproveitar esse tempo e dar uma chegada na Oceania”, adianta Raquel. Depois do reencontro do casal com a CasaCarro na Rússia, a rota seguirá pela Ásia, antes de passar pela Europa. Mongólia, Índia e países árabes estão nos planos. Pelo Estreito de Gibraltar, Marauê e Raquel entrarão no continente africano, o último da viagem. “Queremos rodar o máximo de países que der, só evitar os que estão em guerra”, tranquiliza o engenheiro, que pretende concluir a viagem na África do Sul.

E depois? A viagem é quem dirá, segundo eles. Raquel cita o pai. “Ele dizia ‘eu estou vivo, não sabemos até quando’. Nós não sabemos mesmo.” Marauê complementa. “Às vezes, tu chega para determinada pessoa de mais idade e questiona sobre o que gosta de fazer. Muitas não entenderão nem a pergunta. Será que a vida é se divertir apenas nas horas vagas em uma vida toda?” 

O engenheiro acredita que pode ter fechado uma porta ao sair da estatal, mas terá, a partir de agora, tempo disponível para encontrar muitas outras. “As pessoas acham estranho alguém fazer o que gosta. A família tinha muito orgulho do ‘Marauê da Petrobras’, mas eu não estava feliz. Há quem diga ‘ele não quer nada com nada’. Pelo contrário, quero tudo com tudo”, exclama. 

Há um ano na estrada

Os registros mais antigos de expedições de descobrimento e os clássicos da literatura deixam uma certeza. Seja no imaginário de Júlio Verne, nos bosques de Henry David Thoreau, nas estradas da geração beat de Jack Kerouac ou até no Alasca de Christopher McCandless, o que importa não é a viagem, a aventura por si só, mas a busca interior. Há algo no ato de deixar tudo para trás e assumir uma vida com traços de nomadismo e primitividade que parece colocar o ser humano de frente consigo mesmo. Uma forma de autodescoberta que transcende o tempo e que se replica nos dias de hoje, em tantos blogs de viagens e projetos como do casal João Paulo Mileski e Carina Furlanetto, que há um ano estão em uma jornada semelhante a que Marauê e Raquel estão prestes a iniciar. 

Jornalistas por formação, os dois largaram a vida em Bento Gonçalves, na Serra gaúcha, para cruzar fronteiras em diversos sentidos. “Costumamos dizer que saímos para conhecer o mundo, mas acabamos descobrindo a nós mesmos”, conta João Paulo. Em fevereiro do ano passado, quando estavam deixando o Rio Grande do Sul, os viajantes conversaram com o Correio do Povo sobre a iniciativa, que, entre os objetivos, se propunha a ser um processo de autoconhecimento. Um ano depois, a expectativa se confirmou. “Mudamos nossos conceitos, como o de felicidade, por exemplo. Talvez tenhamos perdido muito tempo esperando algo para ser feliz, quando tudo o que tínhamos estava dentro de nós mesmos”, relata, ao comentar o maior aprendizado até aqui. “Somos privilegiados pela oportunidade de conhecer o mundo, mas no caminho percebemos que o mais importante é a viagem interior.”

Desde o início, o casal já deixava claro que a ideia de que o deslocamento no mapa e a aventura pessoal andariam lado a lado. Com o nome de Crônicas na Bagagem, o projeto se destaca por compartilhar no Instagram um texto e uma foto por dia. “Acho que propomos isso porque não tínhamos noção do desafio que seria, mas não nos arrependemos. Muitas das fotos que mais gostamos não teriam sido feitas se não houvesse essa ‘obrigação’, assim como muitas reflexões só foram parar no papel porque era algo que nos impomos”, relata Carina. Ela ressalta que, por vezes, é complicado cumprir o prometido. Em outubro, por exemplo, o casal ficou isolado no norte do Peru esperando que protestos no Equador cessassem. Outro caso foi em uma travessia voltando da selva peruana, que deveria durar dois dias e levou uma semana. Em situações como essas, a solução foi recorrer à criatividade para abastecer a rede social. 

Casal João Paulo Mileski e Carina Furlanetto em Salar do Uyuni, na Bolívia. Foto: Carina Furlanetto/Divulgação

“Traduzir os sentimentos em palavras”, como diz a jornalista, nunca foi problema para os dois em função da sua profissão, eles trabalharam por mais de 10 anos em jornais impressos. O único receio era com relação à plataforma para disseminar essas experiências. A maioria dos viajantes costuma fazer um canal de vídeos no YouTube. O Instagram, por eles escolhido, tem foco muito maior nas fotografias do que nas legendas. Mas os jornalistas acabaram se surpreendendo com o alcance que as crônicas conquistaram. Sem estratégias específicas de divulgação, eles costumavam apenas compartilhar o conteúdo em grupos de outras redes sociais, até que um texto acabou viralizando e em uma semana o projeto ganhou mais de 50 mil seguidores. 

A crônica em questão era sobre não esperar pelas condições perfeitas para tirar uma ideia do papel. No caso de João Paulo e Carina, uma condição que poderia ter sido usada para procrastinar a viagem era o meio de locomoção. Diferente de iniciativas semelhantes, em que as pessoas pegam a estrada com um motorhome, uma van ou até uma antiga ambulância, como no caso de Marauê e Raquel, os jornalistas decidiram rodar a América do Sul em um veículo 1.0. “Se tivéssemos esperado para comprar um carro maior, possivelmente continuaríamos esperando”, explica João Paulo. A possibilidade começou a se tornar viável, primeiro, por um processo de desapego. O espaço do automóvel parecia um problema, mas com o tempo os dois perceberam que as coisas que realmente precisavam cabiam dentro dele, que estava com as manutenções em dia e se mostrava econômico no consumo de combustível. Ficou apenas a pergunta: por que não tentar? “Imaginávamos que seria um desafio viver com tão pouco, mas hoje, por outro lado, pensamos que tínhamos coisas demais.”

A primeira complicação que surge na maioria das pessoas quando se ouve falar de alguém que largou o emprego e a estabilidade pelo que parece ser uma aventura – o que fazer depois? - parece ser a última preocupação de quem opta por este caminho. Talvez porque viver o momento seja a essência de quem escolhe esse estilo de vida. No caso do casal do Crônicas na Bagagem, em um ano não foi possível encontrar uma maneira concreta de monetizar o projeto, mas a visibilidade ajuda no dia a dia, como em parcerias e convites de seguidores para passeios, alimentação e hospedagem. “É claro que a vida após a volta para casa é um assunto que volta e meia surge nas nossas conversas, mas não temos certeza de nada e optamos em deixar a vida nos levar. Já pensamos tanto em nunca parar de viajar como em escolher um cantinho pacato para fixar raízes e levar uma vida ‘normal’. A única certeza por enquanto é que queremos escrever um livro, o resto segue sendo incógnita”, conta Carina. 

Apesar de a viagem dos jornalistas não ser uma volta ao mundo, ao restringir o roteiro à América do Sul eles têm um roteiro por vezes esquecido por muitos viajantes: o Brasil. Em dezembro, o casal retornou ao país com o objetivo de percorrer todos os estados. Há pouco mais de dois meses no Norte, eles atualmente estão conhecendo os recantos do Amapá. “Por mais que haja a ausência de serviços públicos básicos em muitos lugares, a esperança é marcante no semblante das pessoas. E quando há esperança, a felicidade resiste. São pessoas que conseguem sorrir tendo muito pouco, talvez por isso tenhamos criado tanta empatia com esse povo”, opina João Paulo. “Estamos encantados com todos os sabores e contrastes culturais que experimentarmos. Sem falar na generosidade e solidariedade do brasileiro, algo sem igual. Queremos não apenas conhecer pontos turísticos, mas nos surpreender com os contrastes de cada região”, completa Carina. 

As descobertas de Carina e João Paulo podem ser acompanhadas no perfil @cronicasnabagagem no Instagram. O objetivo das postagens é inspirar os seguidores, não a fazer o mesmo que eles, mas para, talvez, irem em busca dos seus próprios sonhos. “Não queremos que todos peguem seu carro popular e saiam viajando pela América do Sul, mas que pensem sobre as várias maneiras de sermos felizes. Como também costumamos dizer, não tente imitar as dez lições para ser feliz, a única chance de elas funcionarem é para o autor do livro. Talvez você até tenha sucesso com elas, mas sem perceber estará escrevendo uma história que, na verdade, não é sua”, afirma João Paulo.

Rompimento de paradigmas

A psicóloga Lenise Fetter Steiernagel diz que às vezes as pessoas têm tudo o que se poderia sonhar: vida pessoal e profissional bem resolvidas, mas, por algum motivo, se veem confusas e à procura de algo mais na vida. “Acabam se distanciando da sua zona de conforto e resolvem arriscar.” Segundo ela, a decisão, no entanto, não é atestado para a felicidade. “Não significa que a vida passe a ser perfeita. Ela seguirá com dias bons e ruins, apenas com a opção de ser viajante pelo mundo. Do dia para a noite ou de maneira planejada, não é uma escolha fácil, significa romper paradigmas.”

Para a especialista, o ser humano está “sempre em busca de algo e esse desejo é o que nos move e nos impulsiona para a vida”. Lenise reitera que não possuir algumas das coisas que se deseja é parte da felicidade, porque “ela acaba sendo um instante ou momentos de plenitude para, logo em seguida, querermos mais”. Ela lembra que o sentimento de frustração é recorrente e pode acontecer por diversos motivos. “Devido ao modo como nossa sociedade se organiza atualmente, o prazer e a satisfação são alimentados, ideias de vida ideal são padronizadas e a sensação de que nunca alcançamos objetivos grandiosos se torna avassaladora.” Daí a inadaptação torna-se generalizada, já que adultos, jovens e crianças não foram preparados para isso. “Acabam se apegando a falsas realizações, um conforto artificial criado por si mesmos. Conseguir encarar com realismo suas próprias frustrações é um passo essencial para o amadurecimento pessoal.” Lenise acredita que é possível sempre reavaliar os erros e recomeçar. “O que não se deve deixar acontecer é olhar para o caminho que o outro tomou e imaginar que aquele seria o melhor. O que serve para um pode não servir para outro.”

Registro da viagem à Praia de Pindobal, no Pará. Foto: Carina Furlanetto/Divulgação

Importante, segundo Lenise, é reavaliar se decisões como as dos entrevistados estão amadurecidas ou se é um ímpeto por algo que não vai bem na vida e que poderá gerar insatisfação ainda maior. “Se for realmente esse o desejo, então, devem ser traçados os objetivos, tem que ter um plano e colocar em ação, e estar desapegado a ponto de vender o que for necessário. Para quem não tem ainda aquele dinheiro reservado, tem que juntar, trabalhar, calcular o quanto irá gastar e o que fará depois. Exceto em alguns casos, boletos continuarão existindo, você precisará se alojar, se alimentar, ter lazer - porque não há férias eternas - e lembrar que imprevistos acontecem”, alerta, lembrando, que a vida é feita de escolhas.

Nunca esquecer a volta

Economista que trabalha como consultora financeira, Janile Soares corrobora a forma como Marauê e Raquel prepararam a viagem. “O planejamento deve ser bem antes do período em que a pessoa deseja sair. Não se tem muito esse histórico de pensar antecipadamente. E também decidir o que fazer com os bens que possui. Muitas pessoas vendem o que tem, mas precisa saber que não encontrará quando voltar.” Coordenadora da Comissão de Educação Financeira do Conselho Regional de Economia (Corecon-RS), Janile lembra que muitas compras de viagens acontecem por impulso. “Às vezes, nem é o destino que se deseja, mas havia uma promoção. A pessoa compra e depois pensa nas consequências”. Por isso, segundo ela, é preciso saber qual é o propósito da viagem. 

Janile reforça que a retirada para um período sabático é diferente de uma viagem normal. “Nas férias, nos permitimos luxos que não temos nos outros momentos do ano. Sempre, é claro, dentro do orçamento.” Aos que julgam as pessoas que “largam tudo”, a economista reforça que o “sonho inatingível”, na verdade, foi uma empreitada bem planejada. Mas compreende os que mantêm os pés no chão. “Há pessoas que preferem não trocar o certo pelo duvidoso. Já temos uma parcela da população desempregada. Então, sabem o quanto será difícil não ter o posto de trabalho quando voltarem.”

Na sua experiência como educadora financeira, costuma ver casos como os citados pela reportagem, em que há insatisfação com o emprego, apesar de uma vida bem-sucedida na carreira. “Mesmo com a renda boa, falta alguma coisa, vem o desejo de mudança. Há casos em que a pessoa quer se desafiar a ser resiliente em um ambiente diferente, com idioma diferente. 

Um desenvolvimento no lado pessoal.” A economista conhece casos de viajantes que voltaram com uma mudança de carreira. “Geralmente voltam pensando em empreender. Chegam a ganhar menos, mas abrem mão do conforto que tinham para ter seu negócio, relacionado ao novo propósito de vida”. Janile reitera a necessidade de se pensar sobre a volta. A solução encontrada por Marauê, o aluguel do apartamento quitado, é referido por Janile como alternativa. “Ter uma reserva de emergência, por exemplo, para quem precisará se recolocar no mercado de trabalho.”