Uma ótima ideia, muita vontade de somar auxílios e parceria propositiva permitiram colocar em prática um projeto de atendimento à saúde voltado a desabrigados das cheias no RS. A largada ocorreu neste mês, a partir do Instituto Dunga de Desenvolvimento do Cidadão (IDDC) e contando, inicialmente, com o trabalho de médicos da Abrasmed (Associação Brasileira de Surf Médico) e de um aplicativo desenvolvido pelo médico Wilson Zatt, de Santa Maria. A proposta então deslanchou em parceria com o Laboratório Aché e a Lauduz Telemedicina Avançada e com apoio da Associação Médica do RS (Amrigs) e das faculdades de Medicina das universidades federais do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).
Caio Scocco, médico oftalmologista, coordenador da área de saúde no Instituto Dunga e integrante da Abrasmed, explica que, já na pandemia da Covid, integrantes da Abrasmed atuaram com telemedicina, em modelo que buscou atender quem precisava cuidar da saúde, mas devia seguir restrições sociais e isolamento. No caso das últimas cheias, que ainda mantêm desalojados milhares de gaúchos e que segue em algumas regiões, a proposta foi chegar em quem perdeu celular e/ou ficou sem condições, inclusive, de comunicação e de recursos. Foi aí que surgiu a proposta de utilizar um equipamento possível para abrigos. E a doação da Aché, para aquisição de equipamentos da empresa gaúcha Lauduz, permitiu adaptar o aplicativo a este novo contexto e mobilizar voluntários, contribuindo para facilitar o cuidado e acesso à saúde, totalmente gratuito e via voluntariado, em momento de crise.
Por meio da Abrasmed, Juliano Cardoso, presidente da Região Sul, fez um chamamento para trabalho médico voluntário do grupo surfista, que foi o primeiro organizado para atuar com telemedicina em meio à catástrofe ambiental. Caio destaca que “a Abrasmed foi nossa topa de elite a desbravar essa ação. E o médico cardiologista Cristiano Pederneiras Jaeger, de Porto Alegre, também da Abrasmed, foi o primeiro a prestar a modalidade, como projeto piloto, dentro do Abrigo Emergencial 60+, na rua João Pessoa, na Capital, no começo deste mês, através do Consultório Digital (tablet com equipamentos e acoplado por Bluetooth)”.
A experiência piloto do projeto TeleMed SOS RS, de cerca de três dias, foi exitosa, agilizando o serviço que deve seguir durante dois meses. Dificuldade em dispor de qualidade em celular, sinal de Internet e equipamento para prestar atendimento em telemedicina foram questões consideradas para avançar nesta iniciativa, levando em conta que a maioria das vítimas das enchentes perdeu tudo, lembra Caio. Segundo ele, a telemedicina semipresencial via Consultório Digital já é adotada internamente, em algumas instituições, em ambiente controlado. No entanto, nunca foi adotada em cenário de crise como este.
Dinâmica Operacional
Para o TeleMed SOS RS, hoje estão disponíveis 60 equipamentos, com 20 já instalados para o Consultório Digital. As enfermeiras Carolina Xavier e Eduarda Klein, do Instituto Dunga, são gestoras do projeto. Com a Amrigs, houve a capacitação de facilitadores (dentro dos abrigos), que organizam a demanda e ajudam os pacientes no acesso ao equipamento. O fluxo das consultas ocorre conforme a disponibilidade de médicos voluntários, que indicam o horário a doar para o projeto, sendo feita uma escala e acerto com o respectivo abrigo. Cada local tem sua dinâmica e, em abrigo ou centro comunitário participante, a pessoa interessada procura a coordenação e agenda a consulta. A ideia, de acordo com Caio, é funcionar em três turnos diários.
Atualmente, o projeto, que mobiliza 62 profissionais, precisa de mais voluntários e, agora, busca psicólogos. “A demanda pelo serviço é complexa”, revela Caio, ao assinalar o uso dessa telemedicina para resolver casos mais simples e evitar colapso em saúde, tanto em Unidade Básica como sistema hospitalar. Assim, normalmente as consultas são voltadas a receitas, queixas, como dor de cabeça ou sintomas gripais, e relacionadas à saúde mental, por exemplo.
Esse projeto está sendo acompanhado por Ufrgs e UFCSPA, que irão relatar a experiência para o meio médico, com vistas a descrever resultados de forma científica, ampliando e qualificando o trabalho.
Projeto TeleMed SOS RS
- O Telekit já foi instalado em 20 locais, entre abrigos e centros comunitários participantes. E o Consultório Digital é um modelo de telemedicina semipresencial em que o paciente acessa equipamentos (kits com tablet, esfigmomanômetro e oxímetro), em aplicativo composto por lista de espera, prontuário eletrônico e sistema de prescrição on-line.
- A Abrasmed reúne, pelo esporte, médicos do país. Além de competições, promove encontros profissionais. No Sul, atua há 23 anos, a partir de amigos médicos com paixão pelo surf.
- Médicos que desejam se voluntariar podem se cadastrar pela plataforma do projeto. E, agora, o projeto está em busca de psicólogos voluntários para participar dessa ação via Consultório Digital.
- Mais informes e contato: (51) 9733-0875 (WhatsApp).