O Rio Grande do Sul enfrentou em maio deste ano, a maior tragédia climática no Brasil. Em meio às enchentes e demais problemas causados pelas chuvas que atingiram milhões de gaúchos e gaúchas, a área da saúde não saiu ilesa. Entre as vítimas estão milhares profissionais, em grande parte médicos. Além disso, clínicas, hospitais e empresas também foram diretamente afetadas.
Em meio a todos os desafios e adversidades, a Medicina se dedicou para atender a sociedade gaúcha. Por meio de institutos sociais, as entidades e empresas também se movimentaram para garantir todo o apoio necessário, não apenas a todos os profissionais atendidos, mas a todas as vítimas da tragédia.
Desta forma, no “Dia do Médico”, comemorado nesta sexta-feira (18), há a necessidade de uma reflexão sobre os desafios que a profissão enfrenta, além do reconhecimento do papel transformador que desempenha na sociedade. É o que defende o presidente da Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs), Gerson Junqueira. “Ser médico um compromisso constante com a vida, o bem-estar e a dignidade humana. A Medicina exige não apenas conhecimento técnico, mas também empatia, resiliência e uma dedicação incessante à qualificação profissional”, afirma.
Conforme Junqueira, a associação tem sido um exemplo de protagonismo e dedicação, especialmente em momentos de crise. “A Amrigs se destacou como uma referência no acolhimento de doações, organização do trabalho voluntário, recebimento de medicações e destinação desses recursos àqueles que mais precisavam. Nossa atuação foi crucial para mitigar o impacto da catástrofe e promover a reconstrução da saúde e da dignidade dos afetados”, acrescenta Junqueira.
Na mesma linha, o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), não mediu esforços para contribuir com o fortalecimento da assistência em saúde durante as enchentes. Ainda no início de maio, foi criado na sede do Simers um gabinete de enfrentamento à crise, estudando e planejando ações voltadas à Saúde. A primeira medida foi abrir as portas para o recebimento de donativos. Depois, foi a vez dos medicamentos, em parceria com o Conselho Regional de Farmácia (CRF RS), separando e catalogando remédios e insumos, os quais também contribuíram para que muitos hospitais voltassem a atender a população.
Além disso, a criação de um modelo de atenção primária em situações de calamidade reuniu cerca de dois mil médicos em cadastro voluntário. Para o sindicato, esta foi uma das maiores contribuições do Simers para fazer a diferença em meio à dor e ao sofrimento dos gaúchos.
O presidente do Simers, Marcos Rovinski, explica que a iniciativa surgiu após conversa com a Prefeitura, que apontou a necessidade de organização das escalas dos médicos que estavam atuando nos abrigos. “Criamos uma verdadeira força tarefa para que o atendimento ocorresse de forma organizada e efetiva, com todos os processos de uma unidade de saúde, incluindo discussão de casos e rounds. Além disso, tivemos o apoio das sociedades de especialidades para tirar as dúvidas dos profissionais, por meio de teleconsultoria”, conta.
O Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers) lembra que o sistema de saúde foi duramente afetado pelas enchentes. Dezenas de UBSs, hospitais e outros equipamentos foram incapacitados de atender à população, o que levou à desassistência da população e ao represamento dos atendimentos eletivos
Para o conselho, uma das dificuldades geradas pelas enchentes foi o atendimento de pacientes em áreas isoladas ou com difícil deslocamento, especialmente aqueles que necessitavam de medicamentos controlado. Usando a expertise da plataforma de emissão de receita digital do Cremers, o conselho implantou a emissão de receituários azul e amarelo, atendendo à urgência e à necessidade da ação naquele momento de calamidade pública no estado. Para isso, o Cremers contou com a parceria do Conselho Regional de Farmácia (CRF-RS). Somente no mês de maio, foram emitidas mais de 40 mil receitas de medicamentos controlados.
O presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade, destaca que a utilização da plataforma já está consolidada entre médicos e população, e é amplamente reconhecida pelas farmácias. Além disso, a ferramenta “traz mais segurança para os médicos e os pacientes, dando credibilidade às prescrições realizadas”, enfatiza.
Apesar de afetadas, empresas não esmoreceram
Assim como milhares de empresas gaúchas, clínicas e hospitais também sofreram com a catástrofe. Responsável por liderar e representar institucionalmente o Sistema Cooperativo Empresarial Unimed-RS, a Unimed Federação RS teve mais de 625 colaboradores afetados, além dos prejuízos causados a estruturas como hospitais, laboratórios e espaços administrativos.
O Instituto Unimed/RS coordenou, alinhado com as singulares e seus institutos, os esforços de assistência à comunidade, às Unimeds atendidas e à força de trabalho. Nessa linha, a campanha “RS em Emergência” estimulou o apoio de todo o Sistema Unimed do Brasil, de outras cooperativas, e da sociedade em geral, em prol das famílias atingidas pelas chuvas no Rio Grande do Sul. Até o momento, a iniciativa já movimentou mais de R$ 9 milhões, por meio de doações em dinheiro ou bens materiais, evidenciando a força da cooperação e o compromisso com a comunidade.
Em resposta aos desafios do atendimento presencial, a Unimed implementou serviços de telemedicina e teleatendimento gratuitos. Esses serviços foram disponibilizados não apenas para os clientes beneficiários, mas também para toda a comunidade, garantindo acesso contínuo aos cuidados necessários durante a crise.
Para a empresa, o principal legado foi a demonstração da força e união do Sistema Unimed-RS. “Além disso, a enchente ressaltou a importância do terceiro setor, evidenciando como organizações como o Instituto Unimed/RS são cruciais para mobilizar recursos e apoio em momentos de crise, fortalecendo a resiliência e solidariedade da classe médica e da comunidade em geral”, afirma o presidente do Instituto Unimed/RS, Alcides Mandelli Stumpf.
Na Doctor Clin, que também teve unidades afetadas, os profissionais foram mobilizados para atender todos os milhares de clientes e a população afetada pelas enchentes. Os impactos da tragédia também atingiu 45 famílias de colaboradores.
De acordo com o diretor executivo do DC Group, Marcelo Dietrich, a empresa fez questão de amparar os funcionários afetados. “Mobilizamos recursos financeiros, somando doações e dobrando o valor arrecadado para garantir que essas pessoas pudessem reconstruir seus lares. Esse esforço, realizado em parceria com o projeto ‘De Volta para Casa’, trouxe alívio e dignidade para muitos que perderam quase tudo”, explica.
O diretor afirma que o entendimento da empresa é de que, em tempos de crise, é essencial ir além das ações cotidianas e suprir as necessidades emergenciais das comunidades afetadas. Em parceria com a Associação Brasileira de Planos Odontológicos (Sinog), durante o mês de julho, a unidade móvel odontológica da empresa se dirigiu à região das Ilhas do Guaíba, para as famílias pudessem receber atendimento gratuito. “Nossa iniciativa não se limitou a isso: distribuímos mais de mil kits de higiene bucal, promovendo benefícios concretos para a saúde de crianças e adultos da região”, relata.
Apesar da catástrofe, para Dietrich o papel desempenhado pela Medicina deixa um legado e demonstra a importância de seu papel para a sociedade. “Acreditamos que o futuro da medicina exige uma abordagem colaborativa e integrada, que se antecipa às necessidades da sociedade, atuando não só na cura, mas também na promoção, prevenção, predição e no apoio social”.
Apesar de não ter sido diretamente afetado pelas águas, o Hospital Moinhos de Ventos sofreu os efeitos colaterais da catástrofe. Logo no início da enchente, a instituição restringiu temporariamente seus atendimentos eletivos, mantendo a assistência aos pacientes internados e, também, urgência e emergência. O superintendente médico do hospital, Luiz Antônio Nasi, explica que o fornecimento de água foi a principal dificuldade, suprida com caminhões-pipa. O principal impacto se deu para os colaboradores. Ao menos 1.185 foram, de alguma forma, atingidos pela cheia.
Os colaboradores tiveram acesso a doações de cestas básicas, cobertores, roupas, itens de higiene e água. Além disso, foi criado um canal específico para doação via Pix aos funcionários que arrecadou R$ 450 mil e teve o incremento de mais R$ 825 mil do Moinhos.
“Além de prestar apoio a outros hospitais atingidos, recebendo seus pacientes, enquanto o atendimento eletivo esteve restrito, a instituição disponibilizou consultas médicas gratuitas por meio do nosso sistema de telemedicina. As consultas foram feitas por médicos voluntários, visando principalmente os atingidos pela inundação. Foram cerca de 390 pessoas beneficiadas”, detalha Nasi.
Para o superintendente após as enchentes o principal legado é, sem dúvida, a força da união para superar os desafios. “O Hospital Moinhos de Vento tem como propósito Cuidar das Pessoas — e não mediu esforços para manter seu atendimento à população, assim como aos seus colaboradores”, afirma.
Educação financeira também é fundamental
Após o período de enchentes, um dos mais delicados e dramáticos da história do Rio Grande do Sul, que contou com ações do Sistema Unicred através de campanhas de arrecadação de recursos, a atuação foi focada na retomada da parte profissional da população, oferecendo aos cooperados formas de alavancar a recuperação de quem teve seu negócio atingido, principalmente na área da saúde. Para isso, foram realizadas iniciativas e linhas específicas pensadas para dar apoio aos profissionais da saúde em seu momento de retomada.
Nesta recuperação, um dos fatores considerados importantes é o cuidado com a educação financeira. Segundo o médico e presidente do Conselho de Administração da Unicred Central Geração, Antônio César de Oliveira Cé, a educação financeira vai ao encontro do quinto princípio do cooperativismo, que fala sobre educação, formação e informação. “Ela emerge cada vez mais como um pilar vital em nossa sociedade, capacitando indivíduos a organizar suas finanças, definir metas e equilibrar consumo e poupança para alcançar seus sonhos e garantir um futuro próspero”, explica.
Na área da saúde, a demanda por serviços médicos e de outros profissionais é alta e necessária para a manutenção da qualidade de vida e o combate a diferentes tipos de doenças. O profissional pode atender em hospitais ou abrir seu próprio consultório ou clínica. Nesse último caso, ele precisa agir como um gestor de empresas. “Neste cenário, a educação financeira para médicos permite que eles obtenham autonomia controlando o capital de giro, o fluxo de caixa, os relatórios, os sistemas de gestão e os investimentos. A gestão das finanças causa impacto direto nessas análises, nas decisões e nos planejamentos, sendo um fator determinante para o sucesso da carreira médica. Por isso, é tão importante para a vida do profissional”, afirma Cé.
Ainda conforme o presidente, em um período crítico como o que se vivenciou em razão das enchentes no Rio Grande do Sul, é importante que o profissional tenha consigo os conceitos de educação financeira para saber lidar com possíveis adversidades, apoiado em um planejamento bem elaborado. “Imprevistos acontecem, mas há possibilidades de reduzir prejuízos diante dessas situações. Um exemplo disso são os seguros, que trazem mais proteção ao patrimônio”, enfatiza Cé.