Viajar é preciso, já diz o conhecido bordão, porém, há quem deixe o conforto do lar fixo para trás em busca de aventuras mais extensas e igualmente ousadas para fugir da rotina, se reconectar com a natureza ou ter uma jornada de descobertas pessoais. Seja como for, o mercado dos viajantes sobre quatro rodas pelo Brasil e pelo continente sul-americano com origens no Rio Grande do Sul se expande.
A prática, retratada primorosamente em filmes como “Na Natureza Selvagem”, de 2007, na vida real ganhou novo impulso pelo pós-Covid-19, que, antes, na ocasião da pandemia, havia trazido justamente o isolamento total como regra. Com a chegada de novas tecnologias, veículos como trailers e motorhomes passaram a ter tantos equipamentos quanto os de uma residência regular, assim como se tornou possível a adaptação de automóveis menores, fazendo com que praticamente qualquer lugar seja a casa do viajante.
Soma-se a isto a divulgação de canais dedicados ao assunto, com criação profissional, em redes como YouTube e Instagram. Para Roberto Sosinski Martins, ex-presidente da Associação Gaúcha dos Proprietários de Veículos de Recreação (Rancho Móvel) e hoje conselheiro da entidade, o campismo foi criado como uma alternativa econômica para conhecer cidades e outras pessoas.
Ele acampa desde 1973, sendo que, naquela época, afirma, os veículos eram praticamente adaptações de ônibus antigos ou similares. “Começou com barracas, um fogão simples com tijolos e uma mesinha de tábua. Hoje, você tem, por exemplo, aquecedores a diesel, painéis solares para carregamento de baterias, refrigeradores modernos, entre muitos outros”, comenta ele.
“Meca dos veículos” fica no Rio Grande do Sul
O clube foi fundado em 1977, inspirado em uma iniciativa existente na Argentina. Na época, Martins viajava entre as praias gaúchas, de Santa Catarina e do Paraná. O primeiro veículo recreativo brasileiro é do início da década de 1960, com o Brasinca Trei-Lar, com o Rio Grande do Sul vindo logo após, com a empresa Turiscar, de Novo Hamburgo, apresentando um protótipo no Salão do Automóvel de São Paulo.
A companhia gaúcha chegou a fabricar mais de 70 unidades por mês e o município do Vale do Sinos era a “meca do setor”, já que, segundo o ex-presidente, muitos de seus ex-funcionários fundaram empresas próprias nesta cidade. Em 1997, a proibição do uso da carteira nacional de habilitação categoria B para o reboque de trailers de turismo frustrou o mercado, fazendo-o estagnar, até, ao menos, 2011, quando o Código Nacional de Trânsito foi atualizado.
Atualmente, o mercado enfrenta novos desafios, como os juros altos para aquisição de equipamentos e uma relativa falta de interesse do setor público, assim como de parte do próprio empresariado. “O Rio Grande do Sul é ‘final de linha’, então ficou mais difícil prosperar aqui”, comenta Alexandre Rodolfo Boff, fundador e diretor da Expomotorhome, considerada a maior feira do setor da América Latina, iniciada em Novo Hamburgo em 2016 e hoje realizada em São José dos Pinhais, região Metropolitana de Curitiba, no Paraná, onde há melhores condições, acrescenta.
“Santa Catarina, Paraná e São Paulo estão despontando com muitas fábricas”, diz ele, também campista desde a década de 1970. Ainda de acordo com o empresário, o campismo impulsiona a economia local, pois estas pessoas consomem em estabelecimentos, a exemplo de farmácias, restaurantes e shopping centers, nas cidades em que visitam. Um estudo técnico realizado pelo Expomotorhome apontou que o mercado de campismo e caravanismo no Brasil movimentou mais de R$ 1,5 bilhão em 2023, representando aumento de 30% em relação ao ano anterior.
Faltam pontos de apoio
Embora Boff reconheça haver iniciativas pontuais de criação e manutenção de locais de pouso dedicados ao camping em solo gaúcho, de maneira geral falta infraestrutura no Estado, sendo que o Rio Grande do Sul é o estado com mais empreendimentos desse tipo, com 312, de acordo com o Sebrae, mais do que o Centro-Oeste (203) e o Norte (74) somados. A situação é a mesma em Porto Alegre, que tem três campings e onde, na visão de Boff, há uma extensa área rural pouco aproveitada para a permanência destes viajantes.
A secretária Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos (SMDETE), Fernanda Barth, reconhece que a Capital tem um potencial não explorado. “O turismo sobre rodas, com trailers, motorhomes e mochileiros, cresceu muito nos últimos anos e precisamos acompanhar esta mudança”, observou ela. “Estamos cientes da carência de infraestrutura adequada, como campings urbanos e espaços preparados para este público. Este tema já está no nosso radar e vamos buscar soluções que tornem a cidade mais atrativa também para esse perfil de visitante”, acrescentou ela.
Enquanto isso, no interior, o município de Tupandi é considerado o pioneiro no RS na instalação de ao menos um ponto de apoio para trailers e motorhomes, junto ao Ginásio Poliesportivo Júlio Redecker. De acordo com a Prefeitura de Tupandi, somente dois encontros de campismo realizados em 2022 foram responsáveis por injetar mais de R$ 155 mil no comércio da cidade. Um ano antes, representantes locais chegaram a se reunir com o secretário Estadual de Turismo, Ronaldo Santini, entregando um ofício a ele, a fim de fomentar a atividade no RS. Ao menos mais um ponto do gênero foi inaugurado, em Estrela, no Vale do Taquari. “O turismo de campismo e dos viajantes nômades tem ganhado cada vez mais espaço no nosso planejamento. É um perfil de visitante que busca experiências autênticas e movimenta fortemente a economia local, com impacto em setores como alimentação, serviços, artesanato e manutenção veicular”, salientou Santini, citando Novo Hamburgo como um polo de “referência nacional” na fabricação destes veículos.
“Sabemos que as enchentes de maio de 2024 impactaram estruturas voltadas a este público, como campings e áreas de apoio. Temos recebido estas demandas e estamos atentos às necessidades do segmento. A secretaria atua de forma integrada com outras pastas e com os municípios para qualificar a infraestrutura turística e acolher todos os perfis de viajantes”, acrescentou.
Setor em alta
Dados do Sebrae, citando levantamento da consultoria Statista, mostram que o setor apresentou expansão no faturamento no Brasil entre 2017 e 2019, ano em que movimentou 35,1 milhões de dólares. Com a pandemia, no entanto, 2020 teve queda expressiva de 54,7%, registrando 15,9 milhões de dólares naquele ano. O segmento se recuperou rapidamente em 2021, com crescimento de 13%, e, em 2025, estima-se que deva movimentar 26,5 milhões de dólares, e 30,1 milhões de dólares em 2027.
Nos próximos anos o setor deve seguir em alta, com taxas anuais de crescimento entre 6,3% e 11,2%. Ainda segundo o Sebrae, o número de campistas no Brasil ainda é relativamente baixo, com cerca de 400 mil entre 2017 e 2019, número que caiu para 200 mil em 2020, mas que deve subir para 300 mil este ano. Em comparação, os Estados Unidos tinha 55,6 milhões de campistas em 2022.
A maioria das pessoas que faz este tipo de atividade no Brasil é da geração millennial (nascidos entre 1985 e 1999), com 54% do total, porém há um crescimento da geração Z (nascidos entre 2000 e 2010), com 13% em 2021, ante 9% em 2019. A possibilidade de trabalhar enquanto acampa, os chamados nômades digitais, também é vista como nova tendência: 37% fizeram isso em 2019, número que subiu para 46% dois anos mais tarde.
Histórias de quem faz do caminho seu lar
Depois de dois anos de viagem, iniciada em julho de 2023 a partir de sua residência, no bairro Três Figueiras, em Porto Alegre, e milhares de quilômetros percorridos em sua maioria pelo litoral brasileiro, o designer Nando Martins quer voltar. A bordo de um veículo adaptado e apenas com a cadela Nina como companheira, ele pensa em retornar em dezembro ao Rio Grande do Sul, a fim de se reconectar com amigos e colegas de trabalho.
“É bastante tempo sem voltar para casa”, salienta ele, observando que a experiência transformou sua perspectiva de vida. Percorrendo todo o Sul, Sudeste e grande parte do Nordeste, Nando afirma que viveu “ciclos” nos locais em que parava. “É muito bacana essa experiência de poder me conectar com as culturas de cada lugar. Aprendi a dançar forró, fiz aula de música, toquei tambor, estou aprendendo a surfar, tive a oportunidade de fazer escalada na Chapada Diamantina”, recorda.
“São experiências que vou levar para a vida. Acho que a viagem está me trazendo a visão de poder trabalhar com outras coisas, ter outros diálogos, conhecer pessoas que fazem coisas completamente diferentes”, salientou. A tecnologia ajuda e ele, que chegou a ficar dois meses morando no automóvel, reconhece a necessidade de atentar para rotinas de exercício físico, trabalho e alimentação adequadas.
Nina, que havia sido adotada pelo designer, está bem e tem sido uma companheira fiel durante toda a jornada. “Sinto que ela ficou um pouco mais atlética e forte.” Mesmo com o retorno ao solo gaúcho, Nando não pretende permanecer muito tempo na capital gaúcha. Envolvido com projetos particulares de construção de casas itinerantes na Serra Gaúcha, sua intenção é voltar novamente para a estrada logo depois, talvez se estabelecendo na Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, onde já adquiriu um terreno, ou ir para São Paulo ou visitar o irmão na Holanda.
“Apesar de querer voltar para Porto Alegre e passar um período, acho que aprendi a viver de outra forma e sinto que não preciso mais dos mesmos confortos e das mesmas coisas. Sinto que me adapto muito mais facilmente hoje em dia, passando uma temporada em um lugar, outra em outro. Não me vejo, neste momento, me fixando num local”, salientou o designer. A experiência também serve para conhecer outras pessoas e culturas. “Sinto que consegui sair daquela minha bolha, em que somente trabalhava com fotografia e audiovisual. Não que tenha deixado de fazer isto, porém a viagem está me dando a visão de poder atuar com outras coisas, ter outros diálogos, conhecer pessoas que fazem coisas completamente diferentes."
A bordo de uma Sprinter 515 ano 2019, o casal Leonardo Nunes e Ana Lilian dos Santos Leite são hoje os “Nômades”, alcunha para o projeto iniciado em 2021, quando ambos se aposentaram, ele como coronel da reserva da Brigada Militar (BM) e ela como corretora de seguros. Deram início, assim, a uma jornada na estrada para conhecer o mundo, cruzando, até o momento, 19 países e quase todos os estados do Brasil. No YouTube, eles contam com 71 mil inscritos, enquanto no Instagram, 63 mil até o fechamento desta reportagem.
“Nossa experiência mais intensa começou em setembro de 2021, logo após minha aposentadoria. Saímos a viajar pelo Brasil por cerca de um ano e meio, até 2022. Depois, em 2023, fizemos uma viagem pela América do Sul, fazendo Uruguai, Argentina e Chile. Voltamos, obtivemos um novo motorhome e fizemos com ele quase todo o Brasil e alguns outros países. Retornamos para montar um novo e, enquanto ele estava sendo montado, para não ficarmos parados, compramos um automóvel Chevrolet Spin, com cama, caixa d’água, tudo dentro dele”, relatou Leonardo.
Com ele, a viagem foi de pouco mais de cem dias, contornando o país de oeste até a Ilha de Marajó, no Pará, passando pelos estados do Nordeste até o Rio Grande do Sul novamente. Em março de 2024, com o veículo maior concluído, novamente nações da América do Sul foram o destino, com o roteiro incluindo Argentina, Paraguai, Chile, Peru, Bolívia e Uruguai. O casal retornou ao Rio Grande do Sul no final do ano passado, mas de novo foi para a estrada.
“Estamos bem satisfeitos com esta vida de nômades e não tivemos grandes perrengues”, acrescentou. Apesar das falhas de infraestrutura em muitos locais onde pousam, a quebra da rotina dos viajantes tem sido proveitosa para o casal. “As pessoas acabam descartando detritos também em locais inadequados. Em algumas cidades Brasil afora, a situação é bastante precária, não há nenhuma organização por parte das prefeituras para receber os motorhomes, alguns inclusive proíbem a entrada deles, porém percebemos que a estrutura dos locais está melhorando. Nos organizamos durante mais de 30 anos para viver esta vida”.