Só Carlos são três: Carlos Henrique, Carlos Alberto e Carlos Rubem. Há também dois Luiz, mas de resto predomina a variedade: tem Eduardo, Fernando, Rogério, José, João, Gustavo, Rafael, Sérgio e por aí vai. Os nomes mudam bastante. O que não muda é o pronome, quase sempre masculino. Das 34 principais federações esportivas do Rio Grande do Sul, apenas duas são presididas por mulheres: Claudisseia Santos no breaking e Karina Harbich Johannpeter nos esportes equestres. Se a participação feminina no esporte brasileiro tem aumentado e se destacado cada vez mais nos últimos anos, vide o desempenho nos Jogos Olímpicos de Paris-2024, nos gabinetes presidenciais a caneta continua com eles.
Em maio de 2018, o Correio do Povo realizou um levantamento que mostrava mulheres à frente de apenas uma federação, o remo, e de um clube esportivo, o Vôlei Canoas. Passados seis anos, os números continuam minguados. Nem mesmo ampliar o escopo da pesquisa parece fazer diferença. À época, foram analisadas 21 federações e 12 clubes de diferentes modalidades. Desta vez, foram 34 e 18, respectivamente, mas quase nada mudou e, hoje, apenas 5,8% das entidades e 5,5% das agremiações têm condução feminina. O único clube é o mesmo Vôlei Canoas, agora renomeado como APAV Vôlei, presidido por Eliane Graciolli.
“Infelizmente, esse dado não surpreende. O esporte é um ambiente predominantemente masculino e há uma cultura enraizada na nossa sociedade que, por muito tempo, limitou a presença feminina em posições de poder e decisão. No esporte, essa realidade não é diferente. Temos feito avanços importantes nos últimos anos, mas ainda estamos longe da efetiva igualdade que almejamos”, avalia Leila Barros, medalhista olímpica em Atlanta-1996 e Sydney-2000, um dos nomes mais conhecidos do vôlei feminino brasileiro e que hoje é senadora em Brasília.
Pesquisadoras que têm se dedicado ao tema nos últimos anos corroboram a visão da campeã pan-americana. Para Silvana Goellner, por exemplo, a presença nas entidades tem aumentado, mas não necessariamente vem acompanhada da assinatura final e do poder de decisão. “Existem mais mulheres em cargos secundários no esporte, mas são lideranças na sombra. A última palavra é sempre masculina. No privado das federações, o protagonismo feminino é grande, mas no público é sempre o homem que aparece”, define.
Uma rápida passagem pelo organograma de federações e clubes gaúchos, no entanto, mostra como até mesmo esse papel de atuação interna varia. Sim, há casos de entidades nas quais elas estão presentes em grande número. Na ginástica, das 29 diretorias, 15 têm comando feminino; nos esportes equestres, são seis de 12. Mas há números na direção contrária.
A federação de atletismo, por exemplo, indica em seu site oficial uma mesa composta por 16 nomes, exclusivamente masculina. Mesmo os clubes mais tradicionais da Capital, como Sogipa, Grêmio Náutico União e Leopoldina Juvenil, todos têm à frente do departamento de esportes homens. Os dados do levantamento do CP miram o âmbito regional, mas a realidade, tanto no cenário nacional como mundial, não é muito diferente. Hoje no Brasil apenas duas das 34 confederações esportivas são presididas por mulheres, um índice de 5,8%, percentual parecido quando ampliado o leque para as federações internacionais, que é de 7%.
Nem mesmo quando o quadro é transportado para dentro de campo, o contexto sobre a presença feminina em cargos de liderança se altera. Pegue-se o futebol feminino, por exemplo. Com apenas 18% de treinadoras, a previsão, de acordo com um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é que, a julgar a atual linha de crescimento, a balança entre homens e mulheres comandando equipes femininas só se igualaria em 2038. “Isso se não houver nenhuma quebra nessa linearidade”, ainda pondera Júlia Barreira, uma das autoras do material.
Ainda de acordo com ela, os dados indicam que o aumento na participação das mulheres no esporte tem de fato acontecido, mas, em grande parte, em funções mais técnicas. “Quanto mais se aproxima nos cargos de liderança, menor é a participação delas. Foi assumido que os homens seriam líderes naturais e se criou um discurso de que as mulheres não teriam interesse. E é um discurso que se perpetua até hoje”, observa.
UMA BALANÇA SEMPRE DESEQUILIBRADA
A troca já estava definida. O então presidente de um dos mais renomados clubes da Capital decidira trocar o comando da gerência de esportes. Não era necessariamente uma decisão tão complicada, já que a sucessão era óbvia. Os anos anteriores haviam deixado claro que Ana Valesca Bastos estava mais do que preparada para o cargo. Portanto, quando chamada à sala da presidência, não recebeu com surpresa o convite. Junto com as boas novas, contudo, veio um asterisco. “Vamos te colocar porque vemos que tens competência, mas mudaremos o nome do cargo. Não vai mais ser gerente de esportes, vai ser coordenação de esportes”, disse o dirigente.
O convite foi aceito de qualquer forma, afinal não era uma oportunidade trivial. No entanto, aquela fala ficou guardada como se esperasse o momento ideal para reflexão. Que só veio anos depois. “Ele mesmo disse que era porque eu era mulher e a aceitação da diretoria não seria a mesma. Se fosse um homem, ficava o mesmo nome. Ele foi claro ao falar. Na época para mim era só um nome, mas depois tu começa a pensar… Mas tudo bem, é o tempo. Acredito que as coisas ainda podem mudar”, avalia hoje.
Anos depois, Ana Valesca viria a presidir a Federação de Remo do Rio Grande do Sul por duas gestões, algo que poucas mulheres tiveram a oportunidade em qualquer entidade do Estado. Do caminho, valoriza as lições aprendidas. “Antes de assumir a presidência eu já fazia muita coisa administrativa, então tive uma preparação que foram esses homens que me ajudaram nisso, não posso falar que fiz tudo sozinha porque não foi assim”, relembra, antes de completar: “Nunca faltou respeito, mas tive que me impor”.
Para tanto uma das estratégias foi dominar de cabo a rabo o estatuto. A cada contestação, citava uma passagem do regulamento que a respaldava, sem nunca perder de vista que em determinados momentos, ceder não era sinal de fraqueza.
A situação vivida por Ana Valesca não passa nem perto de ser uma exceção. Se há uma constante nas falas quando o tema são as oportunidades recebidas em cargos de liderança, é a diferença no tratamento recebido. “As mulheres tendem a ter um currículo mais extenso porque é a única forma de serem aceitas em determinados ambientes. Se for igual ao currículo de homem, ele vai ser o escolhido”, indica a pesquisadora Júlia Barreira, que há anos estuda a presença feminina em cargos de liderança no esporte.
Também pesquisadora, Euza Maria de Paiva Gomes busca na economia um termo que explica essa diferença: teto de vidro. “É como se houvesse essa barreira que impede as mulheres de chegar a cargos mais altos. As que conseguem têm um novo tipo de família, geralmente sem filhos, diferente daquele modelo mais tradicional, em que ficam em casa cuidando das crianças”, explica.
Para ela, não há interesse masculino em dividir o poder, logo surge como lógica a desconfiança em colocar uma parceira nos andares mais acima: “Temos espaços nos clubes, federações, ministérios. Mas é difícil avançar. Temos mulheres competentes, mas é como na política, parece que os homens não votam nelas para serem dirigentes.”
‘Não dou nem chance de me cobrarem’
Marianita Nascimento é um nome histórico no Grêmio. Uma das precursoras do futebol feminino no Rio Grande do Sul, foi capitã do primeiro time, em 1980, e lutou ativamente para que a modalidade deixasse de ser proibida no país. “Muitos não sabem, mas o anteprojeto da liberação foi escrito aqui na Federação Gaúcha de Futebol”, diz Marianita. Por tudo que representa para a história tricolor, era natural o seu retorno ao clube. Uma volta que só não veio antes por uma decisão dela.
Assim que se elegeu presidente, Alberto Guerra chamou a ex-jogadora e formalizou o convite. “Levei um ano para aceitar porque precisava me preparar. Ou eu mergulho por inteiro ou eu não faço. Não vim aqui para ser fantoche”, afirma ela.
Dito e feito, após um ano de estudos, ao final de 2023, como havia acertado, Marianita assumiu o departamento de futebol feminino do Grêmio. Aos 63 anos, sabe que a margem de erro para uma gestora no esporte é menor do que para um gestor, por isso trata de não deixar escapar nenhum detalhe.
“As oportunidades para nós, mulheres, são muito restritas, parece que tem um sistema que sempre favorece os homens. Que eu sirva de exemplo para que outras possam ter essa chance que estou tendo”, afirma, revelando um aspecto que se repete entre gestoras e treinadoras: um nível de autocobrança muito acima do comum. “Sempre me exigi muito. Não dou nem oportunidade para as pessoas me cobrarem”.
Essa autocobrança por vezes exacerbada muitas vezes demora a ser superada mesmo com os resultados positivos aparecendo no esporte. Martha Rocha, por exemplo. Em meio a dezenas de homens, é a única técnica de alto rendimento no cenário da vela nacional. Treina nada menos do que a dupla formada por Martine Grael e Kahena Kunze, bicampeãs olímpicas e com um currículo que dispensa maiores apresentações. Ainda assim, mesmo após as primeiras conquistas significativas, ainda se cobrava como se algo faltasse.
“Eu sempre colocava como referência técnicos do masculino, eram o meu exemplo, não me achava tão boa. Até que começaram a vir os resultados, minhas atletas foram campeãs e comecei a pensar: ‘Opa, pera aí, esses caras que eu sempre achei tão fantásticos não têm esses resultados que eu tenho’. Ali comecei a pensar, eu posso não ter alguns fatores que eles trabalham, mas tenho outros. Eu trabalho os aspectos motivacionais melhor, consigo ler melhor o atleta, tenho uma visão mais ampla da gestão de equipe. Enfim, comecei a parar de focar no que não tinha de bom, e sim no que tinha”, conta.
Para Martha, culturalmente aos homens a tolerância com os erros sempre foi maior, por isso, enquanto o público masculino é estimulado a tentar mais, ousar mais, o feminino teme tanto o erro e daí vem uma cobrança exagerada. “Talvez o nosso desafio seja o de aprender um pouco com eles a se permitir aventurar, experimentar e a partir dos erros, ir aprendendo. Se não errarmos, nunca vamos aprender e sair desse lugar”, aponta.
Sem paciência para questões políticas
À frente da secretaria técnica da Federação Gaúcha de Ginástica há sete anos, Mariza Leite teria tudo para assumir a presidência se quisesse. Articulada nas palavras e com muito domínio de tudo que acontece na federação, o próprio presidente João Carlos Oliva corrobora o preparo da colega de estar no cargo mais alto da entidade. "Competência ela tem sobrando, já conhece todos os processos de trabalho daqui. Tanto que eu nem me meto no que os comitês tratam porque ela faz toda essa parte", reafirma João.
No entanto, a razão de Mariza recusar o convite não é muito diferente da de outras mulheres: a falta de gosto pela parte política que uma gestão carrega. Primeiro, porque nem todas elas se sentem prontas para assumir os cargos de decisão, dominado por homens. Depois, porque as chateações e preocupações às vezes podem ser grandes. "Eu sou muito prática, muito direta, por isso não gosto de cargos assim. Atuo, falo no microfone, faço o que tiver que fazer, mas não gosto dessa parte de política", destaca Mariza.
A fala dela remonta às características que uma gestão feminina pode ter, inclusive em esportes considerados mais masculinos como o futebol. Marianita Nascimento destaca que a forma de uma mulher liderar é totalmente diferente de um homem, principalmente porque elas tendem a ser mais detalhistas em diferentes aspectos.
“Temos um certo cuidado e vamos mais a fundo. Por exemplo, se dois homens jogando tiverem uma briguinha, uma discussão, eles saem, vão para o banho e depois estão na mesa de um bar. A mulher, dependendo do que é falado, vai ficar triste, aborrecida, vai querer falar sobre o que aconteceu. É diferente, a mulher tem TPM. Então, o que pode passar despercebido por um homem, a mulher em geral percebe”, explica.
Muito se pensa que a ginástica, por ser um esporte majoritariamente praticado por mulheres, também oportuniza a elas cargos de liderança, diferentemente do futebol, por exemplo. Por um lado, não deixa de ser verdade, considerando que 80% da gestão da Federação Gaúcha é feminina. Mesmo assim, a decisão final segue sendo deles.
João Carlos conta que os critérios da escolha para a presidência são os mesmos para homens e mulheres: competência e indicações dos clubes. Se o percurso é igual, por que então elas não chegam ao topo? O dirigente avalia que um desses fatores pode ser falta de ambição. "Muitas mulheres pecam porque têm essa dúvida se têm competência administrativa. E muitas têm. A formação delas é a mesma nossa: ex-atleta, técnico, dirigente. Elas passaram por tudo isso também, mas talvez não tenham essa ambição", afirma o presidente.
Ceia chegou lá, contra tudo e contra todos
Se por um lado, o número de gestoras na ginástica é alto, quando Claudisseia Santos, presidente da Federação Gaúcha de Breaking, iniciou na modalidade, não encontrou presença feminina nem mesmo durante as aulas. A b-girl, hoje com 42 anos, teve a vida transformada pelo breaking, que ingressou em 2006, aos 26, após o casamento de dez anos ser interrompido pela violência doméstica. "Eu perguntei por que tinha tão poucas b-girls dançando e um integrante me respondeu: 'É uma dança difícil, que machuca’. E eu, que vim da violência doméstica, olhei para ele e respondi que eu podia me atirar no chão que não seria nada", salienta Ceia, seu nome de b-girl.
Mãe do primeiro filho com apenas 15 anos, a dirigente teve o segundo com 18 e o terceiro com 21. Aos 25, viu que precisaria investir em uma carreira para criá-los e decidiu retomar os estudos, concluir o ensino médio e ingressar na faculdade.
"Queria estudar e tive que enfrentar essa resistência do meu marido. Mesmo assim, concluí o ensino médio e passei no vestibular. Mas quando voltei do primeiro dia de prova, ele estava me esperando com todas as facas afiadas na mesa e em uma discussão, se botou em mim e me esfaqueou. Dei sorte que aquele dia minha mãe tinha ido me visitar, presenciou a situação, me acudiu e ali demos um fim nessa relação", conta.
O machismo enfrentado em casa foi refletido no breaking ao longo de toda a carreira. Durante três anos, Ceia competiu sozinha nos campeonatos, pelo simples fato de não existirem outras b-girls nestes espaços. Apesar dos empecilhos, tornou-se ativista, militante e arte-educadora na modalidade, passou a dar aulas e conseguiu criar os três filhos com a renda do esporte.
"Para eu existir, tinha que criar situações, criar espaços para ter um momento de aparecer e outras também aparecerem", destaca. A trajetória com tantas experiências foi o suficiente para que, em 2018, quando surgiu a ideia inicial de fundar uma Federação Gaúcha de Breaking, seu nome fosse o primeiro a surgir pelos colegas. Mesmo assim, houve resistência da criação de uma federação, que só foi concretizada em 2022.
Moradora do bairro Restinga, no extremo-sul de Porto Alegre, Ceia descobriu em 2019 um ginásio abandonado em uma área industrial do bairro e decidiu adotá-lo como sede da entidade. A partir daí, os desafios só aumentaram. "O fato de querer fundar uma federação, implementar um projeto dessa magnitude aqui e ainda sendo mulher foi um desafio enorme. Vocês não têm ideia das mil situações que a gente viveu aqui. Era um lugar de descarte, então, quando chegamos, nós fomos roubados, levavam grades, portões", relembra.
"Sofremos perseguição, me intimidaram de todas as formas para eu sair desse lugar, mas resisti e comecei a ir à Prefeitura, pressionar para conseguir o termo de permanência", conta. Apesar da insistência, o Termo de Permissão de Uso (TPU) só foi assegurado cinco anos depois da chegada de Ceia no local.
Acostumada a se impor para tudo durante toda a vida, a b-girl reforça a ideia de que, se fosse um homem ocupando a presidência no seu lugar, teria menos obstáculos em trâmites como este. "Se fosse um homem, em um ano tinha arrumado tudo isso. Até 2022, nos sentíamos invisíveis. Eu falava e as pessoas não estavam nem aí", lamenta.
Uma vitória histórica no COB
Fundado em 1914, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) só teve nove presidentes ao longo de seus 110 anos. Esse dado por si só talvez afaste qualquer surpresa pela entidade nunca ter sido conduzida por uma mulher. Ainda assim, quando foi convencida a fazer parte da chapa que concorreria à eleição para o mandato que se inicia a partir de 2025, Yane Marques revela que não sabia o tamanho daquele movimento.
“Quando me dispus à candidatura, nem me veio à cabeça que seria algo inédito. Só depois vi que nunca teve uma presidente ou mesmo uma candidata. E aí me pergunto o porquê. Porque, se eu penso no futuro, espero estar abrindo as portas para encorajar outras mulheres”, afirma.
Estofo para assumir cargo tão importante no cenário esportivo brasileiro não falta a Yane. Como atleta, foi medalhista olímpica em Londres-2012, conquistando bronze no pentatlo moderno. O lado gestora, por sua vez, surgiu um tanto quanto por acaso. “Vocação para gestão e política não sabia que tinha. Em 2016, me preparei para encerrar a carreira. Tinha terminado curso de educação física, queria ser professora ou treinadora, também pensei em projetos sociais. Enfim, queria trabalhar com esporte de alguma forma. E aí surgiu o convite para a secretaria esportes da prefeitura aqui em Recife.”
O convite foi aceito, não sem antes uma conversa com o então prefeito Geraldo Júlio sobre os ciclos de experiências que teria pela frente. “Foi um processo de aprendizado, de familiarização, de esbarrar em situações que me deram maturidade e conhecimento.” Nos gabinetes, Yane, que sempre competiu em uma modalidade individual, se viu dependendo de outras forças. “Como atleta, sempre dependi só de mim, enquanto na gestão a gente tem que entender que só dá um passo com autorizações, processos e ritos”, observa.
Veio então, em 2020, o primeiro convite para fazer parte de uma chapa na eleição do COB. “Não me senti pronta. Pensei, que legal que veem em mim esse potencial, mas estou começando agora.” Apesar de a negativa ter uma carga de autocobrança, a medalhista não credita a decisão ao gênero. “Não sei se minha negativa em 2020 foi porque sou mulher e só posso entrar quando estiver pronta. Sempre gostei mais de treinar do que de competir. Eu era a louca do treino. E depois entendi que era porque precisava ir para a prova sabendo que fiz tudo que estava ao meu alcance. Em 2020, refleti e achei que era muita responsabilidade todos esses projetos. Comecei a colocar no papel e talvez fosse muito para aquele momento. Era preciso treinar um pouco mais. Mas não atribuiria isso ao gênero”, aponta.
Na sequência, a agora gestora foi escolhida presidente da Comissão dos Atletas do COB, o que tornava cada vez mais real a possibilidade de uma candidatura, confirmada esse ano, com Marco Antônio La Porta como cabeça de chapa. Em disputa apertada com o atual presidente Paulo Wanderley Teixeira, os desafiantes venceram por 30 votos a 25 no início de outubro. “Desta vez estou preparada, com os pés no chão. Essa composição me deu tranquilidade.”
O nome que está na chapa vencedora como vice-presidente é o de Yana Marques. A chegada de uma mulher ao alto escalão do COB tem outro significado e vem cercado de expectativas. “Ver uma mulher como vice-presidente do COB é muito inspirador”, afirma Martha Rocha, treinadora de alto rendimento da vela e bicampeã olímpica comandando a dupla Martine Grael e Kahena Kunze. “Ela estar lá desperta o desejo de outras meninas em saberem que também podem chegar lá”, avalia Silvana Goellner, pesquisadora e ativista do futebol de mulheres e professora aposentada da Ufrgs.
Medidas para impulsionar a presença feminina
Torcida e admiração ajudam, é claro, mas o que pode de fato impulsionar a presença de mais mulheres em cargos de liderança no mundo esportivo são medidas práticas. Tendo isso em mente, a senadora Leila Barros, quando relatora da Lei Geral do Esporte, incluiu dispositivos que condicionam o repasse de recursos públicos à presença mínima de 30% de mulheres nos cargos de direção das entidades esportivas.
Outra medida na mesma direção foi estabelecer a isonomia de prêmios para categorias masculina e feminina quando houver dinheiro público.
“Uma das minhas missões no Senado é ampliar a participação feminina em espaços de decisão, não só no esporte, mas também na política, na economia e em outras áreas. Quanto mais mulheres assumirem esses cargos, mais incentivo haverá para que outras se capacitem e busquem esses espaços”, afirma Leila, medalhista olímpica pela seleção feminina de vôlei em Atlanta-1996 e Sydney-2000.
Outra medida que busca reduzir as diferenças de gênero em cargos de decisão vem do Comitê Brasileiro de Clubes, que sinaliza que seus afiliados tenham pelo menos 30% de mulheres nos Conselhos Deliberativos. “Estamos caminhando para esse quadro”, adianta Ricardo Alves, diretor de esportes do Grêmio Náutico União.
O dirigente cita o sucesso da nadadora paralímpica Carol Santiago, vinculada ao GNU, como um fator que pode abrir portas ao público feminino. E coloca o clube à disposição para contribuir com a experiência. “Elas poderiam por exemplo assim, ó, se a gente quiser dar um espaço maior para as mulheres, a gente pode pegar e trazê-las, para ir tomando conhecimento, para ir pegando experiência”, sugere.
Apesar dos avanços, ainda há um longo caminho pela frente
Há poucos anos, era inimaginável um trio de mulheres apitando uma partida de futebol. Menos ainda pensar na presença delas ocupando um cargo de direção em um dos maiores clubes do RS, como é o caso de Marianita Nascimento. O número recorde de mulheres e o desempenho positivo feminino nos Jogos Olímpicos de Paris-2024 foram apenas os primeiros passos para começar as mudanças. Mas mais do que isso, é preciso que nomes como Yane Marques, Karina Harbich Johannpeter, Marianita Nascimento e Claudisseia Santos não sejam apenas exceções para que outras mulheres tenham ambição e inspiração de alcançarem cargos de liderança.
Um dos processos para a conquista deste espaço já está sendo feito com a implementação de projetos articulados pelo Comitê Olímpico Brasileiro. “O Programa de Desenvolvimento do Esporte Feminino cresceu muito de 2022 para cá, essa comissão pesquisa com dados quais barreiras ainda existem no esporte”, explica a treinadora de vela Martha Rocha.
Outra ação é uma cartilha de práticas focada na vela feminina. O material foi articulado em 2021 por Maria Hackerott, coordenadora da Vela Feminina na CBVela, junto com um coletivo de 40 mulheres. “Foi muito gostoso porque foram coisas que a gente viveu, mas não conseguimos colocar tão bem em palavras. Têm situações que nós, mulheres, passamos e a gente sempre acha que o problema é com a gente. Não conseguimos enxergar que tem a ver com gênero, algo sistematizado que se repete”, afirma Maria, que também é doutoranda na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo. A coordenadora também explica que, conforme as mulheres vão discutindo sobre o assunto, também se sentem mais confortáveis em fazer parte desses ambientes de liderança caso queiram.
Representatividade é importante mas não é tudo. Para que a palavra final também esteja nas mãos delas, são necessários processos mais justos aliados a espaços para que elas possam liderar. “Avançamos muito na participação esportiva, mas não teve esse mesmo avanço nos cargos de liderança. Enquanto eles estão lá, todos os recursos são controlados por eles”, afirma Júlia Barreira, pesquisadora e professora da Faculdade de Educação Física da Unicamp.
Outra perspectiva positiva para um futuro próximo é a Copa do Mundo Feminina em 2027 ser no Brasil. Para a pesquisadora Silvana Goellner, o fato pode ser um grande passo para o crescimento da visibilidade feminina também na gestão do esporte. “Tende a ser um ponto positivo pela pressão que deve existir por parte da sociedade civil sobre a CBF. Se apenas esperarem das instituições, nada vai acontecer. Mas também o que esperar de uma entidade em que um dos últimos presidentes foi afastado por assédio sexual?”, critica Silvana.
A equidade de gênero pode ter sido alcançada em piscinas, tatames e pódios, mas precisa atingir os cargos de liderança e decisão. Para isso, clubes e federações devem incentivar espaços de formação, além de ampliar o diálogo para que o ambiente se torne mais igualitário para as próximas gerações. “Parto do princípio de que toda a mulher em cargo de liderança se torna referência para as gerações futuras. Uma geração de meninas pode olhar para ela, se identificar e pensar: ‘Um dia eu posso chegar lá’”, projeta Júlia Barreira.
Relação das federações esportivas e clubes do RS pesquisadas no levantamento do CP:
Federações:
Atletismo - Marcos Paulo Garcia de Andrade
Badminton - Morroni Junior Lima
Basquete - Rogério Caberlon
Boxe - Rafael Maciel
Breaking - Claudisséia Santos
Canoagem - Michel de Carli
Ciclismo - Tiago Richerd Da Costa
Escalada (Montanhismo) - Eduardo Cesar Tondo
Esgrima - Silvio Dadia Sampaio
Futebol - Luciano Hocsman
Futsal - Nelson Bavier de Souza
Futebol americano - Phillipi Dias Waechter de Moraes
Ginástica - João Carlos Oliva
Golfe - Vinícius Fialho
Handebol - Sergio Luiz Chaves Alves
Esportes Equestres - Karina Harbich Johannpeter
Hóquei sobre a grama - Tobias Gernhardt
Judô - Luiz Bayard
Levantamento de peso - David Maikel Machado
Luta - Paulo Henrique Nichele
Natação - Toshio Tadano
Patinação - José Luiz Brun Lazzaroni
Remo - Werner Höher
Rugby - Fabiano Gelatti Ferrari
Skate - Régis Lannig
Surfe - Fernando Figueiredo da Cunha
Taekwondo - Olzemir Machado Junior
Tênis - Gustavo Kern
Tênis de mesa - Marco Bandeira
Tiro com arco - Jorge Sebastião Bernardo Silva
Tiro esportivo - Carlos Rubem Schreiner
Triatlo - Luiz Goebel
Vela - Carlos Henrique De Lorenzi
Vôlei - Carlos Alberto Cirmino
Clubes:
Sogipa - Adílio Schneider Finger
União - Paulo José Kolberg Bing
Leopoldina Juvenil - Paulo Corazza
Recreio da Juventude - Diego Frederico Biglia
Sociedade Ginástica NH - Jorge Leandro Dhein
Inter - Alexandre Barcellos
Grêmio - Alberto Guerra
Juventude - Fábio Pizzamiglio
Caxias Basquete - Bruno Bedin Tronca
União Corinthians - Felipe Teichmann
Jangadeiros - Cristiano Roberto Tatsch
Veleiros - Frederico Schramm Roth
Hípica - João Mazzaferro
ACBF - Bolívar Zuanazzi
Atlântico - Elton José Dalla Vecchia
Assoeva - Marcelo Garcia de Fonseca
Caxias Basquete - Bruno Bedin Tronca
APAV Canoas - Eliane Graciolli