Sequência de dias chuvosos com acumulados chegando a 300 milímetros em algumas regiões do Rio Grande do Sul. Elevação no nível de rios e enchentes em diversas cidades. Vendavais, granizos e até tornados. Quase metade dos municípios do Estado registrando danos por conta dos eventos climáticos extremos. Em pouco mais de duas semanas, o Rio Grande do Sul viveu e tem vivido dias intensos, que trazem à tona os avanços e também “furos” na previsão, na adaptação e na resiliência climática.
Os episódios que vêm sendo registrados nos últimos dias dão indícios daquilo que poderá se intensificar nos próximos meses, quando o Super El Niño atingir patamares críticos ao longo do segundo semestre de 2026 à medida que o fenômeno ganha força no Oceano Pacífico. Por conta desse prognóstico, as cheias, enxurradas e vendavais serviram como eventos testes para o restante do El Niño.
Neste sentido, a MetSul Meteorologia aponta que as projeções indicam que o atual cenário do fenômeno já é considerado muito forte, mas que segue em processo de fortalecimento. “Isso significa que seus efeitos sobre a circulação atmosférica tendem a aumentar durante o restante do inverno, alcançar intensidade ainda maior na primavera e permanecer ativos durante boa parte ou todo o verão”, disse o meteorologista Luiz Fernando Nachtigall.
Prognóstico para os próximos meses
De acordo com o instituto de meteorologia, o principal efeito do El Niño no Sul do Brasil será a chuva, com volumes excessivos a extremos se tornando cada vez mais frequentes durante o segundo semestre. Os próximos meses, entre agosto e outubro, serão marcados por precipitações acima da média para a época. Além disso, os dias de frios serão menos frequentes, com predomínio de períodos de dias com temperaturas quentes para o inverno e o início da primavera.
Nachtigall alerta ainda para a forma como a chuva será distribuída ao longo dos próximos meses. Ele ressalta que, no lugar de longos períodos secos intercalados por episódios isolados de chuva, como ocorre em invernos regulares, a atmosfera influenciada pelo El Niño passará a produzir sucessivas ondas de instabilidade, separadas por intervalos relativamente curtos de tempo firme.
“Na prática, significa que a chuva retorna repetidamente antes que o ambiente consiga se recuperar do episódio anterior. Os rios permanecem elevados, o solo segue encharcado e qualquer novo volume de precipitação passa a escoar com maior rapidez para arroios e grandes bacias hidrográficas, aumentando o risco de enchentes”, alertou Nachtigall.
Cenário parecido ao que foi vivenciado nas cheias desta semana no Rio Grande do Sul, onde um novo episódio de chuva se instalou logo após um período de grandes acumulados. “Antes mesmo de seu término, as projeções indicam outra rodada significativa de precipitação. Este comportamento não é coincidência. Trata-se da resposta da circulação atmosférica ao aquecimento excepcional das águas do oceano Pacífico Equatorial”, reforçou o meteorologista.
Desta forma, cada evento novo reflete em uma bacia hidrográfica já saturada, onde o solo tende a absorver menos água e os rios sobem com maior facilidade. Por isso, Nachtigall destaca que o risco durante o Super El Niño, que deverá se intensificar nos próximos meses, não está apenas em um evento extremo isolado, mas no efeito cumulativo provocado pela repetição das chuvas.
“Durante um El Niño forte, a atmosfera praticamente entra em um ciclo contínuo. Chove intensamente, ocorre uma breve melhora das condições do tempo e, poucos dias depois, uma nova perturbação atmosférica organiza outra rodada de precipitação. Este padrão é um dos principais responsáveis pelas grandes enchentes registradas em diversos episódios históricos de El Niño”, concluiu.
Prova de fogo para El Niño teve planos estruturados e desencontro de dados
Um dos principais pontos de contradição entre os órgãos públicos nesta primeira grande prova de fogo para o El Niño foi a incerteza na comunicação dos riscos existentes. Por um lado, informações que atualizam rápido demais e um turbilhão de avisos. Por outro, a forma e a velocidade na qual eles chegam.
Este tema foi citado inicialmente pela prefeita de Lajeado, Gláucia Schumacher, ainda na semana passada. Na ocasião, o Vale do Taquari findou a véspera da cheia com informações de que não havia possibilidade de enchente, mas acordou com o rio já acima da cota de inundação.
O plano de contingência foi acionado por volta das 2h, pouco depois do primeiro alerta enviado pela Defesa Civil Estadual. Quando o órgão emitiu um novo alerta, através de Cell Broadcast, que trava a tela dos celulares, o rio já havia superado a cota de inundação. Gláucia aponta que a resposta das autoridades municipais poderia ser melhor executada se as informações fossem enviadas com antecedência. “Precisamos ter a informação correta, ao menos seis horas antes, para que a gente consiga acionar todo o mecanismo logístico e de acolhida.”
Ainda no início da semana, o governador Eduardo Leite destacou que, mesmo com a prevenção realizada pelo Estado, não é possível impedir todos os transtornos, principalmente pelo fato das condições meteorológicas mudarem rapidamente. Ele apontou que existem limitações no sistema de alertas precoces, que qualificam as previsões, mas não eliminam incertezas.
Entre elas, onde a chuva mais intensa ocorrerá e como cada bacia hidrográfica responderá. Em atendimento à imprensa no Palácio Piratini, o governo reconheceu que há dificuldade em fazer a população compreender que as previsões representam um retrato do momento e podem ser alteradas conforme as condições atmosféricas evoluem.
“Ao passar a informação de que as projeções indicavam que não haveria inundações, nós falamos que esses dados poderiam ser alterados. Não é possível cravar com precisão o que poderá ocorrer, tanto do ponto de vista da chuva como do risco hidrológico. Zero impacto é impossível. Não podemos evitar o evento climático, mas podemos evitar desastres”, afirmou Leite.
Situação parecida com a de Lajeado foi relatada nesta semana no Vale do Paranhana. De acordo com o prefeito de Igrejinha, Leandro Horlle, a falha na comunicação ocorreu na quarta-feira, durante um episódio de inundação do rio. O gestor destaca que, inicialmente, a coordenadora municipal da Defesa Civil, Alessandra Azambuja, recebeu informações via aplicativo de mensagens por volta das 2h sobre possibilidade de deslizamentos.
Ele conta que a informação foi repassada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Horas depois, por volta das 7h, a prefeitura recebeu novo aviso do Cemaden, desta vez sobre risco hidrológico. Entretanto, neste horário, o rio já havia superado a cota de inundação. Ao menos cinco pessoas de duas famílias precisaram sair de casa por conta da cheia.
“O rio já estava 1 metro acima da cota. A Defesa Civil Estadual não nos enviou informação nenhuma, nem fez publicações em redes sociais sobre alertas para a região nas horas anteriores. Os avisos, ainda que tardios, foram do Cemaden. Não é de agora que a comunicação sobre o risco em eventos como este deixa a desejar. Já tivemos algumas discussões com a regional da Defesa Civil Estadual. Além disso, convenhamos que, em um tempo de tecnologia que vivemos, avisos não podem ser feitos por e-mail”, lamentou.
A coordenadora municipal da Defesa Civil explica que, para acionar toda a estrutura de resposta do órgão em caso de inundação, a janela prevê cerca de 2h de antecedência. Esse é o tempo estimado da descida do rio a partir de Três Coroas. Alessandra explica que a resposta foi imediata por conta do acompanhamento de câmeras instaladas por uma entidade privada que atua na região, o Observatório Heller & Jung, de Taquara. “Recentemente, o governo do Estado instalou uma estação hidrológica aqui que ainda não está operacional. Tem outra do Cemaden que está inoperante. Então, estamos carentes nessa questão. É a partir das câmeras instaladas pelo observatório que conseguimos acompanhar o rio.”
Procurado, o governo do Estado e a Defesa Civil Estadual contradisseram a afirmação da prefeitura, apontando que avisos vigentes desde o final de semana anterior incluíam Igrejinha em área de risco alto para possibilidade de temporais com chuva intensa, vendavais e queda de granizo, demonstrando também os riscos hidrológicos.
O órgão ressaltou ainda que, no dia 25 de julho, os prefeitos e coordenadores municipais da área da Coordenadoria Regional de Proteção e Defesa Civil da Região Metropolitana foram convidados para uma reunião. Entretanto, o governo afirma que os representantes de Igrejinha não participaram. O órgão também destacou ter compartilhado documento com o município com os riscos para a região.
Além disso, o governo do Estado apontou que a estação hidrológica instalada em Igrejinha está em funcionamento. Entretanto, salientou que não existe série histórica, pois depende de decurso temporal. Desta forma, ainda não existem limiares de inundação para o rio, que são alguns dos dados utilizados para a emissão de alertas. “A emissão de alertas é apenas uma das formas de comunicação com as comunidades locais, que deve ser, indispensavelmente, complementada, ampliada e individualizada pelos municípios”, completou em nota o governo.
Com relação ao funcionamento das estações hidrológicas, o Cemaden respondeu que, das nove instaladas no RS, apenas três estão em operação, em Teutônia, São Sebastião do Caí e São Lourenço do Sul. Os outros seis equipamentos do órgão, em Santa Maria, Sapucaia do Sul, Novo Hamburgo, Rolante, Três Coroas e Igrejinha, estão inativos.
O Cemaden ressalta que, conforme cronograma de manutenção vigente com empresa terceirizada, “as estações inativas deverão receber novas visitas técnicas até o final do ano”. Mesmo assim, o órgão apontou que utiliza dados e informações de outros equipamentos para emitir seus alertas e que as previsões são realizadas com 24 horas de antecedência.
Se a comunicação sobre riscos foi o principal ponto contestado, o planejamento de ações auxiliou as prefeituras na tomada de decisões e na mitigação dos impactos. De acordo com o coordenador da Defesa Civil Municipal de São Sebastião do Caí, Germano Bacedoni, a estruturação do Plano de Contingência, assim como sua apresentação à população, fez a diferença nos eventos dos últimos dias.
“Com isso, os procedimentos previstos para situações como essa já eram de conhecimento da comunidade, e cada secretaria e equipe sabia exatamente seu papel”, apontou. Ele também ressaltou que a comunicação direta com a população, principalmente através de boletins frequentes sobre o rio Caí, foram essenciais na resposta à inundação. “Isso deu mais segurança para as pessoas, evitou a circulação de informações desencontradas e permitiu que a população acompanhasse a situação em tempo real.”
Na ocasião, tendo em vista os avisos prévios de risco de inundação enviados pela Defesa Civil Estadual, os abrigos foram preparados antecipadamente. O coordenador destacou que, mesmo assim, apenas as pessoas que realmente precisaram deixar suas casas de forma preventiva foram acolhidas.
Ele reforçou que o órgão estadual realizou acompanhamento permanente durante o período crítico na cidade, auxiliando no alinhamento de informações, validação de cenários e dando segurança na tomada de decisões.
Já no caso de Igrejinha, o prefeito Horlle destacou a parceria de instituições privadas regionais, como o Observatório Heller & Jung, e a preparação de equipes em sobreaviso, mesmo que avisos de risco não tivessem sido emitidos. “Foi algo primordial, principalmente porque cada cidadão pode fazer seu próprio acompanhamento a partir da transmissão ao vivo na internet com as medições e imagens em tempo real do rio Paranhana”, disse o prefeito.
Aprendizado das cheias
Na visão da engenheira ambiental e professora da Universidade do Vale do Taquari (Univates) Sofia Royer Moraes, as lições destas duas semanas com enxurradas e cheias são corrigíveis. Mas, para isso, é necessário conhecer melhor o comportamento das bacias hidrográficas do RS. “A bacia Taquari-Antas é uma bacia de resposta muito rápida. O aprendizado não é abandonar a previsão meteorológica. Ela é indispensável para a antecedência e gestão de um desastre como um todo. O aprendizado é trabalhar com as duas fontes combinadas o tempo inteiro: a previsão dando o horizonte, e as estações automáticas dizendo, em tempo real, se o cenário previsto está se confirmando ou não. Numa bacia com alta velocidade de conversão da chuva em nível, cada hora entre o dado observado e a comunicação atualizada faz diferença”, apontou a pesquisadora, que é doutoranda em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs)
Sofia reforça que há um cuidado acerca da comunicação que os eventos recentes deixaram evidentes.
“Em situação meteorológica instável, toda informação tranquilizadora deveria vir acompanhada da sua condição, como ‘se a chuva se confirmar dentro do previsto’, e do horário da próxima atualização. É uma mudança pequena de linguagem que mantém todos atentos ao fato de que o quadro pode mudar”, completou.
Para ela, a embora a comunicação tenha chegado com pouca antecedência em algumas regiões, as ações de evacuação funcionaram. “Há três anos, essa mesma sequência de eventos teria terminado de outra forma. A cadeia de resposta dos municípios amadureceu, e é importante reconhecer”, disse a professora, que pesquisa eventos extremos e frequência de cheias na bacia Taquari-Antas com série reconstruída desde o século 19.
Com relação aos riscos para o restante do semestre, ela cita que é possível mitigar com a estrutura existente, principalmente a partir da melhora na capacidade de antecipação do que poderá ocorrer. “Nada disso exige equipamento novo, embora na Taquari-Antas devêssemos ter, pelo menos, uma estação hidrometeorológica por município. Mas, das lições aqui destacadas, é questão de protocolo. E protocolo se corrige em curto prazo”, finalizou.