De uma brincadeira entre amigos para se prepararem para o desfile de 20 de Setembro a um dos principais eventos culturais e turísticos do Rio Grande do Sul. Quem passeia pelos piquetes montados no Parque Harmonia, em Porto Alegre, nem imagina que o Acampamento Farroupilha iniciou de algo rotineiro na vida do gaúcho: celebrar o reencontro de amigos, assar um churrasco, tomar um mate, contar causos e celebrar a tradição.
No dia 19 de setembro de 1983, um grupo de amigos, no qual o tradicionalista Rene Barbachan fazia parte, montou acampamento no parque para se prepararem para o tradicional desfile de 20 de Setembro que ocorreria no dia seguinte. Naquele momento, foi criado o piquete Comparsa de Esquina, nome dado pelo payador Jayme Caetano Braun.
Barbachan, que foi homenageado como patrono do Acampamento Farroupilha de 2025, é um dos pioneiros daquele que viria a se tornar um dos principais eventos do calendário do RS. Ele recorda que, ao longo dos primeiros anos, os dias acampados no parque aumentaram. “No primeiro ano, fomos de sábado para domingo. No segundo, já fomos na sexta-feira. No terceiro, montamos acampamento na quinta. E assim começou a juntar cada vez mais gente”, lembrou.
O acampamento, improvisado para as vésperas do desfile, começou antes mesmo da criação oficial do evento, ainda na década de 1980. Barbachan conta que a estrutura nem de perto lembra a atual. “Tudo era feito sem água, sem luz e sem banheiro. Depois fomos nos ajeitando. A luz vinha de baterias. A água pegávamos em uma bica que corria no parque”, completou.
Outra tradição do Acampamento Farroupilha, de iniciar a montagem dos piquetes com semanas de antecedência, começou por conta de outra brincadeira, segundo o tradicionalista. “Havia uma disputa sadia para ver quem chegava primeiro para pegar o lote de esquina (em frente ao Centro Administrativo Fernando Ferrari). Ficamos sabendo que um dos grupos ia chegar 40 dias antes do 20 de Setembro com a mudança. Quando chegaram, já estávamos lá há três dias”, brincou.
Apesar disso, Barbachan destaca que, desde o início dos acampamentos, o objetivo sempre foi celebrar a cultura e a tradição do gaúcho. “E depois, principalmente a partir da década de 1990, começou a aumentar aquele movimento todo, com bolicho e lojinhas. As entidades começaram a montar seus piquetes também. Desde então, cada vez mais a gente vê um evento que agrega e evolui”, considerou.
“Brincadeira” que se espalhou pelo mundo
Barbachan recorda ainda que, em 2025, ano em que foi patrono, o evento recebeu cerca de 2 milhões de visitantes ao longo de mais de 20 dias no Parque da Harmonia. “Nunca imaginei que aquilo que começamos em 1983, em uma brincadeira de amigos antes de desfilar, tomaria essa dimensão toda”, celebrou.
Ele ressalta ainda que o amor às tradições fizeram o Acampamento Farroupilha crescer e ser replicado em várias cidades do RS, do Brasil e do mundo. “A semente do Harmonia se espalhou. Muitos locais possuem seus próprios acampamentos, com espaços destinados para esse tipo de evento. E isso mostra que ser gaúcho não é andar de bombacha o ano todo. Ser gaúcho é um estado de espírito”, afirmou.
“Criei meus filhos no parque”
Outro motivo de orgulho que conecta Barbachan ao Acampamento Farroupilha é a relação da família com o evento. Ele recorda que, desde o início, teve muito apoio do pai, Hélio Barbachan, que veio a falecer ainda em 1990. Após, decidiram mudar o nome do piquete para Agrupamento Crioulo Hélio Barbachan, conhecido como Fazendinha, que atualmente ocupa o lote 219 do acampamento.
Além disso, as participações de seus filhos, Andressa e Renan, também estão guardadas em sua memória. “O Renan nasceu no dia 16 de agosto de 1991 e dia 29 daquele mês já estava deitado em um berço dentro do piquete de madeira. Criei meus dois filhos dentro do Acampamento Farroupilha. Meu neto Luca, filho da Andressa, vai nascer nos próximos dias e tenho certeza que estará aqui no ano que vem”, concluiu Barbachan.